quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O renascimento do Schalke 04 pela jovem mente de Domenico Tedesco

Os melhores anos do Schalke 04 já são vistos à distância. Embora tenha sido terceiro colocado alemão em 2011/12, quarto em 2012/13 e, novamente, terceiro em 2013/14, a distância para os líderes já se mostrava intransponível. Em nenhum momento dessas campanhas, os Königsblauen chegaram perto de lutar pelo título. No entanto, naquela altura, o clube ainda conseguia frequentar a UEFA Champions League. Porém, o sexto, quinto e décimo lugares obtidos nas últimas três campanhas sinalizaram assertivamente algo preocupante: o Schalke 04 perdera ainda mais sua força. Contudo, desde a chegada do jovem treinador Domenico Tedesco a situação parece ter começado a mudar.


Foto: Site oficial do Schalke 04


A reformulação por que passou o clube do Vale do Rühr na última janela de transferências foi profunda. Ao mesmo tempo em que velhas referências deixaram a Veltins Arena, casos de Benedikt Höwedes e Klaas-Jan Huntelaar, jovens também procuram outros rumos: Johannes Geis seguiu para o Sevilla e Sead Kolasinac foi testar seu potencial na Premier League, assinado com o Arsenal. A debandada parecia geral e os reforços que chegaram não convenceram de início. Apenas Bastian Oczipka e Amine Harit carregaram consigo alguma simpatia. Porém, o que o torcedor não se dava conta então era do fato de que o grande reforço do Schalke 04 se encontrava no banco de reservas.

Quem é ele?

Pouco se sabia sobre Tedesco quando os Azuis Reais anunciaram sua chegada. Certo é que treinara equipes de base de Stuttgart e Hoffenheim e salvara o modesto Erzgebirge Aue do rebaixamento à terceira divisão alemã, em 2016/17. Aos 32 anos, o ex-colega de curso de treinadores do igualmente jovem Julian Nagelsmann (comandante do Hoffenheim), desembarcou em Gelsenkirchen com uma missão realmente dura. Porém, o italiano tem demonstrado que estava preparado para assumir tal trabalho.

Quem o conhece aponta sua postura, mantendo sempre os pés no chão, como a principal característica de sua personalidade e, consequentemente, do trabalho. Sem grandes reforços, com o clube vindo de uma temporada difícil e com perdas importantes, Tedesco sabia desde o início que teria que tirar alguns coelhos de sua cartola para fazer o Schalke 04 dar liga. Sua ética de trabalho, contudo, encaixava-se com perfeição às necessidades do clube. Nunca é demais dizer, igualmente, que a chance de treinar os Königsblauen tendo tão pouca experiência se revelou fantástica para Domenico, independentemente da fase do clube.

O presidente de seu antigo time, o Erzgebirge Aue, demonstrou tal realidade com perfeição em entrevista concedida ao site oficial da Bundesliga: "ele conversa com os jogadores. Ele lhes mostra suas falhas em vídeo e, imediatamente, procura soluções. Ele é, também, poliglota, falando inglês, espanhol, italiano e alemão, o que é cada vez mais importante no futebol atual e uma grande vantagem".

A recuperação de alguns jogadores

Foto: Site oficial do Schalke 04
Diante dessa realidade, Tedesco foi ao campo trabalhar; começou a redescobrir alguns jogadores. 

O ucraniano Yevhen Konoplyanka, por exemplo, oferecera apenas uma assistência em 17 partidas da temporada passada. Na atual, somados 14 jogos, já são três. O zagueiro e volante Benjamin Stambouli, de média de 1,8 desarmes em 2016/17, obtém atualmente a marca de 3,3. 

Do topo de seus 35 anos, Naldo voltou a ser uma barreira poderosa no coração da defesa do Schalke 04, tendo sido eleito o melhor em campo já em três partidas (ademais, junto ao goleiro Ralf Färmann, é o recordista de minutos dispoutados na temporada). Além ele, após um período de adaptações, depois de chegar do Wolfsburg no meio do último ano, Daniel Caligiuri, como ala pela direita, é outro que vem jogando muito bem.

Todos esses nomes já estavam no time em 2016/17, mas seu desempenho não era nem de longe semelhante ao atual. É bem verdade que algumas lesões atrapalharam o processo de agrupamento da equipe no último ano, mas a diferença de desempenho de uma temporada para a outra é grande demais para que se atribua apenas a critérios físicos a evolução dos atletas.

É claro: as aquisições de Oczikpa e Harit deram muito certo. A forma recente do lateral esquerdo não permitiu que o torcedor do Schalke 04 ficasse ressentido com a saída de Kolasinac por muito tempo. Por outro lado, o garoto marroquino, de apenas 20 anos, trouxe consigo a habilidade que é muitas vezes necessárias para puxar bons contragolpes e quebrar fortes linhas de marcação.

A definição de um estilo de jogo

Outro contributo fundamental oferecido por Tedesco foi a definição de uma forma de jogar para o clube. Também ao site oficial da Bundesliga, falou sobre o assunto:

"Sempre quero que meus times dividam bem os espaços. Gosto de comparar isso a um boxeador, que nunca pode baixar a guarda. Acima de tudo, queremos recuperar a bola tanto quanto seja possível, porque amamos atacar - ainda que com certo balanço e estrutura, para sermos capazes de controlar as transições".

