terça-feira, 20 de setembro de 2016

Times de que Gostamos: Ipswich Town 1980-1981

Após contar um pouco da história do Newcastle de meados da década de 90, que chegou perto de conquistar a Premier League em mais de uma ocasião, mas bateu na trave, trago um pouco sobre o Ipswich Town, que, a despeito de uma longa estadia na segunda divisão inglesa no presente, venceu a UEFA Cup no início dos anos 80 e quase conquistou o título inglês.


Na primeira linha: Wark, Beattie, McCall e O'Callaghan;
Na linha central: Bobby Robson (treinador), Mürhen, Mariner, Brazil, Thijssen, Hunter, Ferguson (assistente técnico);
Assentados: Butcher, Osman, Sivell, Mills, Cooper, Burley, Gates.


Time: Ipswich Town

Período: 1980-1981

Time base: Cooper; Mills, Osman, Butcher, McCall (Burley); Wark, Thijssen, Mühren; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

Conquista: UEFA Cup

O período compreendido entre meados dos anos 70 e a Tragédia de Heysel, que impôs aos clubes ingleses pesada suspensão de participação nas competições europeias – o que durou cinco anos –, foi extremamente frutífero para o futebol do país; Grandes times de Liverpool, Nottingham Forest, Aston Villa e Tottenham viveram momento excelente. Nesse contexto, um clube modesto na cidade de Ipswich, localizada no nordeste inglês, também deu as caras.

Trabalho caseiro, de longo prazo e com tempero holandês

Treinado pelo famoso Bobby Robson, que chegara à equipe em 1969 e permaneceria até 1982, quando assumiu a Seleção Inglesa, o time tinha um misto de características que o tornava único à época. A despeito do estilo mais direto, pragmático e objetivo comum aos atletas formados nas Ilhas Britânicas, havia uma pitada de talento holandês no meio-campo dos Tractor Boys.

Membro do fantástico Ajax dos anos 70, o holandês Arnold Mühren chegara em 1978 à Inglaterra e era o jogador mais criativo do time. Próximo a si contou com a presença de um compatriota: Frans Thijssen, seu ex-companheiro no Twente e, ocasionalmente, na Seleção Holandesa. A dupla acrescentou uma dose de fluidez a um jogo que já era extremamente consistente. Não obstante a presença dos neerlandeses, na temporada 1980-81, o jogador de maior destaque do meio acabou sendo o volante escocês John Wark, artilheiro máximo da equipe na temporada em comento, com 36 tentos.

É de se ressaltar a interessante postura adotada pelo clube. Nos 13 anos em que dirigiu o Ipswich Town, Bobby Robson contratou apenas 14 atletas, tendo sempre preferido apostar em seus jovens prospectos (campeões da FA Youth Cup em 1973 e 1975).

Em 1980-1981, o time que já havia conquistado um título da FA Cup (em 1977-78) protagonizou uma bela campanha na UEFA Cup e conquistou-a, alcançando o pico máximo de um trabalho longevo e muito bem executado.

Para poder disputar a competição continental, primeiramente, o clube teve que fazer uma campanha de respeito em solo inglês. Assim, a despeito do bom momento de outras equipes, conseguiu um honroso terceiro lugar na Football League, ficando sete pontos atrás do Liverpool, o campeão.

Campeão da UEFA Cup e vice-inglês

Já na disputa vitoriosa da competição europeia, o Ipswich teve pela frente o grego Aris Thessaloniki, o Bohemians Praha, de Antonín Panenka, o Widzew Lódz, que à época possuía alguns jogadores na Seleção Polonesa (dentre eles Zbigniew Boniek), o Saint-Étienne do craque holandês Johnny Rep e do gênio francês Michel Platini, o Colônia e, por fim, o melhor time do AZ Alkmaar de todos os tempos, que viria a conquistar a Eredivisie na mesma temporada.

Treinados por Robson, os campeões atuavam, basicamente, em um esquema 4-3-1-2, com uma defesa tradicional, com dois beques e dois laterais, alinhando três meias capazes de se alternar nas funções de criação e marcação, um pouco mais avançado outro meia que era praticamente um atacante e, à frente, dois atacantes com muito poder de fogo. Em 2003, em entrevista à revista Four Four Two, Bobby Robson explicou o formato de seu time:

"Jogávamos com dois atacantes, sem pontas, com Eric Gates atrás dos dois da frente, dois meias semiabertos, com Arnold Mühren e Frans Thijssen, e Johnny Wark na função de contenção".

Vale mencionar também que o clube chegou a beliscar o título inglês em 1980-81, terminando a competição em segundo lugar, atrás do Aston Villa, que viria a conquistar a European Cup no ano seguinte. Prova do grande equilíbrio da equipe é o fato de o mesmo ter tido o melhor ataque do Campeonato Inglês, com 77 gols, e a quarta melhor defesa com 43 sofridos, atrás dos 40 dos Villans, e dos 42 de West Bromwich, 4º colocado, e Liverpool, 5º.

