segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A reconstrução de um gigante na França

Em mais de 60 anos de história, a famosa taça da UEFA Champions League somente chegou às mãos de um clube francês e em apenas uma ocasião. A despeito da polêmica que conduziria à impossibilidade de disputa do Intercontinental e ao rebaixamento em solo nacional, o Olympique de Marselha conseguiu na temporada 1992/93 o inédito. No entanto, nos últimos anos, o time, que é o segundo maior vencedor da Ligue 1, viu-se subjugado pelas ascensões de Lyon e PSG, só tendo conquistado um título francês no presente século. Após mais uma temporada decepcionante em 2015/16, tenta se reerguer.



A temporada pós-Bielsa

A última vez que os marselheses puderam soltar o grito de campeão nacional ocorreu na já distante temporada 2009-10. Desde então, viram os “azarões” Lille e Montpellier conquistarem o troféu mais importante do país e pior: foram espectadores passivos da arrasadora ascensão de um endinheirado PSG. O segundo lugar obtido em 2012/13 pode até dar a impressão de que o time esteve perto da conquista, mas os 12 pontos de desvantagem em relação ao rival parisiense são suficientes para desmistificar a questão.

Na temporada seguinte, a sexta colocação (29 pontos atrás do líder e fora da zona de classificação para qualquer competição europeia) indicou a necessidade de mudança e o clube foi arrojado. Para comandar um time com nomes promissores e até selecionáveis, chegou Marcelo Bielsa (foto), credenciado por um trabalho brilhante à frente do Athletic Bilbao.

Em um primeiro momento, o time que possuía como grandes destaques o goleiro Steve Mandanda, os talentosos meias Dmitri Payet e André Ayew e o centroavante André-Pierre Gignac – além de jovens promessas como Michy Batshuayi, Gianni Imbula e Florian Thauvin –, começou muito bem.

Nas primeiras 10 partidas da competição, o recorde foi animador: oito vitórias, um empate e uma derrota. Todavia, vieram os desgastes do treinador com alguns atletas e duas fases crucialmente ruins, com uma sequência de empates em meados da competição e outra de derrotas ao final. A quarta posição foi decepcionante e Bielsa não permaneceu no comando dos Phocéens. Não havia mais clima.

A aposta seguinte foi na figura do espanhol Míchel, que vinha de sucessivos e representativos sucessos no Olympiacos. Na Grécia, havia sido tricampeão nacional com números respeitáveis: em 90 partidas, acumulou 64 vitórias e 11 empates, perdendo apenas 15 encontros. Sua sorte, contudo, não foi encontrada no sul da França.

Detentor da incumbência de conduzir um time que perdera Payet, Thauvin, Imbula, Ayew e Gignac, tendo recebido como contratações importantes o meia argentino Lucas Ocampos, os zagueiros Karim Rekik e Rolando, o polivalente chileno Mauricio Isla, o bom volante Lass Diarra, o brasileiro Lucas Silva e o habilidoso Rémy Cabella, o treinador não conseguiu coordenar a equipe; o time chegou a flertar com a zona de rebaixamento e novamente foi noticiada a presença de problemas entre comandante e comandados.

A pressão foi grande e se tornou insustentável em algum momento, o que culminou com a saída do treinador e o ingresso do interino Franck Passi. Míchel terminou sua passagem com 46 jogos disputados, 17 vitórias, 17 empates e 12 derrotas. Pouco, muito pouco para um time da magnitude do Olympique.

Nova direção

Veio a temporada 2016-17 e com ela mudanças significativas na esfera administrativa do clube. Os investimentos para a temporada foram poucos, mas não foram o assunto que mais rendeu comentários nos últimos meses. Nem mesmo as saídas de importantes jogadores, casos de Batshuayi, Benjamin Mendy e Mandanda, foram capazes de causar tanto impacto quanto a venda do clube.

“Hoje, um novo capítulo é aberto na grande história do Olympique de Marselha (...) Vamos colocar o clube de volta no caminho das glórias”.

