terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O canhão que quase chegou ao Manchester United

Não são muitos os jogadores brasileiros que representaram as cores do Manchester United. O primeiro deles foi Kléberson, em 2003. O meio-campista havia se destacado na Copa do Mundo de 2002, quando foi pentacampeão. A negociação com os Red Devils acabou se arrastando por um ano, ele foi apresentado junto a Cristiano Ronaldo e fracassou retumbantemente. O que muitos não sabem é que o estádio Old Trafford poderia ter recebido seu primeiro brasileiro em 1997. No referido ano, o treinador Alex Ferguson esteve próximo de poder anunciar a contratação do zagueiro Célio Silva.


Foto: Getty Images


Lembrado por seus potentes chutes (que chegavam aos 136km/h, como veiculou o Globoesporte.com), o defensor vivia ótimo momento com a camisa do Corinthians e já tinha muita experiência. Completara 29 anos e carregava em seu currículo passagens por Vasco da Gama, Internacional, clube em que marcara seu nome, anotando o gol do título da Copa do Brasil de 1992, e Caen-FRA. Também já havia representado a Seleção Brasileira (havia sido titular no Tournoi de France naquele ano, formando zaga com Aldair, e fora chamado à disputa da Copa América).


Aliado a isso, o Manchester United buscava desesperadamente um zagueiro e Célio já estava de saída do Timão - segundo reportou a Folha, o clube paulista receberia US$ 5,9 milhões na transação e o jogador seguiria para a Terra da Rainha.

Naquele momento histórico, o clube inglês vivia um período de transição, com a aposentadoria precoce de Éric Cantona e a afirmação cada vez mais evidente da famigerada Class of 92 - o grupo de jovens formado por David Beckham, Ryan Giggs, Paul Scholes, Nicky Butt e os irmãos Gary e Phil Neville, que venceria de forma fantástica a Copa dos Campeões da Europa, dois anos mais tarde.

Entre ingleses, brasileiros e o atleta estava tudo certo; os valores haviam sido acertados. Contudo, as regras para a contratação de jogadores estrangeiros pelos clubes ingleses eram (e ainda são) rígidas. Embora viesse sendo frequentemente convocado para a Canarinho, o beque não havia atuado em 75% dos jogos da Seleção nos dois anos anteriores, não possuía o que os ingleses costumam chamar de “qualidade inquestionável” e nem se tratava de um jovem com muita margem para evolução - requisitos para que recebesse a licença de trabalho.

Desde o início da negociação, Ferguson sabia que não seria fácil concluir o acordo. A oportunidade, porém, era vista com bons olhos por todos os envolvidos. Valia a pena pagar para ver, mesmo que a possibilidade de um fracasso fosse real.

“Célio só tem seis jogos internacionais, isso é uma preocupação para nós. É uma questão, mas só podemos esperar e ver o que acontecerá nessa semana”, disse o treinador dos Red Devils, ao Independent, em 28 de julho de 1997.

O indesejado, mas esperado, desfecho acabou acontecendo. A licença de trabalho não saiu e a carreira de Célio Silva também encalhou. O Corinthians tinha contratado naquele ano outro selecionável, Antônio Carlos Zago, que acabou tomando um pouco de seu espaço. 

Foto: Rogério Assis/Folhapress
Assim, o zagueiro rodou por Goiás, Flamengo e Atlético Mineiro, foi parar na Universidad Católica, do Chile, e encerrou a carreira onde tudo começou, no Americano, de Campos dos Goytacazes. Em todos esses clubes, jogou pouco, convivendo com lesões. Segundo relatou, em entrevista concedida em 2012, também quase não recebeu: “saí do Corinthians e fui para o Goiás, em 1998, e não recebi. Fui para o Flamengo, em 1999, e não recebi. Em 2000, também não recebi no Atlético Mineiro. E em todos esses clubes que não me pagaram, eu joguei”.

Recentemente, em 2015, as regras para a concessão do work permit foram modificadas pela Football Association. Os requisitos foram revistos. Desde então, se o atleta que postula um lugar no futebol inglês for cidadão de um dos países que figuram dentre os 10 melhores no ranking da Fifa, é necessário que tenha atuado por sua seleção em 30% das partidas, nos últimos dois anos. Entre o 11º e o 20º postos, o limite é de 45%; na faixa do 21º ao 30º, de 60%; e, no intervalo do 31º ao 50º, de 75%. 

Jogadores de países que não figuram dentre os 50 primeiros no ranking da Fifa podem ter sua negociação submetida a um apelo, assim como os demais futebolistas dos países do Top 50, mas que não possuem a assiduidade internacional necessária. 

Voltando ao ano de 1997, em uma janela complicada, os mancunianos tiveram propostas por Markus Babbel e Rio Ferdinand rejeitadas, não ficaram satisfeitos com o desempenho do chileno Dante Poli, que passou por um período de testes, e acabaram contratando o norueguês Henning Berg, ex-Blackburn e titular absoluto em seu país. Passariam mais seis anos até que, finalmente, um jogador brasileiro defendesse o Manchester United. Célio Silva nunca mais voltou à Seleção e ao nível que exibia na época da negociação.

Um comentário :

  1. Mais um excelente texto, fica meu comentário ao novo design, sensacional, tmj mano!

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