segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O pragmático e mau início do Chelsea

Ao longo da especial carreira de José Mourinho, muitos adjetivos foram atribuídos à pessoa do português. Dentre palavras de indistinto caráter positivo ou negativo, uma, em especial, tem interpretação aberta, já tendo sido usada tanto de forma elogiosa quanto pejorativa em relação ao Special One: o pragmatismo. Na pele da Internazionale, por exemplo, Mou montou uma equipe vencedora com essa característica. Por outro lado, no Real Madrid ela foi bem menos eficaz e gerou grande atrito com o elenco. Após uma temporada vitoriosa no Chelsea, o pragmatismo ataca novamente e, no início da presente temporada, de forma negativa.



Mais marcação e individualidade, menos criatividade

Ao final da última temporada, Mourinho chegou a afirmar sua crença na evolução técnica de Oscar, revelando esperar que o atleta consiga atingir um pico de crescimento semelhante ao que Eden Hazard conseguiu na temporada 2014-2015. No entanto, para isso o brasileiro terá que ter mais liberdade no campo, explorando mais a sua veia criativa em relação a sua aplicação tática. O que não foi exatamente visto nas partidas da pré-temporada e na estreia da Premier League, contra o Swansea.

"Tenho o pressentimento de que o Oscar vai ter a mesma evolução que Hazard teve neste ano, na próxima temporada. Ele nunca teve uma pré-temporada na sua vida (...) Mas agora vai ter, exatamente por estar lesionado e não poder jogar a Copa América", disse Mourinho em maio deste ano.

Além disso, o jogador deve rivalizar com Ramires por uma vaga no time titular, o que em nada agrada ao torcedor dos Blues. Isso foi visto na final da FA Community Shield e na última partida, contra o Manchester City (vale a ressalva de que Oscar não foi opção para o último encontro em função de lesão). Ramires não apresenta recursos técnicos que acrescentem algo ao setor ofensivo do Chelsea, deixando-o mais destruidor, aumentando as dificuldades para desmontar as defesas adversárias e diminuindo o fomento à Diego Costa.

Além disso, nas partidas iniciais, Willian e Eden Hazard até têm promovido interessantes trocas de posição, mas têm apresentado um jogo muito individualista, que não vem tendo resultado prático. Apesar disso, esse tipo de atitude não é exatamente estranha ou condenável, uma vez que ambos são melhores na condução da bola do que na distribuição da mesma. Falta um atleta com essas capacidades - poderia ser Oscar.

A experiência prática também já deixou claro que Cesc Fàbregas não é essa figura. O jogador espanhol atua com muito mais eficiência no setor de construção inicial, descendo até a defesa e iniciando as tramas do clube londrino. Fàbregas foi utilizado como camisa 10 durante a temporada passada, mas nunca foi o mesmo.

O curioso é a falta de interesse na contratação de alguém com o perfil do criador. Alguns nomes com os de Isco e Koke (foto) até foram especulados no clube, mas as especulações que têm sido mais trabalhadas são as de jogadores de defesa, com a contratação recente de Baba Rahman e a tediosa novela envolvendo o zagueiro John Stones. 

As demais opções que o Chelsea tem para o setor - Juan Cuadrado, Victor Moses, Bertrand Traoré e Kenedy (que ainda não assinou contrato oficialmente) - primam mais pela individualidade do que pela criatividade, não preenchendo a lacuna do elenco azul e confirmando que nesse momento o estilo de jogo do Chelsea é baseado em marcação e individualidade e carente em criatividade.

Os rivais se reforçaram, o Chelsea estagnou

Sendo criatividade a palavra em foco é clara a vantagem dos rivais do Chelsea. No Arsenal, ainda que não sejam tão constantes, Mesut Özil e Santi Cazorla são atletas criativos e donos de qualidade grande na distribuição de bola. Já o Manchester City tem David Silva, cuja performance tende a melhorar com a parceria com Raheem Sterling, e busca a contratação de Kevin De Bruyne, belga desprezado pelo Chelsea. 