Não é à toa que o Schalke é o terceiro time que mais vezes intercepta a bola na Bundesliga e também não é de se espantar o fato de que também ocupa a terceira colocação no ranking dos times que menos oferecem chances de finalização aos adversários. Tais dados ajudam a explicar o fato de que apenas Augsburg e Bayern de Munique sofreram menos gols do que os Azuis Reais, mesmo estes tendo vivido jogos completamente fora de seu próprio padrão, como na ocasião em que sofreram quatro gols do Borussia Dortmund ou em outra, quando concederam três frente ao Bayern.

Foto: Site oficial do Schalke 04


O Schalke 04, no entanto, ainda está em formação. Essa realidade se comprova quando se confronta o fato de que o time já cometeu seis erros defensivos graves, três deles terminando em gols dos rivais. Certa afobação na recuperação de bola também faz dos Königsblauen o quarto time que mais cartões recebeu na competição e o que mais cometeu faltas, com 237, na Bundesliga. 

Os desarmes têm sido muito agressivos, mas ainda carecem de maior precisão. Nada mais natural diante de um trabalho com menos de seis meses de duração. O time de Tedesco busca cortar linhas de passe e pressionar os adversários, mas nem sempre consegue, não alcançou ainda a sintonia fina. 

Tudo isso tem sido tentado por meio do uso de um esquema tático com três defensores na base (3-1-4-2, 3-4-3 ou 3-4-1-2). Naldo comanda a linha de defesa, avançando ocasionalmente e servindo de referência para Stambouli e seu outro companheiro (Matija Nastasic ou Thilo Kehrer). Convém notar que raramente o Schalke 04 utiliza um meio-campista mais voltado para a destruição, com Max Meyer e o garoto Weston McKennie formando importante parceria nos últimos jogos. Também têm muito relevo os papeis combinados entre Caligiuri e Harit pela direita e Oczipka e Konoplyanka pela esquerda, tanto na fase defensiva quanto ofensivamente.

A prova de fogo de Tedesco

Todo o trabalho de Tedesco parecia ter sido inútil, entretanto, quando o treinador foi apresentado ao seu maior rival, o Borussia Dortmund. Atuando fora de casa, com 25 minutos de jogo, já sofria a desvantagem de 4 a 0. Qual seria o limite desse massacre? Na ocasião, aos 33, o comandante azul real lançou Harit e Leon Goretzka ao campo nos lugares de Franco Di Santo e McKennie. Foi aos poucos recuperando a calma e ganhando controle, na mesma medida em que os aurinegros se desinteressavam pela partida.

Foto: Getty Images


E não é que o jovem treinador conseguiu recuperar os ânimos de seus jogadores e os inspirar a um empate, no mínimo, improvável? Mais concentrados do que nunca, completaram 13 dos 15 desarmes tentados no segundo tempo. Venceram 12 dos 18 duelos aéreos no mesmo período e só perderam a bola cinco vezes, contra 10 do rival. Ameaçaram a meta do Dortmund 11 vezes, contra apenas três do rival (no primeiro tempo haviam levado perigo em apenas duas oportunidades). Reagiram como poucas vezes se viu no futebol. Tedesco saiu do Signal Iduna Park com apenas um ponto, mas com a moral elevadíssima.

Goretzka: uma questão a gerir

Uma questão problemática e que revelará ainda mais a respeito das capacidades de Tedesco será a gestão da provável saída de Leon Goretzka, cujo contrato vence ao final da temporada. O meio-campista, nesse momento seguramente o atleta mais promissor e impactante do Schalke 04, confirmou que decidirá seu futuro em janeiro. Aos 22 anos, é convocado com frequência para a Seleção Alemã e foi soberbo na última edição da Copa das Confederações. Domenico Tedesco lidou bem com a questão envolvendo Benedikt Höwedes, que deixara de ser o capitão, antes de partir para a Juventus, mas não é possível prever o impacto da saída do meia. 

Para todos os efeitos, ele não tem sido deixado de lado pelo italiano e seu desempenho segue bom. Em 11 jogos disputados na Bundesliga, anotou quatro gols e alcançou bons índices defensivos (2,2 desarmes por jogo, 1,8 interceptações), sem prejuízo de sua contribuição ofensiva, com gols e constante chegada (chuta em média 2,2 bolas às balizas rivais). É um jogador especial e que dificilmente permanecerá em Gelsenkirchen. Lidar com o processo de saída do atleta e com a efetiva transferência será um processo importante para Tedesco lidar. Entretanto, até o momento, quando não pôde contar com Goretzka, o treinador encontrou soluções.

Para já, no entanto, o melhor é apreciar a retomada do Schalke 04, que, se não briga pelo título, voltou a lutar nas cabeças. O início do trabalho de seu jovem treinador é promissor e consistente. O elenco, em si, não é tão forte e tem poucas peças de reposição, o que poderá trazer dificuldades ao comandante em alguma parte da temporada. Porém, nesse momento, o lado azul da rivalidade do Vale do Rühr, a mais forte da Alemanha, só quer saber de fazer troça com seu antagonista e aproveitar a posição privilegiada na tabela. Tedesco, como Nagelsmann no ano passado, vai se confirmando um dos treinadores mais promissores da Europa.

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