quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Afastado por um corte

O curioso, e mal orientado, que se aventurar na pesquisa a respeito dos nomes que mais vezes representaram a seleção argentina de futebol pode se surpreender. Muitas são as vozes que não hesitam em colocar o meio-campista Fernando Redondo no grupo dos maiores hermanos de todos os tempos. Porém, seu registro aponta apenas 29 aparições com a camisa da Albiceleste. Como? Isso mesmo. E esse não é o fato mais impressionante dessa trajetória.


Foto David Cannon/ALLSPORT


Entre 1994 e 2000, o elegante, hábil e refinado meia - El Princípe - representou as cores do Real Madrid, após despontar com a camisa do Argentinos Jrs., passar um frutífero tempo no Tenerife (o mais estável de toda a história dos Tete) e jogar a Copa do Mundo de 1994. Seus feitos durante o período em que representou os Merengues são tão impressionantes, que não é raro se notar referências ao meio-campista com o melhor ‘5’ que os madrilenos já alinharam em toda a sua história.


Redondo era grande. Possuía o que de mais importante se pode esperar de um jogador argentino: definia a técnica e era por ela definido; controlava o ritmo dos jogos; driblava quando necessário; finalizava bem com a canhota e ainda tinha personalidade, a qual lhe tomou um lugar maior na história. Não por sua culpa.

Foto: Getty Images
Se nos convidassem a fazer uma lista de jogadores argentinos de potencial brutal e que nunca cumpriram totalmente as expectativas criadas, talvez precisemos de um bom tanto de papel. Ariel Ortega, Javier Saviola, Andrés D’Alessandro… Trata-se de um rol extenso e que nada tem a ver com Redondo. O meio-campo brilhou intensamente durante a carreira. É lembrado com carinho pelos aficionados de todos os times por onde passou, mesmo no final de seu caminho, quando as lesões já o impediam de atuar com frequência. A seleção argentina, entretanto, pouco contou com sua qualidade. 

O capitão da esquadra rioplatense que conquistou o título da mais controversa Copa do Mundo de sempre, a de 1978, foi o treinador dos hermanos justamente no período em que o talento de Redondo era mais indiscutível, entre os Mundiais de 1994 e 98. Daniel Passarella foi um líder nato dentro dos gramados; fora deles se apresentou um tanto quanto intransigente. El Caudillo queria ordem, mas perdeu ao procurá-la em espaços que não eram de sua alçada. Não fosse por isso, aquele que para muitos é considerado o melhor defensor argentino da história poderia ter mantido seu nome incólume, respeitado acima de quaisquer questões.

O problema do período foi que, na ânsia de construir um núcleo duro de jogadores empenhados em alcançar o máximo coletivamente, sem vaidades, Passarella foi longe demais. Baniu brincos e deixou claro que cabelos longos seriam motivo de cortes. Uma das marcas que melhor distinguiam Redondo dentro da cancha era justamente suas esvoaçantes madeixas. Segundo reportou o Clarín, anos mais tarde, em 2015, a questão entre treinador e atleta foi a “briga mais singular e ridícula da história da seleção”. A matéria ainda relatou que para o comandante “brincos e cabelos longos são perigosos porque os jogadores se distraem durante os jogos tocando-os muitas vezes”.

Foto: Getty Images
Houve muita gente que acatou as ordens, Gabriel Batistuta acabou sendo o mais representativo dessa categoria. Mas, à exemplo de Claudio Caniggia, Redondo se negou. Em 1995, o treinador teria, inclusive, viajado a Madri para convencê-lo a entrar no espírito que pretendia para a seleção e voltar a representar a Albiceleste. Na ocasião, o meia se encontrava barrado no Real Madrid, por ter se negado a atuar pelo lado esquerdo. Passarella ofereceu palavras brandas, afagou o ego de seu atleta, mas ao final pediu que cortasse o cabelo. Pedido feito e declinado. 

A versão que foi ao público indicou que o jogador teria se negado a jogar pela esquerda também na seleção. Redondo, o mentiroso da história, ficou fora da Copa América de 1995 e do Mundial de 1998.

Muitos jogadores acabaram apoiando o camisa 5, dentre eles Diego Maradona, que se apresentou certa vez com uma mecha loira nos cabelos. A polêmica perdurou, dividiu o país. Para alguns, as exigências d’El Caudillo eram discriminatórias e beiravam o facismo, outros, todavia, entendiam que qualquer atleta tem deveres para com o seu país e, se tivesse que cortar o cabelo para honrá-los, teria de assim proceder.

O saldo dessa história é uma derrota geral. A seleção argentina deixou de contar com um de seus jogadores mais geniais da história; privou-se da qualidade de alguém que, de acordo com o Diario AS, nas palavras do ícone do Manchester United, Sir Alex Ferguson, possuía “imãs nas chuteiras”. A imagem de intolerância de Passarella nunca mais mudou, bem como a mágoa de Redondo. Obviamente, a Albiceleste se ressentiu da ausência de seu craque. 

A Copa América de 1995 acabou ficando com o anfitrião Uruguai, de geração nada brilhante. Em 1998, foi um esquadrão da Holanda que condenou os argentinos, nas quartas de finais. Naquele momento, Redondo acabara de se sagrar campeão europeu com o Real Madrid; talvez fosse a dose extra de talento que o time precisava para ir adiante e lutar pelo tricampeonato mundial. Em seu lugar jogava o bom, porém muito mais limitado, Matías Almeyda. Ironicamente, outro cabeludo - o treinador afrouxara seus limites.

Foto: Reuters


Passarella ainda tentou chamar o astro em 1997, mas ouviu uma recusa. Desde o momento em que saiu como “mentiroso”, Redondo entendeu que não havia ambiente para si na seleção: 

“A ideia do Mundial foi o que me fez pensar mais, mas está claro que não a qualquer preço [...] eu não sou dos que hoje dão um abraço e amanhã uma punhalada [...] Passarella não me inspira confiança, é capaz de qualquer coisa”, disse ao El País, em abril de 1998.

Talvez tenha também sido irredutível demais, ainda assim, o seu lado na história, é mais fácil de se justificar. Após a queda para a Laranja, seguiu-se a saída de Passarella do comando da Albiceleste. Entrou Marcelo Bielsa em seu lugar. El Loco até chamou Redondo, inicialmente. Mas para o atleta seu tempo havia passado e, já com problemas físicos, lutando contra seus joelhos, abdicou da seleção.

O 5 terminou seu vitorioso caminho no Real Madrid em 2000, após mais um título continental. Foi ao Milan e viveu um inferno astral, marcado por muitas lesões, que eventualmente colocaram fim a sua carreira. No período, chegou a renunciar ao recebimento de salários. Redondo tinha uma maneira de enxergar as coisas e as liberdades de cada um, Passarella outra. Ambos foram defendidos e atacados por suas decisões. Ficou, eternizada, contudo, a expectativa: como teria sido a vida da seleção argentina com um princípe de imãs nos pés em campo?

3 comentários :

  1. Redondo tinha uma elegância pouco usual na sua posição. Sua história na seleção argentina é de um desperdício incrível.

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