quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Times de que Gostamos: Torino 1942-1949

Retomando a série “Times de que Gostamos”, após falar sobre o Feyenoord da temporada 1969-1970, Campeão Europeu, trato do fantástico time do Torino da década de 40, que encantou o mundo e teve um final trágico.


Em pé: Castigliano, Rigamonti, Mazzola, Ossola, Loik, Menti, Bacigalupo.
Agachados: Grezar, Gabetto, Maroso, Ballarin


Time: Torino

Período: 1942-1949

Time Base: Bacigalupo; Ballarin, Maroso; Grezar, Rigamonti, Castigliano; Loik, Mazzola; Menti, Gabetto, Ossola. Técs.: András Kuttik, Luigi Ferrero, Mario Sperone, Roberto Copernico, Leslie Lievesley e Ernest Erbstein.

Conquistas: Pentacampeonato Italiano e uma Coppa Itália.

“Os heróis permanecem imortais nos olhos dos que acreditam neles. E assim as crianças acreditarão que o Torino não morreu: só está ausente,” essas foram as palavras do jornalista e historiador italiano Indro Montanelli no dia 6 de maio de 1949, um dos dias mais tristes da história da Itália e, sobretudo, do futebol.

Dois dias após um funesto acidente, o elenco daquele que poderia ter sido o maior time italiano da história – e certamente é um dos maiores – foi homenageado em um dos funerais mais comoventes de todos os tempos. Contando com a presença de mais de 500.000 pessoas, que saíram em procissão, as homenagens ao Grande Torino foram prestadas e resumem-se nos dizeres de uma placa e nos milhares de flores e lágrimas presentes: “Torino Football Club, em memória de seus camaradas, à glória do esporte italiano e de todos os que morreram em um desastre aéreo trágico – 4 de maio de 1949.”

Virtual pentacampeão italiano, com o registro impressionante de 483 gols marcados e 165 sofridos em cinco temporadas, o Torino decidiu participar de um evento em homenagem a Francisco Ferreira, histórico jogador do Benfica e, diz-se, amigo de Valentino Mazzola, o grande craque do esquadrão italiano, e admirado pelo presente Granate, Ferruccio Novo.

E foi na volta de Lisboa que o sinistro ocorreu. Voando em baixa altitude em função do mau tempo, o piloto do avião que levava os craques de volta a Turim não conseguiu evitar o choque da aeronave com os muros da Basílica de Superga, localizada na colina Superga. Havia 31 pessoas no avião, foram 31 mortos.


Morria ali um esquadrão revolucionário e um dos motivos de orgulho do povo italiano como um todo. Um time que, em certa ocasião, goleou a Roma por 7x0 fora de seus domínios e, ao invés de hostilidades, conseguiu uma enorme saudação da torcida adversária, que, de pé, aplaudiu o futebol dos rivais e que, além disso, quase conseguiu ver todos os seus jogadores com a Seleção italiana. Em 1947, em amistoso contra a Hungria, o treinador italiano Vittorio Pozzo alinhou 10 jogadores do escrete Granate, deixando apenas o goleiro Valerio Bacigalupo (foto) de fora para evitar lançar uma equipe de atletas de um time apenas.

A nefasta curiosidade sobre a viagem à Lisboa é que ela só aconteceu em função da enorme qualidade técnica do Torino, que havia empatado com a Internazionale e, com o resultado, assegurado o título italiano com quatro rodadas de antecipação. Caso o encontro tivesse sido desfavorável à equipe de Turim, a mesma não teria viajado para enfrentar o Benfica.


Estes são apenas alguns feitos do primeiro grande esquadrão do futebol mundial pós-guerra. Campeão Italiano na temporada 1942-1943, conseguiu manter-se em alta nos dois anos seguintes, quando, em função da Segunda Guerra Mundial, o torneio foi suspenso, levantando outros quatro troféus nos anos que se seguiram.

Avançado para seu tempo, o time é comparado aos grandes que praticaram aquilo que mais tarde ficaria conhecido como Futebol Total – sobretudo o grande escrete húngaro da década de 50 e o holandês dos anos 70 – fazendo uso do famigerado esquema WM (idealizado por Herbert Chapman, treinador do Arsenal nos anos 30), que traduzia-se em um esquema tático semelhante à um 2-3-5 – ou 3-2-5 – , com dois zagueiros, dois meio-laterais, um centromédio, dois meia-atacantes, dois pontas e um centroavante. Entretanto, a tática só funcionava em função da enorme dedicação dos atletas, que tinham que atentar para a recomposição defensiva.

E a fusão de inteligência tática com enorme qualidade técnica foi a responsável maior pelos resultados do time. O curioso é que, durante a importante década de 40, o time teve muitos treinadores, o que, em momento algum, diminuiu o desempenho da equipe.

No gol, o time contou com a proteção do arqueiro Bacigalupo, que fez quase 150 jogos pelo time e frequentou a Seleção Italiana; na defesa contou com Aldo Ballarin e Virgilio Maroso, ambos com mais de 100 jogos pelo escrete; o meio-campo tinha as presenças de Mario Rigamonti, que era o principal responsável por dar um maior suporte aos dois zagueiros, e de Giuseppe Grezar e Eusebio Castigliano, os construtores do jogo; o ataque tinha as presenças dos velozes pontas Franco Ossola – pela esquerda – e Romeo Menti – pela direita – e do centroavante Guglielmo Gabetto, um dos mais prolíficos da história do futebol italiano. Por trás desse trio, Ezio Loik e Valentino Mazzola davam vida à criação de Grezar e Castigliano.

Considerado um dos maiores jogadores da história do futebol italiano (senão o maior) e mundial, Valentino Mazzola (foto) era o capitão e grande referência dos Granate. Muita visão de jogo, habilidade, e uma capacidade de finalização assombrosa, o colocam no pedestal dos mitos. Típico meia-atacante, foi descrito por Rigamonti, seu companheiro, como “meio-time”: Ele sozinho é meio time. A outra metade é feita pela junção do resto de nós,” disse o centromédio.

Mazzola também é lembrado como o pai de outro jogador de grande importância no futebol italiano, Sandro Mazzola, craque da Internazionale nas décadas de 60 e 70 e da Seleção Italiana, a qual defendeu mais de 70 vezes, e também por ter sido a inspiração para o apelido de José João Altafini, o Mazzola brasileiro, ídolo do Palmeiras e que participou da primeira conquista mundial da Seleção Brasileira. Outra curiosidade sobre o craque é sua fama de “arregaçar as mangas” quando a equipe não vivia um bom momento no campo, em sinal de dedicação.

É importante dizer, ainda, que como toda história trágica sempre conta com alguns personagens safos, dois jogadores, por sorte, ficaram de fora da excursão à Lisboa e não estavam no acidente. Sauro Tomà tinha, além de uma lesão no joelho, que acompanhar sua esposa, que estava às vésperas de parir o primeiro filho do casal, e Luigi Giuliano que era um membro recém saído das categorias de base da equipe e não conseguiu o passaporte antes da viagem.

Outro caso importante de ser lembrado é o do craque húngaro Lászlo Kubala, que havia sido convidado pelo Torino para representar o time no amistoso, havia aceitado, mas não viajou em função de uma doença contraída por seu filho.

Desde a Tragédia de Superga o Torino voltou a conquistar o Campeonato Italiano em 1976, mas nunca foi o mesmo, tendo como realidade uma senda irregular de descensos e acessos.

* Devido à dificuldade em reunir dados da época, este post não contará com registros e fichas técnicas de partidas da época.

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