sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Quando o samba chegou a Madri dos anos 70

Atlético de Madrid é, sem sombra de dúvidas, uma das equipes de futebol mais tradicionais da Espanha. Muito antes do treinador Diego Simeone participar de duas revoluções pelo clube, a primeira como jogador e a segunda do banco de reservas, uma dupla de brasileiros marcou época com a camisa rojiblanca dos Colchoneros. Depois da ilustre participação naquele time que ficou conhecido como a Segunda Academia do Palmeiras, Leivinha e Luís Pereira partiram para a capital espanhola.



“Qualquer domingo desses, os flamantes alto-falantes do Estádio Vicente Calderón começarão a obsequiar sua torcida com música de samba. Leivinha e Luís Pereira voltaram a fazer das suas - isto é, a dançar seu espetacular e contundente samba futebolístico. Certamente a torcida acabará trocando o castiço do pasodoble pelo exótico ritmo brasileiro”. Esse foi o prólogo, reproduzido da revista AS Color, por meio do qual a revista Placar, no distante ano de 1976, anunciou para quem quisesse ler: o futebol espanhol estava pasmo diante do encanto do futebol de dois brasileiros.

Na mencionada reportagem, não faltam alcunhas elogiosas à dupla de ex-palmeirenses. Naquele momento, o êxtase não poderia ser maior, o Atleti lutava pelo título de La Liga. Terminaria em terceiro lugar, apenas para garantir que no ano seguinte a láurea não escapasse. No entanto, para não deixar seu torcedor chupando dedo, o clube conquistaria a Copa del Generalísimo daquele ano; com solitário com do hispano-argentino José Gárate, venceu o Real Zaragoza.

Os brasileiros chegaram juntos, em 1975, no que o jornal El País informou ter se tratado de “uma operação precipitada e de última hora, quando estava a ponto de terminar o prazo de inscrição dos estrangeiros”. Vinham de sucessos com o Palmeiras, que conquistara dois Campeonatos Brasileiros (1972 e 1973) e dois Paulistas (1972 e 1974), e haviam disputado a Copa do Mundo de 1974. Eram, já naquela altura, jogadores renomados no Brasil e aceitaram o desafio de tentar manter o Atlético de Madrid em alta. Em 1972/73, os madrilenos haviam conquistado o Espanhol e, em 1973/74, foram derrotados pelo Bayern de Munique na final da Copa dos Campeões da Europa. Viviam, pois, momento especial.

A verdade é que o que provocaram - especialmente Luís Pereira - foi grandioso. Classe, frieza e arroubos ofensivos foi o que o beque levou consigo. Já o meia-atacante carregou o talento, a destreza e a qualidade nos cabeceios, que acabaram por ser os responsáveis por vários gols.


O primeiro título foi sem jogar

Ainda que o ditador Francisco Franco tivesse morrido em novembro de 1975, a Copa del Generalísimo, assim nomeada em sua homenagem, teve o nome mantido na temporada 1975/76; passaria a Copa del Rey já no ano seguinte. O último título da competição com dita nomenclatura chegou ao Vicente Calderón, mas, curiosamente, sem a participação dos brasileiros recém-chegados. Absolutos nas partidas da liga, Luís Pereira e Leivinha não atuaram em nenhuma partida da copa nacional. O treinador de então, o saudoso Luis Aragonés, que pouco tempo antes ainda representava os Colchoneros dentro das quatro linhas, utilizava a competição para promover certa rodagem no elenco.

A despeito disso, em La Liga, os brasileiros foram assiduamente utilizados. A estreia de Leivinha não poderia ter sido melhor. Era jogada a quarta rodada da competição e o Atleti ainda não havia vencido. Foi então que o meia-atacante deu o ar da graça e comandou seu novo clube a um triunfo maiúsculo: 4 a 1 contra o Salamanca, com hat-trick, de Leivinha. A estes três gols se somaram mais quinze naquela campanha. Ou seja, em seu debute em solo hispânico, o ex-palmeirense anotou 18 tentos em 31 jogos. Nada mal.



O primeiro ano de Luís Pereira também foi positivo, mas não tanto quanto o de seu companheiro. O zagueiro disputou 21 jogos e anotou três gols, ainda se tornaria indispensável nos anos que se seguiriam. O jogador só não atuou mais em razão de uma lesão sofrida no 24º jogo do Campeonato Espanhol, que o tirou de combate até o ano seguinte. No entanto, registre-se a nota: foi com duas bolas na rede do beque que os Colchoneros venceram o Las Palmas, na 13ª rodada. 

