sexta-feira, 6 de julho de 2018

Um Uruguai para o futuro

Foi inapelável. O jogo entre Uruguai e França, válido pelas quartas de final da Copa do Mundo, revelou, sem deixar margem para dúvidas, que a Celeste havia chegado ao seu limite. Contra uma França em plena forma, segura na defesa, controladora no meio-campo e eficiente no ataque, deu seu máximo, que simplesmente não foi suficiente. Sem Edinson Cavani, faltou a Luis Suárez um companheiro e aos demais uma referência. Mas, o escrete sul-americano caiu de pé, deixando plantada a semente de 2022.


Foto: Getty Images


Enquanto treinador que mais vezes liderou uma mesma seleção nacional, Óscar Tabárez faz um grande trabalho desde que assumiu o comando charrua, em 2006. Ele assumiu uma equipe que não se classificara à disputa do Mundial de 2006 e a devolveu ao lugar que a história lhe garante, no rol das maiores do planeta. Disputou as Copas do Mundo de 2010, 2014 e 2018. Obviamente, passou por processos de construção, desenvolvimento e consolidação.

Em sua primeira competição oficial, começou a construir a base de 2010. Foi na Copa América de 2007. Ainda não contava com Suárez ou Cavani. No entanto, já alinhava Diego Forlán, Diego Lugano, Diego Godín, Cristian Rodríguez, Maxi Pereira e Diego Pérez. A eles se juntaram, com o tempo, Arévalo Ríos, Álvaro Pereira, Martín Cáceres, Fernando Muslera e, claro, Súarez e Cavani. 

Quem acompanhava o futebol nessa época sabia tranquilamente escalar a equipe uruguaia. Havia gente experiente, mas também existiam jovens que pediam passagem.

Esse foi, basicamente, o time que conquistou o título da Copa América de 2011 e que viajou ao Brasil, para jogar o Mundial de 2014 — claro, já com algumas caras novas, como as dos zagueiros José Maria Giménez e Sebastian Coates. Mas a base ainda estava lá. Avançou de fase em um grupo que dividiu com Inglaterra, Itália e Costa Rica e parou na seguinte, contra uma promissora Colômbia.

Foto: Getty Images
Entretanto, o processo de renovação foi bem mais drástico de 2014 para 2018. De um campeonato do mundo para o outro, 12 jogadores mudaram. Figurinhas carimbadas, mas envelhecidas, como Forlán, Arévalo, Walter Gargano, A. Pereira e Diego Lugano deram lugar a jovens talentosos e com muita vontade. Porém, ainda verdes.

Tendo em Cavani, Suárez e no capitão Godín suas maiores referências, Nahitan Nández, Rodrigo Bentancur, Giorgian De Arrascaeta, Lucas Torreira, Maxi Gómez e Matías Vecino — para citar apenas alguns — conquistaram seu espaço no período entre copas. Mostraram qualidade, mas, acima de tudo, revelaram imenso potencial. Aparentam estar ainda longe do limite máximo de suas qualidades e isso só se conquista em campo, jogando, e com o tempo, acumulando experiências.

Bentancur, Gómez e Guillermo Varela, por exemplo, só estrearam pelo selecionado charrua em 2017. Torreira, talvez o jovem uruguaio que mais se destacou no Mundial da Rússia, ganhou seus primeiros chamados mesmo em 2018. Esse time, que mostrou a organização e o poder de luta já tradicionais, fez muito. Chegar ao grupo dos oito melhores em pleno processo de transição não é para qualquer um. O trabalho de Tabárez, cujo futuro é incerto, segue sendo exemplar. Dentre os 23 escolhidos para o Mundial, apenas Maxi Pereira, Godín e Cristian Rodríguez não estrearam pela Celeste sob sua direção.

Aos poucos, o estilo de jogo uruguaio também está se modificando. Os meio-campistas de outrora, limitados tecnicamente, mas duros na queda, vêm cedendo seus lugares a jogadores de bom passe, movimentação e visão de jogo. Isso tudo sem perder aquela que é a principal marca do Uruguai de Tabárez: a competitividade. 

Foto: Getty Images
Em 12 anos, ele não transformou o time em uma potência, mesmo porque nunca dispôs do material humano necessário, mas o tornou um oponente indigesto, uma equipe que ninguém queria ter em seu caminho.

“Penso que em razão de termos jovens tão bem adaptados ao futebol europeu, temos uma perspectiva promissora [...] Foi demonstrado, apesar dos altos e baixos, que há uma forma de fazer as coisas que nos permite ser competitivos”, disse Tábarez após a classificação para o Mundial de 2018.

Desde 2006, o Uruguai conseguiu se reafirmar no cenário internacional. Para 2022, vai moldando um time com mais recursos técnicos do que aqueles do passado recente, sem perder sua essência. No Catar, Suárez e Cavani serão veteranos de 35 anos. Godín terá 36. Pode ser que ainda lá estejam. O que aparenta ser certa é a presença de gente como Torreira, Bentancur ou Nández. Mais maduros. Prontos para manter seu selecionado entre os maiores, e o espírito charrua vivo.

Após a eliminação, o treinador uruguaio refletiu: "Em Novgorod terminou um sonho. Mas outras competições virão, outros sonhos virão e temos de persegui-los e concretizá-los". Certamente, Tabárez.

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