Essas foram algumas das palavras do empresário norte-americano Frank McCourt (foto) durante a entrevista coletiva em que anunciou a compra do clube, por €45 milhões. Além disso, o milionário fez a promessa de investimento de €200 milhões na equipe, para as próximas quatro temporadas.

O cenário de mudanças continuou sendo desenhado e o clube fez movimentos importantes nos últimos tempos.

Aposta em Rudi García

Apontado como um dos grandes responsáveis pelo título do Lille em 2010-11, o treinador Rudi García (foto) ganhou muito respeito no mundo do futebol recentemente. Desde a temporada em que levou Eden Hazard, Gervinho, Yohan Cabaye e cia à conquista da Ligue 1, o comandante passou a ser reconhecido por sua capacidade como organizador de equipes capazes de desenvolver um jogo rico em possibilidades e de veia notoriamente ofensiva. Foi assim no Lille e, na sequência, na Roma, equipe em que teve o azar de concorrer com uma Juventus que se confirmaria hegemônica.

Essas são as credenciais do escolhido para conduzir esportivamente o renascimento do Olympique de Marselha. Curiosamente, é contra outra esquadra hegemônica, o PSG, que García terá que se desdobrar para alcançar o sucesso. Sua missão será dificílima. Há muitos cacos a serem juntados.

“Suas habilidades como líder foram reconhecidas em algumas ocasiões: quando conduziu o Lille ao título da Ligue 1 e ao da Copa da França em 2010-11; quando levou a Roma a desempenhar papel importante no cenário internacional em suas duas primeiras temporadas como o clube; ou quando venceu o prêmio de treinador francês do ano em 2011, 2013 e 2014”, disse McCourt sobre o treinador.

Há talento a ser explorado no elenco do OM e García, de fato, aparece como uma alternativa bem estudada para a missão que enfrentará. Tendo hoje no capitão Lass Diarra seu jogador mais confiável (figura semelhante à de Rio Mavuba em seu tempo de Lille), o comandante terá a missão de extrair o máximo de peças como Cabella e Thauvin, além do centroavante Bafetimbi Gomis, a maior referência ofensiva do time.

Outras figuras que poderão se beneficiar da chegada do francês são os jovens zagueiros Rekik e Dória, que não foram baratos e ainda hoje não justificam o investimento feito. Rudi García é conhecido por trabalhar bem com jogadores de pouca idade. É esperada, igualmente, alguma movimentação do time no próximo mercado de transferências, no inverno europeu.

A responsabilidade de Zubizarreta

Além de García, outro nome pinçado a dedo para conduzir o Olympique ao renascimento foi o do basco Andoni Zubizarreta (foto), contratado para o cargo de diretor esportivo do clube.

Aos 55 anos, o ex-goleiro da Seleção Espanhola acumula a experiência de ter exercido tal função no Athletic Bilbao, entre 2001 e 2004, e no Barcelona, no interregno entre 2010 e 2015. O diretor terá a responsabilidade de prover a Rudi García a munição necessária para que o clube possa retomar os anos de glórias.

"O Olympique tem um grande coração, uma grande alma futebolística, da mesma forma que o Athletic Bilbao e o Barcelona. Em Marselha, há uma grande paixão nos torcedores. É uma grande oportunidade para mim", disse Zubi, em sua apresentação.

É evidente o fato de que o Olympique de Marselha está tentando se recolocar no topo do futebol francês. No entanto, a chegada de Zubizarreta é uma aposta. Vale lembrar que ao basco foi atribuída responsabilidade pelas fracassadas contratações de Douglas e Thomas Vermaelen pelo Barça e por outras falhas no planejamento do elenco catalão.

Além disso, quem garante que, verdadeiramente, será feito o investimento prometido pelo novo proprietário da agremiação?

Entretanto, como no futebol não há negócio que não envolva risco, as mudanças por que vem passando o clube francês podem ser vistas com bons olhos, para além de serem inevitáveis, no sentido de evitar um apequenamento ainda maior da esquadra marselhesa. Certo mesmo é o fato de que os próximos capítulos da rica história do clube prometem ser interessantes.

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