Um elenco histórico e vitorioso

No gol, os Blues contavam com a importante referência de Paul Cooper (foto). Arqueiro formado no Birmingham, o inglês chegou ao Ipswich em 1974, permaneceu até 1987 e se transformou em um dos jogadores com mais aparições pelo clube em toda a sua história. Conhecido pela especial precisão na defesa de penalidades (defendeu oito de 10, na temporada em 1979-80), fez mais de 440 partidas pelo clube na liga inglesa e mais de 550 considerando todas as competições. É membro do Hall of Fame do time, assim como quase todo o restante de seus companheiros do memorável início da década de 80.

Usualmente na lateral esquerda, mas também pela direita em caráter eventual, o reservado Mick Mills (foto) foi o capitão da equipe, o principal apoio moral do elenco. Conhecedor do clube, que o formou e a quem defendeu entre 1966 e 1982, o inglês era a voz do treinador Bobby Robson em campo. Jogador importante da Seleção Inglesa, que representou mais de 40 vezes, é o recordista de partidas pelo Ipswich, com 741.

Na outra lateral a titularidade variava. Meio-campista defensivo de origem, Steve McCall era uma alternativa para a esquerda, deslocando Mills para a direita. No entanto, a principal opção era escocês George Burley, este, sim, originalmente ala pela direita. Entretanto, em 1980-81 sofreu com muitos problemas de lesões e atuou menos do que o esperado. Ambos são jogadores históricos do clube, tendo sido formados na base do mesmo, defendendo-o por longo período – Burley entre 1973-85 e McCall entre 1979-1987.

A zaga titular do time foi composta por outros dois atletas criados no próprio Ipswich Town. De um lado, atuou Russell Osman; do outro, Terry Butcher. Com menos de um ano de idade de diferença entre si, os beques trouxeram da base impressionante entrosamento e características diferentes que se completavam. O primeiro era mais baixo (1,83m) e mais rápido; por sua vez, o outro tinha a seu favor impressionante estatura (1,93m), força e precisão no jogo aéreo, inclusive no ofensivo. Ambos tiveram trajetória na Seleção Inglesa, embora Butcher tenha atuado por muito mais tempo, disputando três Copas do Mundo.

Tristemente, a dupla de zagueiros só obteve todo o seu espaço em razão das muitas e constantes lesões de Kevin Beattie, lembrado como um dos melhores defensores já produzidos pelo futebol inglês e vencedor do prêmio de melhor jovem da Inglaterra em 1974. Em 1981, cansado de seus muitos problemas físicos, pendurou as chuteiras, aos 27 anos. Para Bobby Robson, Beattie foi um dos melhores jogadores ingleses com que trabalhou: “Shearer e Bryan Robson foram meus melhores jogadores ingleses, embora pudesse ter sido Kevin Beattie, não fossem as lesões”, disse ao DailyMail, em 2007.

Na meia-cancha residiam as maiores virtudes dos Tractor Boys. Talento, poder de decisão, força, capacidade para ditar o ritmo do jogo – tudo isso era visto na intermediária do Ipswich.

Como dito, mais recuado atuou simplesmente o artilheiro do time na temporada: John Wark (foto). O volante não era dos jogadores mais rápidos e nem, tampouco, dos mais técnicos. Entretanto, possuía grande noção tática, força de espírito e perícia nas finalizações. Tamanha era sua compreensão do jogo, que chegou a ser improvisado tanto como zagueiro quanto como atacante, tendo sido, ainda, eleito o melhor jogador do time em quatro anos distintos. Cria da casa, defendeu o Ipswich em três períodos distintos, tendo tido passagens por Liverpool e Middlesbrough.

Postado imediatamente à frente de Wark atuou o duo holandês da equipe: Mühren e Thijssen (foto). Enquanto o primeiro chamava atenção pela impressionante visão de jogo, com muita qualidade no passe, o segundo, eleito o melhor jogador do ano na Inglaterra em 1981 pela PFA (Professional Footballers’ Association), destacava-se pela movimentação constante e destreza com a bola em seus pés. Os jogadores tiveram papel crucial na mudança de estilo de jogo da equipe, que, a partir de suas chegadas, deixou de lado a ligação direita e passou a trabalhar melhor a bola no solo. Em 1982, Mühren partiu para o Manchester United e, em 1983, Thijssen para o Nottingham Forest.


