sexta-feira, 11 de julho de 2014

Craques das Copas: 1966 e 1982

Após falar um pouquinho sobre Garrincha e Maradona, craques das Copas do Mundo de 1966 e 1982, respectivamente, dada a dificuldade em delimitar um único destaque para as Copas de 1966 e 1982, trato de quatro personagens históricos. Bobby Moore e Eusébio, representando a competição disputada na Inglaterra, e Paolo Rossi e Karl-Heinz Rummenigge, destaques de 1982.





1966 – BOBBY MOORE

Ficha técnica

Nome: Robert Frederick Chelsea Moore

Data de nascimento/falecimento: 12 de abril de 1941/ 24 de fevereiro de 1993

Local de nascimento: Londres, Londres

Carreira: West Ham United (1958-1974), Fulham (1974-1977), San Antonio Thunder (1976), Seattle Sounders (1978), Herning Fremad (1978)

Títulos: FA Cup (1963-1964), UEFA Winner’s Cup (1964-1965), pelo West Ham, e Copa do Mundo (1966), pela Inglaterra.

Grande líder, extremamente refinado para um beque e dono de fantástica leitura de jogo, capaz de antever os avanços de seus adversários, Bobby Moore foi o principal responsável pela conquista inglesa de 1966, a única de seu país. Obviamente, não tinha o talento e não jogava o belo futebol do outro Bobby da equipe, o Charlton – eleito o melhor jogador da competição. No entanto, como poucos, conduziu uma equipe, nada extraordinária, à glória maior do futebol.

Tal como seu xará, Moore ficou notabilizado por ter sido um Gentleman, dentro e fora da cancha. Em uma época em que o mais comum eram os defensores se afeiçoarem aos sarrafos e foices, do que, propriamente, à bola, o eterno camisa seis inglês desfilava categoria, com carrinhos e desarmes precisos e ótima capacidade aérea. Não à toa, Pelé e Franz Beckenbauer consideram-no o maior defensor que enfrentaram.

O ex-técnico do Celtic campeão europeu, Jock Stein descreveu, com uma frase, o que tanto espantava a todos:“deveria haver uma lei contra Moore, pois ele sabe o que vai acontecer 20 minutos antes de todo mundo”. O curioso é que o capitão do English Team, por pouco, não deixou de disputar o mundial. Seu contrato com o West Ham terminara, às vésperas da Copa, e havia pouca disposição de sua parte em renovar. Entretanto, sem estar vinculado a um clube, não poderia disputar a competição e, após intercessão do treinador da Seleção, Alf Ramsey, renovou com o clube londrino.

Jogador mais jovem a usar a faixa de capitão inglês (22 anos), é, até os dias atuais, o quarto atleta que mais vezes defendeu os Three Lions, com 108 aparições, menos, apenas, que Peter Shilton, David Beckham e Steven Gerrard. Na Copa de 1966, disputou as seis partidas inglesas, ajudando a manter a meta imaculada na primeira fase, e, nas fases seguintes, parando a Argentina (1x0), Portugal – de Eusébio – (2x1), e a Alemanha (4x2), na final.

Apesar de não ter conquistado muitos títulos em sua carreira, Moore foi indiscutivelmente um vencedor. Sua famosa camisa seis foi imortalizada e aposentada no West Ham, e dificilmente outro jogador inglês terá a oportunidade de repetir o principal feito do ex-defensor: levantar a Taça do Mundo, novamente, na Inglaterra. Apesar de sua classe para desarmar os adversários e prever jogadas, não conseguiu vencer um câncer de intestino, falecendo aos 51 anos.

1966 – EUSÉBIO

Ficha técnica

Nome: Eusébio da Silva Ferreira

Data de nascimento/falecimento: 25 de janeiro de 1942/ 5 de janeiro de 2014

Local de nascimento: Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique

Carreira: Moçambique Sporting Lourenço Marques (1957-1960), Benfica (1960-1975), Boston Minutemen (1975), Monterrey (1975-1976), Toronto Metros-Croatia (1976), Beira-Mar (1976-1977), Las Vegas Quicksilver (1977), New Jersey Americans (1977-1978), União de Tomar (1977-1978), Buffalo Stalions (1979-1980)

Títulos:  Campeonato Moçambicano de Futebol (1960), pelo Moçambique Sporting Lourenço Marques, Campeonato Português (1960-1961, 1962-1963, 1963-1964, 1964-1965, 1966-1967, 1967-1968, 1968-1969, 1970-1971, 1971-1972, 1973-1974, 1974-1975), Taça de Portugal (1961-1962, 1963-1964, 1968-1969, 1969-1970, 1971-1972), UEFA Champions League (1961-1962), Taça Ribeiro dos Reis (1963-1964, 1965-1966, 1970-1971), Taça de Honra (1962-63, 1964-65, 1966-67, 1967-68, 1968-69, 1971-72, 1972-73, 1973-74, 1974-75), pelo Benfica, NASL (1976), pelo Toronto Metros-Croatia

