quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O sonho que a Real Sociedad viveu até o último suspiro

Haviam passado 21 anos desde o último título espanhol da Real Sociedad. A 13ª colocação no campeonato anterior não dava esperanças de dias vitoriosos. Apesar disso, o time tinha no banco de reservas um comandante que havia conseguido um feito relevante. Em 2000/01, Raynald Denoueix levara o Nantes ao título francês — o mesmo clube que ficara no 12º lugar na temporada antecedente. Em 2002/03, o time basco sonhou até o final.


Foto: Goal.com


Dois artilheiros para a todos governar

Um deles era jovem e vivia seu primeiro ano fora de seu país. O outro já era ídolo do torcedor e retornara ao estádio Anoeta, depois de decepcionar vestindo a camisa da Lazio. Um turco e um sérvio, um baixinho habilidoso e goleador e um grandalhão matador. Nihat Kahveci e Darko Kovacevic eram os trunfos de um time bem arrumadinho, as duas cerejas que adornavam o bolo azul e branco.

Aquele time tinha uma ideia de jogo bastante simples. Atuava no tradicional 4-4-2, com duas linhas de quatro na defesa e no meio-campo e a letal dupla de atacantes. O goleiro Sander Westerveld era um dos reservas do mito Edwin van der Sar na Seleção Holandesa. As laterais tinham dois selecionáveis: pela direita, Aitor López Rekarte; pela esquerda, Agustín Aranzabal. No centro do meio-campo, havia um futuro craque e uma lenda do clube: Xabi Alonso e Mikel Aranburu. 

Na criação, mais duas grandes potências desfilavam bom futebol. O lado esquerdo contava com a referência do experiente Javi de Pedro, meia de muitas assistências e chute potente de perna canhota, que representou a Espanha no Mundial de 2002. Já a faixa direita era preenchida por um reforço pesado trazido pelos Txuriurdin na última janela de transferências: o experiente russo Valeri Karpin, ídolo do Celta de Vigo.

Lá na frente, Nihat e Kovacevic garantiam os gols criados por toda essa gente boa que os cercava.

Foco único e início implacável

Com a colocação ruim na liga anterior, a Real Sociedad não tinha qualquer competição europeia para disputar em 2002/03. Além disso, caiu ainda na primeira fase da Copa del Rey, eliminado pelo Zaragoza. O foco dos comandado de Denoueix era um só: a busca de uma conquista há tempos desejada, o campeonato espanhol. E a temporada começou da melhor maneira possível.

Foto: imago

Na primeira rodada da competição, os de azul e branco tiveram um desafio importante. Enfrentar o maior rival logo de cara era uma faca de dois gumes, já que uma derrota poderia deixar o clima tenso, com uma vitória garantindo bons ares à equipe. Treinado pelo alemão Jupp Heynckes, o Athletic Bilbao tentou parar sua rival. Carlos Gurpegui marcou duas vezes, mas Karpin, Kovacevic e Nihat (duas vezes) garantiram a vitória à Real. 

O time demorou tempo demais para cair. Para ser mais preciso, demorou um turno inteiro. E foi só na 10ª rodada que o torcedor ficou sem poder contar com gols de um de seus atacantes. Em todas as rodadas anteriores ao menos um dos dois fora às redes. Mas há um detalhe importante: quando faltaram gols aos goleadores, eles não vieram de parte alguma, com a equipe de San Sebastián ficando no zero com o Real Madrid.

Queda e instabilidade

Foto: Amaia Zábalo
Foi impressionante ver os êxitos do clube naquelas primeiras 19 partidas (12V e 7E). Mas uma hora a equipe foi subjugada. Da pior forma possível…

Com dois gols de Joseba Exteberría e outro de Santiago Ezquerro, o Athletic freou seu rival. O azuis lideravam La Liga, com 43 pontos — cinco a mais do que o vice, Real Madrid. Todavia, os Merengues só empataram na rodada e os bascos mantiveram uma boa vantagem na liderança.

A sequência foi instável. Nos cinco jogos que se seguiram, a Real Sociedad venceu duas vezes, perdeu outras duas e empatou um encontro. Ainda que a queda não tenha sido acentuada, serviu para perder a liderança. Na 24ª rodada, os bascos deixaram o topo. Três rodadas depois, uma nova derrapada, empate com o Villarreal, significou o isolamento do Madrid e uma aproximação do Deportivo La Coruña, justamente os dois rivais da sequência.

No estádio Riazor, os de San Sebastián não foram páreo para o Dépor. A derrota por 2 a 1 — com gols de Joan Capdevilla e Fran, Nihat descontando — sentenciou o antigo líder à dormir na amarga terceira posição, seis pontos atrás do líder. Mas a Real queria sonhar.

Em sua casa, parou o time da capital. De nada adiantou ter Ronaldo, Raúl, Luís Figo e Zinédine Zidane, porque os bascos tinham uma dupla turco-sérvia em grande. O 4 a 2, com dois gols de Kovacevic, um de Nihat e outro de Xabi Alonso reacendeu a chama do coração txuriurdin — sobretudo porque na sequência o time goleou o Rayo Vallecano por 5 a 0.

Respirando por aparelhos

Apesar disso, havia o Barcelona no meio do caminho. E os catalães contaram com gols de Javier Saviola e Patrick Kluivert para vencer o jogo. Ainda assim, aquele time ansiava ardentemente pelo fim do longo jejum. Emplacou quatro vitórias contra Sevilla, Mallorca, Recreativo Huelva e Málaga. Na 34ª rodada reassumiu a liderança daquele que foi um campeonato espanhol de tirar o fôlego.


Mas o pique daquele time começou a acabar. No 36º encontro o time não saiu do empate contra o Valencia. Por sorte, o rival de Madrid também somou apenas um ponto. A questão é que os azuis e brancos abusaram da fortuna. Perderam para o Celta na penúltima rodada e viram os madrilenos reassumir o topo. De nada adiantou a vitória com propriedade perante o Atlético de Madrid no derradeiro confronto, 3 a 0, já que os Merengues também venceram e levaram mais um troféu para casa.

Vice-campeonato à parte, aquele foi um ano incrível para o torcedor da Real Sociedad. Ele conseguiu renovar sua crença na equipe, que obteve a melhor colocação desde o último segundo lugar, em 1987/88. E, além disso, as arquibancadas sabiam que podiam contar com uma dupla de ataque letal. Nihat e Kovacevic foram responsáveis por 60,5% dos gols da equipe. Foram 23 para o turco e 20 para o sérvio. 

Desde então, o time luta para se reafirmar, tendo inclusive descido à segunda divisão em 2006/07. A despeito disso, a lembrança da emoção vivida naquela já distante campanha de 2002/03 segue tendo força. Os tentos de seus atacantes, os passes de Alonso, o talento de De Pedro e Karpin formam uma memória terna demais para ser esquecida.

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