sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Seleções de que Gostamos: Holanda 1974

Após lembrar a equipe da Dinamarca que, de seleção que não se classificou a disputa da Euro 1992 chegou ao título, falo de uma das mais revolucionárias equipes que o futebol mundial conheceu, a Laranja Mecânica: a Holanda de 1974.


Em pé: Jongbloed; Rijsbergen, Haan, Neeskens, Krol, Suurbier;
Agachados: Rep, Cruyff, Rensenbrink, Jansen, van Hanegen. 


Time: Holanda

Período: 1974

Time base: Jongbloed; Suurbier, Haan, Rijsbergen, Krol; van Hanegen, Jansen, Neeskens; Rep, Cruyff e Rensenbrink. Téc.: Rinus Michels

Conquistas: Nada

O começo dos anos 70 foi extremamente promissor para o futebol holandês. Tetracampeão europeu (com um título do Feyenoord e outros três do Ajax), o outrora obscuro futebol dos Países Baixos já dava mostras nas competições de clubes do que viria a se seguir, com jogadores leves, versáteis, inteligentes e dotados de movimentação intensa e incomum. Ali, o afamado Futebol Total (Totaalvoetbal) tomava corpo e se preparava para viver seu ápice na Copa do Mundo de 1974.

Nesse contexto, é impossível não mencionar a importância de Rinus Michels. Ex-jogador e treinador do Ajax, é visto até hoje como a peça que operacionalizou o espetáculo e criou o Carrossel Holandês, unindo craques de equipes rivais e de estilos distintos. Não à toa, chegou a receber o prêmio da FIFA de Treinador do Século XX, inspirando gerações vitoriosas e, mormente, tendo papel importantíssimo na evolução da identidade do Barcelona, tanto por ter treinado o clube catalão quanto por ter sido um dos mentores de Johan Cruyff, ícone Culé que, posteriormente, também foi uma das inspirações de Pep Guardiola.

Essencialmente, a equipe holandesa foi primaz na arte de confundir os adversários, que possuíam sempre muitas dificuldades para marcar os neerlandeses. Trocas de posições constantes e a presença de gênios táticos – dentre eles o maior foi Johan Cruyff, que exercia função semelhante ao que conhecemos como falso 9 – colocaram a equipe no rol das maiores de todos os tempos, mesmo sem a conquista de nenhum título; Algo semelhante ao que ocorreu com a Hungria, em 1954.

Nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1974, a Holanda foi líder do Grupo 3, mas não teve vida fácil. Compartindo-o com a vizinha Bélgica e com as escandinavas Noruega e Islândia, somou 10 pontos, com quatro vitórias e dois empates. Mesmo recorde conseguiram os belgas. Contudo, com uma força de ataque avassaladora, a Oranje anotou 24 tentos nas partidas, o dobro dos belgas, e garantiu seu passaporte para a Alemanha.

Assim, chegou ao Grupo 3 da Copa do Mundo de 1974, que dividiu com Suécia, Bulgária e Uruguai. Começaram, então, as batalhas. Primeiro, a Holanda superou um envelhecido e bruto time uruguaio; a seguir não conseguiu se sobrepor aos suecos, que jogaram de igual para igual e criaram muitas oportunidades, nada que tenha conseguido tirar o zero do placar; e, ao final, destruiu a equipe búlgara, com uma substancial vitória por 4x1.

Na fase seguinte, enfrentou novo grupo e fez o melhor jogo de sua trajetória. Na primeira partida do Grupo A, atropelou a Argentina, que não viu a cor da bola: 4x0 com requintes de crueldade. Na sequência, vitimou a Alemanha Oriental, 2x0, e chegou à partida final, contra o Brasil, podendo se dar ao luxo de empatar. Ao final, ganhou de uma Canarinho envelhecida e que já não vivia o bom momento de quatro anos atrás, novo 2x0.