A conquista de La Liga

É provável que os nomes de Leivinha e Luís Pereira se tenham eternizado na história do Atlético de Madrid pelos feitos alcançados na temporada 1976/77. Como falado, o time vinha de um histórico positivo na década de 70 e acabara de vencer a Copa del Generalísimo. No entanto, a grande glória do futebol espanhol é, indiscutivelmente, o campeonato e os Rojiblancos precisavam vencê-lo; conquistá-lo significava ser o senhor soberano na nação e avançar à disputa da Copa dos Campeões da Europa.



Com essa missão no horizonte, o time venceu logo sete das primeiras 10 partidas que disputou. Leivinha marcou seu primeiro gol já no minuto inicial da primeira rodada, vitória contra o Málaga. No entanto, a sorte do brasileiro não se confundiria com a do clube. Na segunda partida, contra o Celta, sofreu entrada dura que não o tiraria dos campos imediatamente, mas, eventualmente, forçaria uma cirurgia. No primeiro turno, disputou onze jogos; no segundo, apenas quatro. Ainda assim, teve contributo imensurável, dado o fato de que balançou as redes oito vezes no período.

Por outro lado, Luís Pereira foi protagonista. Presente em 32 das 34 partidas da campanha e substituído em apenas duas ocasiões, forjou sua fama de defensor clássico, hábil com a bola nos pés e capaz de iniciar as ações ofensivas do time. Foi penalizado apenas duas vezes com o cartão amarelo e anotou quatro gols. 



A temporada foi marcante por várias razões. O Atleti goleou o rival Real Madrid por 4 a 0 em seus domínios (vendo os Merengues terminarem o torneio na sofrida nona colocação), bateu o vice Barcelona por 3 a 1 e venceu duas vezes o Athletic Bilbao, terceiro colocado. Teve o segundo melhor ataque, com 62 gols anotados (contra 69 do Barça), e a melhor defesa, tendo concedido apenas 33. Por si só, o título já ratificaria a supremacia atleticana, mas a verdade é que o time de Aragonés, com um toque brasileiro, fez bonito. Só não teve o artilheiro. O hispano-argentino Rubén Cano, melhor marcador colchonero, foi às redes 20 vezes, contra 24 do Pichichi da temporada, Mario Kempes.

Os anos que se seguiram

A tônica de 1976/77 se repetiu nos anos que se adiantaram. Não vieram mais títulos para Luís Pereira e Leivinha. Enquanto o primeiro se confirmou uma fortaleza na retaguarda rojiblanca, titular inquestionável e ídolo, o segundo viveu dura e triste realidade: paralelamente a sua imensa e reconhecida qualidade, a condição física e as lesões o assolaram de maneira constante.

Sem a referência do aposentado José Gárate, o Atlético de Madrid entrou na zona de conforto em 1977/78. Foi apenas o sexto colocado do Campeonato Espanhol, vencido pelo rival Real Madrid. Na Copa dos Campeões, eliminou Dínamo Bucareste e Nantes, mas parou, nas quartas de finais contra o Club Brugge, que seria o finalista derrotado. Leivinha começou a temporada no estaleiro, só estreou na 12ª rodada de La Liga, mas atuou nas partidas contra o clube belga e terminou a temporada em bom momento, emplacando três gols, nas últimas três rodadas. Foram 20 as partidas disputadas e sete seus gols. 

Naquela altura, o meia-atacante já se sentia em dívida com o clube e a torcida. “Ainda tenho que demonstrar que sou o que fui. Estou em dívida com o torcedor”, revelou ao El País, em novembro de 1977. No ano seguinte, seu último em Madri, viveu semelhante trajetória, com lesões, 20 jogos e sete gols. Diante do desempenho instável, dos problemas físicos e da limitação ao máximo de dois estrangeiros, imposta pela Liga Espanhola e que passaria a vigorar em 1979/80, voltou ao Brasil, para encerrar a carreira no São Paulo. Nunca foi, contudo, esquecido.



Já Luís Pereira viveu anos de solidez e calmaria. Não sofreu nenhuma contusão grave e foi sempre titular. Ainda assim, ficou apenas mais um ano no clube em relação a seu companheiro, deixando a capital espanhola em 1980 e voltando ao Brasil, para vestir a camisa do Flamengo. Ainda retornaria ao Palmeiras e passaria por outros clubes, já com a idade avançada. “Foram cinco anos preciosos no Atleti. Sou uma pessoa muito identificada com o clube e fui muito bem recebido pela torcida”, revelou, em 2013, ao site oficial do Atlético de Madrid. Posteriormente, trabalhou no Atlético de Madrid B, descobrindo talentos e eternizando sua ligação com o clube.

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