Curiosamente, com já foi ressaltado, o Ipswich Town não atuava nem no 4-4-2 tradicional, com duas linhas de quatro atletas, e nem, tampouco, no 4-3-3, com pontas. Muito disso se deveu à atuação de Eric Gates, que se postava a frente dos meias e atrás dos atacantes. Mais um dos vários atletas formados no Estádio Portland Road, o meia-atacante tinha muita habilidade e finalizava bem de média distância. Até a chegada da dupla vinda dos Países Baixos, o inglês mostrava dificuldade para entrar no time, uma vez que não era um meio-campista e também não atuava tão bem mais adiantado. Com a parceria de Mühren e Thijssen, e a mudança de esquema tático e estilo de jogo, Gates desenvolveu ótimo futebol e se afirmou como titular.

Na ponta final do time atuou uma dupla muito prolífica e de grande sucesso. Mais veloz, um pouco mais técnico e dono de maior capacidade para se movimentar que seu parceiro, o escocês Alan Brazil (mais uma cria da casa) foi outro bom jogador do time dos Blues, tendo sido eleito o melhor jogador do time no ano de 1982. É interessante ressaltar que, posteriormente, atuou em Tottenham e Manchester United, mas nunca mais viveu dias de grande sucesso. Seu parceiro, o alto e forte Paul Mariner, era o típico centroavante inglês, o jogador alvo. Excelente cabeceador e um finalizador digno com os pés, era um matador e chegou a ganhar muitas oportunidades na Seleção Inglesa. Em seus 337 jogos pelo Ipswich, marcou 136 gols, média de 0,4 tento por partida.

O time do nordeste da Inglaterra era de fato muito bom, mas só existiu em função da presença de Bobby Robson, ou melhor, Sir Bobby Robson (foto). Com trabalho extremamente longevo e bem estruturado, aposta em jovens e contratações pontuais de mercados menos movimentados, o treinador conseguiu transformar o modesto clube. 

Em 1969, quando chegou ao time, este havia acabado de retornar da Segunda Divisão. Quatro temporadas após, já disputava títulos. Em 1982-83, a primeira campanha sem o treinador, que marchou para o English Team, o time já foi apenas o nono colocado, contrastando claramente com os dois últimos anos sob sua direção, em que foi vice. 

Robson foi indiscutivelmente o grande responsável pelo sucesso do time, pela forma de trabalhar, por ter percebido a necessidade de mudança ao contratar sua dupla de holandeses e por ter conduzido um grupo de jovens formados no próprio clube aos postos mais altos da Europa.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Oitavas de final da UEFA Cup 1980-1981: Ipswich Town 5x0 Widzew Lódz

Estádio Portman Road, Ipswich

Árbitro: Robert Wurtz

Público 20.445

Gols: ’22, ’45 e ’78 Wark, ’42 Brazil, ’70 Mariner (Ipswich Town)

Ipswich: Cooper; Mills (Beattie), Osman, Butcher, McCall; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil (O’Callaghan) e Mariner. Téc.: Bobby Robson

Widzew Lódz: Mlynarczyk; Mozejko, Grebosz, Zmuda, Plich; Jezewski, Rozborski; Pieta (Romke), Boniek, Tlokinski, Smolarek. Téc.: Jacek Machcinski

Quartas de final da UEFA Cup 1980-1981: Saint-Étienne 1x4 Ipswich Town

Estádio Geoffroy Guichard, Saint-Étienne

Árbitro: Nicolae Rainea

Público 36.919

Gols: ’16 Rep (Saint-Étienne); ’28 e ’57 Mariner, ’47 Mühren e ’75 Wark (Ipswich Town)

Saint-Étienne: Castaneda; Janvion, Gardon, López, Battiston; Larios, Zanon, Platini; Paganelli, Rep, Roussey (Zimako). Téc.: Robert Herbin

Ipswich: Cooper; Mills, Beattie, Butcher, Osman; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

Final da UEFA Cup 1980-1981: Ipswich Town 3x0 AZ Alkmaar

Estádio Portman Road, Ipswich

Árbitro: Adolf Prokop

Público 27.532

Gols: ’30 Wark, ’47 Thijssen e ’55 Mariner (Ipswich Town)

Ipswich: Cooper; Mills, Osman, Butcher, McCall; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

AZ Alkmaar: Treijtel; van der Meer, Spelbos, Metgod, Hovenkamp; Jonker, Arntz, Nygaard (Welzl), Peters; Tol e Kist. Téc.: Georg Keβler

30ª rodada da Football League 1980-1981: Aston Villa 1x2 Ipswich Town

Estádio Villa Park, Birmingham

Público 47.495

Gols: ’45 Brazil e ’90 Gates (Ipswich Town); ’90 Shaw (Aston Villa)

Aston Villa: Rimmer; Swain, Williams, McNaught, Gibson; Cowans, Mortimer; Bremner, Shaw, With, Morley. Téc.: Ron Saunders

Ipswich Town: Cooper; Mills, Osman, Butcher, McCall; Wark, Mühren, Thijssen; Gates; Brazil e Mariner. Téc.: Bobby Robson

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