A despeito disso, teve a poderosa Alemanha pela frente na final e não conseguiu alcançar o posto mais alto do pódio. Se a Holanda tinha Johan Cruyff, Ruud Krol, Rob Rensenbrink e Johan Neeskens, a Alemanha possuía Franz Beckenbauer, Paul Breitner, Uli Hoeneβ e Gerd Müller. Dois grandes esquadrões. 
No entanto, o maior jogador da história holandesa foi mal na final. Embora tenha conseguido sofrer um pênalti que deu a vantagem à Oranje no primeiro momento, foi implacavelmente marcado por Berti Vogts e viu a Alemanha virar o jogo e conquistar o bicampeonato mundial. A Copa de 1974 eternizou o campeão e capitão germânico Franz Beckenbauer, mas será sempre lembrada pelo encanto do Carrossel Holandês, que inventou nova forma de se jogar futebol.

No gol, os holandeses tinham um jogador experiente, mas que não vinha fazendo parte do time titular. Aos 33 anos, Jan Jongbloed (foto), então arqueiro do FC Amsterdam, foi o responsável pela defesa da meta laranja e não comprometeu. Na primeira fase da competição concedeu apenas um tento, na segunda nenhum. Na final sofreu dois, mas nada poderia fazer para evitar o triste desfecho imposto a sua nação. Jongbloed não possuía nenhum grande atributo, mas não comprometia. Isso, em uma equipe como a Laranja Mecânica, era suficiente. Ao todo, entre 1962 e 1978, disputou 24 partidas pela Holanda.

Com a cativante irresponsabilidade comum a alguns jogadores talentosos, pela lateral direita, Wim Suurbier era uma das principais válvulas de escape da equipe. Ponta direita em sua formação, o ala era veloz, habilidoso e gostava de ir à frente. Como a equipe possuía um entendimento tático muito eficiente, seu setor nunca ficava desguarnecido, quando era preciso defender. 

Pela esquerda, a situação era semelhante. Com Ruud Krol (foto), defensor na melhor acepção da palavra (podia fazer qualquer função no setor como se lhe fosse natural), a esquerda era alternativa de ataque e se destacava também na defesa, sobretudo quando a linha de impedimento era posta em prática, movimento cujo efeito o jornalista Mauro Beting descreveu, no livro "As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos": "comprimia o gramado, e oprimia o adversário". Krol foi uma das referências holandesas e logo passou a envergar a tarja de capitão de seu país.

A composição da defesa foi um dos grandes fatores que proporcionou o sucesso de todo o coletivo. Volante em sua origem e um dos pilares do Ajax, Arie Hann tinha categoria e saía jogando muito bem, o que derivava de sua capacidade para ler o jogo. Talvez por isso entendesse tão bem o funcionamento de todo o sistema holandês. Seu companheiro era Wim Rijsbergen, esse sim um beque mais afeito ao trabalho sujo e tecnicamente mais limitado. No entanto, esse conjunto de características foi determinante, pois equilibrava o setor e evitava que ele ficasse desguarnecido.

O meio-campo possuía um trio de peças capaz de exercer todas as funções do setor. Vindo do Feyenoord, Wim Jansen era o mais apto ao desarme e à marcação, o que não quer dizer que não tivesse qualidade para avançar: todos tinham. Próximo a si, jogou Willem van Hanegen, seu parceiro de equipe e outra mente taticamente brilhante. Ambos sabiam quando acelerar e desacelerar o jogo, seu compasso, e ajudavam o melhor dos meias a brilhar. O meio-campo acabou sendo o setor que melhor demonstrou que a união dos estilos do Feyenoord, mais tático e pragmático, com o do Ajax, com maior abertura à criatividade, era o caminho para o sucesso holandês.

Um pouco mais avançado, atuou aquele que foi o artilheiro da Holanda na Copa do Mundo de 1974, com cinco gols: Johan Neeskens (foto). Definido como meio-campista pela mera necessidade de definição, fazia de tudo. Atacava, defendia, desarmava, passava bem a bola, movimentava-se com intensidade e chegou a atuar em praticamente todas as posições de linha possíveis. Elegante, inteligente e técnico, era outra referência fundamental ao time, seu maestro, e possuía muito entendimento com Cruyff. 

Pelo lado direito do ataque, Johnny Rep se mostrou um dos jogadores mais decisivos do time. Veloz e oportunista, marcou quatro tentos no Mundial, tendo sido também muito importante na parceria com Suurbier pelo flanco, trazendo entrosamento do Ajax. Pelo outro flanco havia mais brilhantismo e esse respondia pelo nome de Rob Rensenbrink (foto), então atleta do Anderlecht, da Bélgica. Dotado de incrível habilidade, driblador infernal e criativo, era um jogador extremamente adaptado às necessidades do time.