Maior jogador português de todos os tempos, Eusébio foi concebido em Moçambique, então colônia portuguesa. Cria das ruas de Lourenço Marques, atual Maputo, o Pantera Negra – como ficou conhecido – tinha todas as características de jogo atribuíveis a um grande craque. Era completo. Veloz, técnico, habilidoso, driblador e excepcional finalizador, o craque era inventivo e decisivo. Não por acaso ajudou a conduzir a Seleção Portuguesa à melhor colocação em um Mundial: o terceiro lugar.

Depois de liderar o Benfica em muitas conquistas, o craque precisava ajudar sua Seleção a fazer uma boa campanha em um Mundial. Todavia, a tarefa não era fácil, e Portugal caiu em um grupo difícil, com o Brasil, então o atual campeão mundial, a Hungria e a Bulgária. Sem pestanejar, o escrete luso despachou suas adversárias, com três vitórias, e mais! Ajudou a desclassificar o Brasil na fase de grupos.

Presença certa nos seis encontros de Portugal na Copa, Eusébio deitou e rolou (como comprova a artilharia da Copa). Foram nove tentos em seis jogos. Só Sándor Kócsis (1954), Just Fontaine (1958) e Gerd Müller (1970) marcaram mais do que ele em uma única edição de Copa do Mundo.  Goleador, vitimou a Bulgária, o Brasil, a Coreia do Norte (contra quem marcou quatro gols, após estar perdendo por 3x0), a Inglaterra e a União Soviética. É pena que tenha entrado para o seleto grupo de “Craques sem Copa”. Apesar de ter sido fantástico em 66, não teve outra oportunidade de disputar a competição, uma vez que Portugal só retornou à Copa do Mundo em 1986.

Pelo Selecção, marcou 41 gols, figurando em terceiro na lista dos maiores artilheiros da história lusa (ficando atrás de Cristiano Ronaldo e Pauleta). Entretanto, tendo atuado em 64 partidas, é quem detém a maior média de gols por jogo, com 0,64. Tardiamente, revelaria que a Copa de 1966 foi o ponto alto de sua carreira, garantindo que, apesar de não ter conquistado o título, o lugar alcançado foi uma fantástica vitória para o país.

Astro do Benfica e para sempre reverenciado, teve um fim de carreira melancólico, sofrendo com lesões e atuando em clubes de pouquíssima expressão. No início deste ano, aos 71 anos, não resistiu à uma parada cardiorrespiratória e juntou-se ao time dos craques eternos.

1982 – PAOLO ROSSI

Ficha técnica

Nome: Paolo Rossi

Data de nascimento: 23 de setembro de 1956

Local de nascimento: Prato, Itália

Carreira: Juventus (1973-1975), Como (1975-1976), Vicenza (1976-1980), Perugia (1979-1980), Juventus (1981-1985), Milan (1985-1986), Hellas Verona (1986-1987)

Títulos: Campeonato Italiano (1981-1982 e 1983-1984), Coppa Italia (1983), UEFA Winner’s Cup (1983-1984), UEFA Super Cup (1984), UEFA Champions League (1985), pela Juventus, Copa do Mundo (1982), pela Itália

Algoz daquela que é considerada, por muitos, a maior geração de craques brasileiros – a Seleção de 1982 – Paolo Rossi é um caso muito particular de sucesso. Talentoso, mas longe de ter sido um jogador de grande habilidade, esteve afastado do futebol nos últimos dois anos antecedentes à Copa. Acusado de participar do mais famoso esquema de manipulação de resultados da história do futebol italiano, o Totonero, Rossi cumpriu dois anos de punição, longe dos gramados. Justamente os dois anos predecessores da Copa da Espanha.

Conquanto tenha atuado nos três jogos derradeiros da Juventus na temporada, a crítica italiana era ferrenha: não se devia levar um jogador que não mostra desempenho há dois anos para o mundial. Contrariando “meio mundo”, o treinador itálico Enzo Bearzot convocou Paolo e, mais do que isso, bancou-o como titular. Nem as pífias atuações da Squadra Azzurra na primeira fase, quando apenas empatou com Polônia, Peru e Camarões tiraram o centroavante, que não havia marcado ainda, da equipe titular.