O Liverpool tem Philippe Coutinho e Roberto Firmino (brasileiro que mais assistências proveu nas últimas duas temporadas considerando as principais ligas europeias) e o Manchester United os espanhóis Ander Herrera e Juan Mata, que, embora atue pelo flanco, tem ótima visão de jogo e distribui muito bem a bola.

Além disso, todos os clubes fizeram boas contratações. O Arsenal conta agora com Petr Cech para a meta; o City tem Fabian Delph para o meio-campo e Sterling para o ataque; o Liverpool trouxe os bons e regulares Nathaniel Clyne e James Milner, além do forte Christian Benteke; e o United trouxe uma dupla de meio-campistas fortíssima, com Bastian Schweinsteiger e Morgan Schneiderlin, o lateral Matteo Darmian, e o winger Memphis Depay.

Por sua vez, o Chelsea apenas trouxe peças de reposição. Para o gol que perdeu Cech chegou Asmir Begovic; o ataque conta com Falcao García na vaga de Didier Drogba; e a lateral-esquerda alinha Baba Rahman (foto) no lugar de Filipe Luís. O fato de ter sido a melhor equipe da última edição da Premier League deveria ter estimulado o Chelsea a continuar crescendo, até mesmo porque os rivais vieram mais fortes para 2015-2016. Todavia, até agora o clube não trouxe novidades capazes de encorpar o elenco com qualidade, melhorando-o.

O time titular do Chelsea 2015-2016 é o mesmo da temporada 2014-2015. Seus fortes já foram exaustivamente trabalhados pelos treinadores rivais e o time tem mostrado um estilo de jogo previsível. Por vezes acusado de jogar pelo resultado, usando de quaisquer meios, Mourinho nem isso tem conseguido no início dessa nova campanha - o jogo tem sido pouco criativo e pouco eficaz. Considerando amistosos, o Chelsea disputou sete partidas, empatando três e perdendo quatro. Os rivais se reforçaram e o Chelsea estagnou.

O time precisa pensar em seu futuro

Duas realidades rapidamente percebidas no início da temporada foram o declínio físico e, consequentemente, técnico de John Terry e Branislav Ivanovic (foto). É evidente que, no caso da dupla, a piora pode se dar em função do pouco tempo de treinamento, com uma pré-temporada curta (o que poderia ser corrigido durante a temporada), mas, mesmo assim, os jogadores já não são garotos. 

Terry completará 35 anos ao final de 2015 e Ivanovic fez 31 anos. É certo que para que mantenham altos padrões de atuação por mais algum tempo, os atletas precisarão de substitutos eventuais, para serem preservados. 

Noutro giro, com o inevitável declínio físico que decorre dos anos, o lateral-direito poderia considerar a possibilidade de retornar ao miolo de zaga. Não obstante, com a chegada de Baba Rahman, César Azpilicueta volta a ser opção pela ala direita também, diminuindo a carga sobre o sérvio.

A questão é que com seis membros para a defesa, o clube dificilmente viverá uma temporada tranquila. Reforços na defesa são necessários e John Stones (foto), que atua tanto na zaga como na lateral-direita, realmente aparenta ser o reforço perfeito, apesar do preço alto que tem sido especulado. É muito difícil imaginar que, em 2015-2016, Terry e Ivanovic jogarão tantas partidas quanto na última temporada. 

Havia opções boas no próprio elenco, como os garotos Andreas Christensen, Tomás Kalas e Nathan Aké, mas o clube preferiu emprestá-los, buscando garantir-lhes mais experiência. Talvez fosse melhor ter mantido ao menos um deles.

Ainda estamos no início da temporada, mas a preocupação já permeia o íntimo dos torcedores azuis. Faltam pouco mais de 10 dias para o fechamento da janela de transferências europeias e o treinador José Mourinho ainda poderá buscar peças para o elenco, o que poderia reverter esse quadro a tempo de permitir ao clube uma temporada de sucesso. Resta-nos aguardar os atos finais do mercado.

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