terça-feira, 13 de outubro de 2015

Copa de 1998: Terceiro lugar croata teve gosto de título

A Iugoslávia foi durante muitos anos uma das seleções mais fortes do continente europeu. Unindo jogadores de diferentes etnias e ideais, o time era poderoso, mas não representava uma unidade; o coração dos jogadores da equipe não batia no mesmo compasso, embora dentro das quatro linhas a história tenha mostrado sucesso em alguns turnos. Croatas, bósnios, sérvios, montenegrinos, eslovenos e macedônios (além de alguns kosovares) nunca compartilharam uma identidade, sendo as diferenças suprimidas durante anos. Nesse sentido, a brilhante campanha croata em seu primeiro mundial representou o verdadeiro júbilo do país e como poucas vezes um terceiro lugar foi comemorado gloriosamente.



Vitórias no futebol moldam a identidade de uma nação tanto quanto guerras, revelou Franjo Tudman, o primeiro presidente da Croácia pós-separação.

Punida com a exclusão da Euro 1992 e da Copa do Mundo de 1994, em função da Guerra Civil, a Iugoslávia viu no início da década de 90 suas melhores possibilidades de conquista de um título desvanecerem. O brilhante time do Estrela Vermelha que conquistou a Europa em 1991, majoritariamente formado por jogadores iugoslavos, não pôde mostrar sua qualidade em grandes competições de seleções. Além disso, os iugoslavos tiveram que lidar com um golpe duro na sequência, o sucesso de um de seus braços históricos mais fortes de toda a sua história: a Croácia, independente desde 1991.

Leia também: Times de que Gostamos: Estrela Vermelha 1990-1991

Composta por jogadores como Robert Prosinecki, Davor Suker, Zvonimir Boban, Igor Tudor, Dario Simic, Aljosa Asanovic e Alen Boksic (que perdeu a Copa do Mundo, lesionado), dentre outros, os Vatreni classificaram-se para a Copa do Mundo de 1998 após ficarem em segundo lugar no Grupo 1 – liderado pela Dinamarca –, eliminaram a Ucrânia de Andriy Shevchenko nos play-offs e confirmaram-se como a primeira nação ex-Iugoslávia a participar de um Mundial..

Na ocasião, Bósnia, Macedônia e Eslovênia já existiam, mas fizeram má campanha. Por outro lado, os Iugoslavos também tiveram que disputar os play-offs, massacrando a Hungria, com 12x1 no placar agregado.

Sucesso anunciado

Todavia, quem já estava mais atento ao futebol da tensa região não registrou com tanta surpresa o promissor início de trajetória croata em Copas do Mundo, uma vez que a equipe já havia feito boa campanha da Euro 1996 (foto), ocasião em que o país avançou de fase no Grupo D, deixando Dinamarca, então campeã, e Turquia pelo caminho e ficando atrás apenas de Portugal.

Para azar dos calouros do leste europeu, a tradicional Alemanha (que viria a ser a campeã) foi o adversário da sequência e os croatas caíram, de pé, entretanto. O magro 2x1 no placar, construído com gols de Jürgen Klinsmann e Matthias Sammer, para os alemães, e Davor Suker, para os croatas, deixava claro que apesar de novidade, a Croácia havia chegado ao cenário do futebol internacional para ficar.

Prazer, Copa do Mundo

Voltando o foco para a Copa do Mundo de 1998, classificada e animada, a Croácia deu sorte no sorteio dos grupos e, embora tenha tido o desprazer de encontrar a Argentina, teve os fracos Jamaica e Japão pela frente. Então, o óbvio aconteceu: duas vitórias, uma derrota (para os Hermanos) e a classificação para as oitavas de finais. Além disso, Suker já mostrava que não estava para brincadeiras, com dois tentos.

“Estivemos sob o controle da Iugoslávia por 45 anos e não podíamos dizer que éramos croatas. Agora nós podemos (...) Quando eu jogava pela Iugoslávia, isso não significava nada. Era apenas esporte, nada mais. Agora o sentimento é incomparável”, disse Igor Stimac, ex-zagueiro da Seleção Croata, durante a Copa do Mundo de 1998.