Quis o destino que, “na segunda fase de grupos” (como era formatada a competição) e no jogo mais difícil, aquele que tanto se mostrara inútil, até então, decidisse. Paolo Rossi lascou o sonho do tetracampeonato canarinho com três tentos. A Itália tornava-se, ali, temida e chegava às semifinais. Com a confiança recuperada, Rossi dizimou a Polônia, marcando dois gols, e ainda balançaria as redes alemãs na final.

Remanescente da boa, porém inconsistente Seleção de 1978, o camisa 20 apareceu quando precisa aparecer. Não tinha o refino técnico de Bruno Conti, nem a influência e presença de Gaetano Scirea ou Dino Zoff, mas foi decisivo, o que, no fim das contas, é o que importa. Eleito o melhor jogador da competição, e artilheiro da mesma, Rossi é o 11º maior artilheiro da história da Seleção, com 20 gols em 48 jogos. Ao final do vitorioso ano de 1982, ganharia, ainda, o Ballon D’or, prêmio concedido pela Revista France Football ao melhor jogador europeu do ano.

O atacante italiano provou, mais uma vez, que um gol pode mudar tudo. Como disse mais tarde em sua autobiografia, em trecho transcrito pelo jornalista Mauro Beting, em sua obra, As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos:

“Um gol pode mudar tudo. Quando acontece, é como uma dádiva do céu para um atacante. No meu caso, no Sarriá, mudou a minha vida. Nada estava indo do meu jeito até aquele dia e, depois, de repente, tudo estava indo como sonhava. Daquele momento em diante, foi como se alguém lá em cima estivesse olhando por mim. Se Maradona teve a mão de Deus em 1986, no meu caso, alguém lá de cima estava torcendo por mim em 1982.”

1982 – KARL-HEINZ RUMMENIGGE

Ficha técnica

Nome: Karl-Heinz Rummenigge

Data de nascimento: 25 de setembro de 1955

Local de nascimento: Lippstadt, Alemanha

Carreira: Bayern de Munique (1974-1984), Internazionale (1984-1987), Servette (1987-1989)

Títulos: UEFA Champions League (1974-1975 e 1975-1976), Mundial de Clubes (1976), Campeonato Alemão (1979-1980 e 1980-1981), Copa da Alemanha (1981-1982 e 1983-1984), pelo Bayern de Munique, UEFA Euro (1980), pela Alemanha

Melhor jogador da Europa nos dois anos que antecederam a Copa (1980 e 1981), Karl-Heinz Rummenigge era a principal esperança alemã na luta pelo tricampeonato mundial. Diferentemente da grande maioria dos atacantes germânicos, o craque do Bayern de Munique não parecia alemão. Sua leveza, qualidade de drible e velocidade faziam-no parecer um jogador sul-americano. Entretanto, sua disciplina e inteligência táticas, e capacidade de fazer, também, um jogo de força, não nos permitem negar sua nacionalidade.

Meia-atacante de origem, o completíssimo Rummenigge foi, gradualmente, avançando no relvado, tornando-se um formidável atacante. Em 1982, como principal craque da companhia tudesca, foi fundamental na sinuosa trajetória de sua seleção até a grande final. Vice-artilheiro da Copa, com cinco gols, começou a marcar já na primeira partida, a fatídica derrota contra a Argélia (2x1). No entanto, sua atuação foi capital para a sequente vitória sobre o Chile (4x1), tendo marcado três gols.

Na sequência, após o avanço à segunda fase, veio o infortúnio. Depois de um empate sem gols contra a Inglaterra, na vitória contra a Espanha, Rummenigge machucou-se, tornando-se dúvida e passando a ser preservado. Com a vaga nas semifinais assegurada, a Alemanha teve pela frente a forte equipe francesa, dos meio-campistas Michel Platini e Alain Giresse. Após 90 minutos duros, o empate por 1x1 persistiu e as equipes foram para a prorrogação. Em menos de 10 minutos de tempo extra, a França já abrira dois gols de vantagem. Foi então que, no sacrifício, o craque foi ao campo e, de forma monumental, conduziu sua equipe ao empate (marcando um dos gols) e à vitória na disputa penal. Diz-se que, após sua entrada, a equipe pulsava diferente, mais forte.

Fulcral durante toda a trajetória alemã, o craque, que apresentara ligeira melhora e capitaneava a equipe, foi titular na final, mas, desgastada, sua equipe não conseguiu levar a melhor na contenda contra a Itália, de Paolo Rossi. O vice-campeonato esteve longe de ser um resultado ruim para os alemães, mas, caso Rummenigge estivesse em condições ideais, o resultado poderia ter sido outro. Todavia, como sabemos, “caso” e “se” não são vocábulos do dicionário “futebolês”.

Ao final de sua trajetória pela Nationalelf, o craque registrou 95 aparições e 45 gols, os quais lhe garantem a sexta colocação na artilharia histórica da Seleção.

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