quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Deeney e Ighalo: dupla de ataque à moda antiga

Não faz muito tempo. Tanto no Brasil quanto no exterior, era comum que as equipes tivessem uma dupla de jogadores no comando do ataque. Torcedores brasileiros se lembrarão de Paulo Nunes e Jardel, Edmundo e Evair e Marques e Guilherme, por exemplo. No exterior, é fácil trazer à memória Rivaldo e Patrick Kluivert, Andriy Shevchenko e Filippo Inzaghi ou Michael Owen e Robbie Fowler. No entanto, mudanças táticas quase generalizadas, com a ascensão do esquema 4-2-3-1, diminuíram essa ocorrência de maneira drástica. Contra a corrente, um surpreendente Watford tem seu futebol feito por, e para, sua dupla, formada pelo inglês Troy Deeney e o nigeriano Odion Ighalo.



Na Premier League, os Hornets têm 27 gols marcados no total. Destes, 14 foram de responsabilidade de Ighalo e seis de Deeney. Juntos, inglês e nigeriano são responsáveis por 74% dos gols de um Watford que chegou à Premier League apenas pela terceira vez em sua história, o nono turno em que disputa a divisão de elite da Inglaterra.

O mais interessante é que este desempenho não pode ser creditado a uma mera boa fase, uma vez que na temporada 2014-2015 a dupla já havia feito barulho na disputa da Championship. Na campanha do acesso, Ighalo foi às redes 20 vezes, enquanto Deeney (foto) anotou 21 tentos, demonstrando que a grande sintonia da dupla não é novidade. Aliás, na referida temporada, o Watford marcou representativos 91 gols na competição.

Outro ponto de interesse é que mesmo com o grande investimento feito para a atual temporada – o Watford gastou cerca de £62 milhões –, com a contratação de jogadores afamados como Étienne Capoué, José Manuel Jurado e Valon Behrami, na primeira janela, e Nordin Amrabat e Mario Suárez, na segunda, a dupla segue tendo o maior destaque no time. O único jogador que tem feito atuações do nível deles é o goleiro Gomes.

Deeney é um atacante com características extremamente úteis ao futebol atual. Embora sua aparência física denuncie a presença de um centroavante de área, cujo único ofício é balançar as redes, seu desempenho na presente temporada mostra um jogador totalmente diferente. O inglês tem mobilidade e vem mostrando grande capacidade para ajudar seus companheiros. Sua qualidade para reter a bola no ataque – atuando como pivô e criando ocasiões para os outros jogadores – é fundamental para as pretensões do Watford e também uma das chaves para o bom desempenho de Ighalo.

Por sua vez, apesar da estatura (1,88m), o nigeriano é veloz, tem grande movimentação e boa habilidade. Seu estilo de jogo alcançou nível altíssimo muito em função da aptidão de Deeney de se doar e atuar em prol do coletivo. Embora passe mais tempo na área do que Ighalo (foto), o inglês muitas vezes cria espaços para seu parceiro de ataque. Até a última rodada, em que o Watford enfrentou o Chelsea, Deeney tinha criado 30 ocasiões de gols, 26 delas para Ighalo, que vem aproveitando-as com impressionante eficiência.

“A confiança desses jogadores é excelente. Eles estão completamente confiantes em si mesmos”, disse o treinador Quique Flores em entrevista ao Guardian, em janeiro último.

A dupla é, ao lado de Gomes, a chave do sucesso do time. Via de regra, os Hornets vêm jogando com uma linha de quatro na defesa, com um lateral-direito ofensivo, ou Juan Carlos Paredes ou Allan Nyon, e um lateral-esquerdo defensivo – Nathan Aké, defensor polivalente emprestado pelo Chelsea. Em seu meio-campo há uma estrutura muito firme. Dos quatro jogadores que ocupam a faixa central, três têm tarefas diretamente ligadas à marcação e apenas um tem mais liberdade para criar, em geral Jurado.

Tudo isso tem apenas uma finalidade: permitir que Ighalo e Deeney tenham liberdade para decidir partidas para o clube. Este é o grande mérito do treinador Quique Flores (foto, à direita): explorar o que os Hornets têm de melhor.

Na retaguarda, Gomes (foto, à esquerda) segura as pontas e no meio a preocupação maior é neutralizar os ataques adversários. Assim, os parceiros de frente podem preocupar-se exclusivamente com a necessidade de marcar gols, o que não exclui seu importante papel tático, revelado na pressão à saída de bola dos adversários.

Como era usual em um passado não tão distante, o Watford opera com dois atacantes, dois grandes símbolos de uma campanha que começou cercada de palpites negativos, com especulações ligadas ao rebaixamento, e que até o momento vem sendo muito boa, tanto com a colocação na tabela quanto com o bom futebol jogado. 

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