No Grupo F, a Iugoslávia fez campanha semelhante, com duas vitórias e um empate e também avançou de fase, em um grupo que contou com Alemanha, Estados Unidos e Irã. Para êxtase croata, no entanto, os iugoslavos pararam já na fase seguinte, derrotados pela fantástica Holanda, de Dennis Bergkamp, Clarence Seedorf, Edgar Davids e Edwin van der Sar, dentre outros craques.

Por sua vez, a forte Croácia seguiu surpreendendo e com gol de Suker eliminou a forte Seleção Romena de Gheorghe Hagi e Gheorghe Popescu, por 1x0, seguindo viva e mal sabendo que protagonizaria dois dos jogos mais fantásticos daquele mundial recheado de grandes partidas.

No Estádio Gerland, em Lyon, o adversário da Croácia foi ninguém menos do que o sempre forte e campeão europeu escrete alemão. Embora não tivesse um time que honrasse a técnica de outros tempos, a Alemanha ainda era forte e tinha jogadores de grande capacidade como Klinsmann, Oliver Bierhoff e o interminável Lothar Matthaus.

Implacavelmente, os croatas não tomaram conhecimento do adversário e atropelaram-no por 3x0. Se até ali alguém duvidava da capacidade da equipe, o momento que pôs fim a esse pensamento foi este.

“Alcançar esse feito em nossa primeira Copa do Mundo foi um momento de grande satisfação para mim e para meus companheiros, porque nós trouxemos muita alegria para nosso povo e provamos nossas qualidades futebolísticas, as quais alguns de nós mostraram quando a Iugoslávia venceu o Mundial de jovens no Chile”, disse Suker em entrevista ao site oficial da FIFA ao final de 1998.

Pela frente, os croatas teriam a anfitriã na semifinal, liderada por um dos maiores gênios de todos os tempos (que, não obstante, não fazia uma competição à altura de sua qualidade) e outros jogadores de talento. Este foi mais um daqueles momentos inexplicáveis que marcam a história das Copas. Embora a Croácia tenha saído à frente no placar, um double de Lilian Thuram deu a virada à França e o transformou em protagonista máximo da partida. O detalhe inusitado é que o defensor não mais marcaria gols pelos Bleus.

Derrotada por um placar marginal, a Croácia havia chegado entre os quatro primeiros lugares e, como se isso não fosse o suficiente, derrotou a Holanda na disputa pelo terceiro, justamente a seleção que eliminara sua eterna carrasca Iugoslávia, que não voltaria a disputar uma Copa do Mundo (perdendo a vaga para a Copa do Mundo de 2002 para a Eslovênia, outra nação subjugada durante anos pelos iugoslavos). Na sequência, a Iugoslávia se dissolveria em Sérvia e Montenegro, que, tardiamente, dividir-se-ia em países independentes.  
       


O êxtase dos jogadores croatas com a conquista do improvável terceiro lugar na Copa do Mundo representou com exatidão o sentimento do povo, que reconstruía sua identidade. Suker (foto) foi o artilheiro do torneio, aumentando o impacto da campanha do país, que começou ali uma trajetória de sucesso, garantindo presença nos mundiais de 2002, 2006 e 2014 e nas Eurocopas de 2004, 2008 e 2012.

“De algumas formas foi uma surpresa (o desempenho croata em 1998), mas em outras não foi. Se você olhar para o time, tínhamos alguns jogadores fantásticos que estavam jogando por grandes clubes na Europa (...) Nós também tínhamos um grande espírito de equipe. Estávamos jogando por nossa nação em nossa primeira Copa do Mundo e estávamos determinados a construir uma impressão positiva. Sabíamos que as pessoas na Croácia estavam nos apoiando e isso nos estimulou a ir bem”, falou Suker à revista Four Four Two em 2014.

Um comentário :

  1. Eu adoro o a Croácia. Entre copa sai copa e eles tão lá, dando trabalho. Espero que algum dia eles consigam ganhar, pois eles merecem.

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