sexta-feira, 15 de agosto de 2014

- Estás libertado, San Lorenzo!

Imagine a dificuldade de viver à sombra das conquistas de um rival. Potencialize essa dura realidade considerando serem cinco os rivais, todos detentores de uma grande láurea que te falta. Acrescente a isso o fato de que até times que não integram a lista dos gigantes de seu país já sagraram-se campeões. És o gigante sem a glória maior. Espere! És mesmo gigante?




Club Atlético Sin Libertadores de América é como o chamam? Pois bem, desde o inolvidável dia 13 de agosto de 2013, o significado dessa pecha se esvaiu. Indubitavelmente grande, o Ciclón está livre, pode comemorar. Como Atlético e Corinthians, nos últimos dois anos, o San Lorenzo é o novo e inédito campeão da Copa Libertadores.

Em uma competição marcada pelo fracasso dos clubes brasileiros – campeões por quatro anos seguidos com Internacional, Santos, Corinthians e Atlético – e pela ascensão de equipes teoricamente menos fortes (casos de Defensor Sporting, Bolívar e Nacional-PAR), o clube de Almagro, comandado por Edgardo Bauza, treinador da LDU no título continental dos equatorianos contra o Fluminense, em 2008, foi, aos poucos, se confirmando como favorito ao título. Apesar disso, sua trajetória não foi fácil.

Abençoado pelo Papa Francisco, membro supremo da Igreja Católica e ferrenho amante do Ciclón, o clube iniciou sua trajetória em um grupo extremamente equilibrado, com Botafogo, Unión Española-CHI e Independiente Del Valle-EQU. 

Nos seis jogos da fase inaugural, o San Lorenzo não empolgou, somando somente a quantidade de pontos necessária para avançar às oitavas de finais. Duas vitórias, dois empates e duas derrotas foram os resultados dos Cuervos. O único jogo destacável foi o derradeiro, o da classificação. Com todos os clubes com possibilidades de classificação, os argentinos enfrentaram o Botafogo, em casa, e dominaram por completo a partida. O resultado? Um inapelável 3x0 com destaque para o meia-atacante Ignacio Piatti, autor de dois gols.

Com muitas alterações de um jogo para o outro, a equipe de Almagro parecia ter dificuldades para superar  a saída do treinador Juan Antonio Pizzi, comandante da equipe no título do Torneio Apertura 2013. Nem o ídolo e capitão, Leandro Romagnoli manteve-se permanentemente titular. Entretanto, o clube foi se agrupando e começou a se afirmar como um virtual candidato ao tão desejado título continental.

Mal classificado no ranking geral da primeira fase, o San Lorenzo encarou grandes dificuldades nas duas fases que se seguiram. Primeiro, enfrentou o Grêmio. No Nuevo Gasómetro, seu caldeirão, conseguiu uma vitória tangencial, 1x0 suado, obtido com gol de Ángel Correa. 

Na volta, em Porto Alegre, sofreu muito para avançar às quartas de finais. Pressionado durante o tempo regulamentar, viu o clube gaúcho devolver o placar da ida e o jogo se encaminhar para as penalidades. Conferindo todas os seus tiros, viu os “gringos” Maxi Rodríguez e Hernán Barcos desperdiçarem suas cobranças. Avante, viria o mais difícil dos desafios: o Cruzeiro, atual campeão brasileiro.

Nesta altura, com as eliminações de todos os demais clubes brasileiros, já se especulava que quem avançasse às semifinais seria, juntamente com o Atlético Nacional (que, surpreendentemente  cairia nessa fase), o grande favorito ao título. Novamente jogando a primeira partida em casa, em função de sua má colocação na fase de grupos, o time do Papa foi valente e cirúrgico. Outra vitória rasa, 1x0, gol do zagueiro Gentiletti em bola alçada por Néstor Ortigoza – que se tornaria um dos heróis do título – à área celeste. Na volta, elétrico, o Ciclón abriu o placar, em pleno e lotado Mineirão, aos 10 minutos e viu o clube de Belo Horizonte lutar muito, mas de forma desordenada. O empate mineiro ainda viria, mas esteve longe de ser suficiente.

Já efetivamente favorito, principalmente pelo fato de que todos os semifinalistas lutavam por um título inédito, o San Lorenzo enfrentaria uma das grandes surpresas da competição: o Bolívar, que trouxe um treinador espanhol e montou uma equipe multinacional. 

Dessa vez, a parada foi mais fácil. Já sem Ángel Correa, jovem promessa negociada com o Atlético de Madrid, o clube goleou. 5x0. Nem a altitude seria capaz de tirar a vaga na final do clube de Almagro. Se poupando, os argentinos levaram em banho maria o jogo de volta e perderam por 1x0. Na final, enfrentariam o surpreendente Nacional-PAR, do atacante Fredy Bareiro, que, em 2013, também foi à final, pelo Olimpia.

Franco favorito, o time conheceu um novo e poderoso adversário: a ansiedade. Com o título tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe, os jogos finais foram marcados pela tensão. O gol do centroavante Mauro Matos garantiu um pouco de tranquilidade até os acréscimos, quando, ressurgindo das cinzas, o clube paraguaio empatou o jogo. O 1x1, sem o critério do gol marcado fora de casa, deixou tudo em aberto. 

No derradeiro jogo, sem Piatti, negociado com o Montreal Impact, o San Lorenzo teve de enfrentar a ansiedade de jogadores e a tensão de seus torcedores, que apoiaram incondicionalmente durante os 90 minutos de jogo.  Novamente truncado, o jogo não foi bonito e nem sequer emocionante. O gol do título veio de pênalti. Ironicamente, convertido por Ortigoza, um argentino naturalizado paraguaio.

No fim das contas, o clube pode até ter contado com uma ajudinha divina, mediante a intercessão do Papa Francisco, mas mereceu a conquista e fez por onde. Sem ser brilhante, mas com dedicação impressionante, a equipe consagrou o esforço. A garra demonstrada pelo volante Juan Mercier destaca bem a tônica do que foi a competição para os Azulgranas.

Com uma tonelada a menos em suas costas, o torcedor do San Lorenzo, tal qual um preso que deixa sua prisão, está, finalmente, aliviado. A conquista da Copa Libertadores – com o perdão da infâmia do trocadilho – foi libertadora. Nunca mais o torcedor terá de lidar com a alcunha zombeteira de “Club Atlético Sin Libertadores de América”. 

Agora, como Boca Juniors, River Plate, Racing Club e Independiente outrora fizeram, o San Lorenzo, indiscutivelmente um gigante do futebol argentino, representa o continente e, com o espírito apaziguado, pode se prepara para o final do ano, quando terá a dura tarefa de embater o poderoso Real Madrid.

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