Mais adiantado, ao menos em teoria, estava o maior craque da companhia holandesa: Cruyff (foto, à esquerda). Dono de extrema técnica, liderança (era o capitão), e, sobretudo, compreensão impressionante dos espaços do campo, atuava no ataque, mas era visto por todo lado. O camisa 14 recuava para construir jogadas, caía pelos flancos e aparecia na grande área dos adversários para marcar gols. Era simplesmente fantástico, muito inteligente e de manejo fácil da bola, um verdadeiro gênio.

Como dito, comandando esse esquadrão estava a figura de Rinus Michels (foto, à direita), que inventou novos conceitos táticos e posicionamentos para jogadores de muita qualidade, fazendo com que estes, acostumados ao clima hostil que viviam quando se enfrentavam na condição de rivais (com Feyenoord e Ajax), se entendessem e ajudassem em campo, alcançando um nível de sintonia raras vezes visto no futebol mundial.



Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Primeira fase da Copa do Mundo de 1974 – Grupo 3: Uruguai 0x2 Holanda

Estádio Niedersachsenstadion, Hanover

Árbitro: Károly Palotai

Público 53.700

Gols: ’16 e ’86 Rep (Holanda)

Uruguai: Mazurkiewicz; Forlán, Jáuregui, Masnik, Pavoni; Pedro Rocha, Mantegazza, J. M. Castillo, Espárrago; Cubilla (Milar) e Morena. Téc.: Roberto Porta

Holanda: Jongbloed; Suurbier, Haan, Rijsbergen, Krol; van Hanegen, Jansen, Neeskens; Rep, Cruyff e Rensenbrink. Téc.: Rinus Michels

Segunda fase da Copa do Mundo de 1974: Holanda 4x0 Argentina

Estádio Parkstadion, Gelsenkirchen

Árbitro: Bob Davidson

Público 55.348

Gols: ’10 e ’90 Cruyff, ’25 Krol e ’73 Rep (Holanda)

Holanda: Jongbloed; Suurbier  (Israel), Haan, Rijsbergen, Krol; van Hanegen, Jansen, Neeskens; Rep, Cruyff e Rensenbrink. Téc.: Rinus Michels

Argentina: Carnevali; Wolff (Glaría), Perfumo, Heredia, Sá; Squeo, Telch; Balbuena, Ayala, Yazalde, Houseman (Kempes). Téc.: Vladislao Cap 

Segunda fase da Copa do Mundo de 1974 – Grupo A: Holanda 2x0 Brasil

Estádio Westfalenstadion, Dortmund

Árbitro: Kurt Tschenscher

Público 52.500

Gols: ’50 Neeskens e ’65 Cruyff (Holanda)

Holanda: Jongbloed; Suurbier, Haan, Rijsbergen, Krol; van Hanegen, Jansen, Neeskens (Israel); Rep, Cruyff e Rensenbrink (de Jong). Téc.: Rinus Michels

Brasil: Emerson Leão; Zé Maria, Luis Pereira, Marinho Peres, Marinho Chagas; Carpegiani, Rivelino, Paulo César Caju (Mirandinha); Dirceu, Jairzinho e Valdomiro. Téc.: Zagallo 

Final da Copa do Mundo de 1974: Holanda 1x2 Alemanha

Estádio Olímpico, Munique

Árbitro: Jack Taylor

Público 75.200

Gols: ‘2 Neeskens (Holanda); ’25 Breitner e ’43 Müller (Alemanha)

Holanda: Jongbloed; Suurbier, Haan, Rijsbergen (de Jong), Krol; van Hanegen, Jansen, Neeskens; Rep, Cruyff e Rensenbrink (de Kerkhof). Téc.: Rinus Michels

Alemanha: Maier; Vogts, Schwarzenbeck, Beckenbauer, Breitner; Overath, Bonhof, Hoeneβ; Grabowski, Müller e Hölzenbein. Téc.: Helmut Schön

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