quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O sólido Villarreal de Escribá

Mais de 10 anos já transcorreram desde a famosa temporada 2005/06, em que o Villarreal por muito pouco não chegou à final da UEFA Champions League. É fácil vislumbrar naquele time, treinado por Manuel Pellegrini e que contava com as brilhantes estrelas de Juan Roman Riquelme e Diego Forlán, o melhor elenco de todos os tempos do Submarino Amarillo. Ainda distante do brilhantismo dessa campanha, contudo fazendo papel excelente, o time atual do Villarreal é até o momento terceiro colocado no Campeonato Espanhol e mostra impressionante solidez. 



Melhor defesa de La Liga

Com 11 rodadas disputadas, o Villarreal é o time menos vazado do Campeonato Espanhol. Este é um feito imenso, sobretudo considerando que um de seus adversários é o Atlético de Madrid de Diego Simeone, verdadeiro especialista em montar defesas capazes de sofrer poucos gols. Em onze partidas, o clube treinado por Fran Escribá só buscou sete bolas em suas próprias redes. Aliás, o time também só foi derrotado em uma ocasião, superiorizando-se nesse quesito até mesmo ao poderosíssimo Barcelona.

Boa parte disso se justifica pelo fato de o argentino Mateo Musacchio (foto) ter se recuperado das lesões que interromperam sua evolução nas últimas duas temporadas. O beque tem mostrado sua importância em grande medida na saída de bola, dando tranquilidade à retaguarda e ajudando no desenvolvimento de Victor Ruíz, outro jogador que teve início de carreira prometedor, mas não vinha conseguindo mostrar seu potencial máximo. Enquanto o primeiro é mais calmo, o segundo se mostra mais voluntarioso. 

Vale mencionar, que, segundo o Squawka, nenhum dos dois cometeu um erro defensivo sequer neste início de temporada. A relevância e o impacto de tal estatística é facilmente verificável. Em 2015/16, Victor Ruiz foi o jogador que mais erros defensivos cometeu em todo o Campeonato Espanhol, com oito. A diferença é clara. Por mais que Eric Bailly, vendido ao Manchester United, tenha feito papel de grande qualidade na defesa amarela na temporada mencionada, Ruiz só reencontrou melhor equilíbrio ao lado de Musacchio.

Importante prova da eficácia do sistema defensivo do time é o fato de que seu goleiro, o espanhol Sergio Asenjo, é apenas o 15º a efetuar maior número de defesas no Espanhol e mesmo assim o Villarreal é a equipe menos vazada. É interessante dizer também que a força defensiva do time, evidentemente, não tem a ver somente com o contributo dos zagueiros, mas também de laterais (o selecionável Mario Gaspar pela direita e Jaume Costa pela esquerda), a despeito de sua veia ofensiva, e dos meio-campistas.

Equilíbrio no meio-campo

Outro ponto fundamental para o atual sucesso do Submarino Amarelo é o desempenho de seus volantes e a assistência defensiva prestada por seus meias. Nesse sentido, a principal referência tem nome e sobrenome: Bruno Soriano (foto). 

Experiente volante, aos 32 anos o jogador segue vivendo bom momento. Capitão do único time que defendeu e com passagem pela Seleção Espanhola, o canhoto é vital para o time. Os 65% de aproveitamento nos desarmes chamam atenção, assim como o baixo número de faltas cometidas, apenas três. Isso tudo é resultado de uma marcação pressionada, que diminui o trabalho dos zagueiros e dificulta a saída de jogo dos adversários.

Seu parceiro nessa missão tem sido Manu Trigueros, outro jogador muito sólido e confiável. Seus números também são representativos: 46% de êxito nos desarmes e 67% nas recuperações de bola. É também importante mencionar que tanto Bruno quanto Trigueros são excelentes passadores; enquanto o primeiro tem 90% de aproveitamento no fundamento, o segundo possui 89%. 

Aliás, também é útil dizer que o time é o que menos cartões recebeu na competição, com apenas 16.

No entanto, apesar da ótima forma dos volantes, todo seu esforço seria vão, não fosse a vital contribuição do italiano Roberto Soriano, que, originalmente meia central, vem se adaptando a trabalhar pelo lado esquerdo, e de Samu Castillejo, talentoso e jovem meia de veia extremamente ofensiva que vem atuando pelo lado direito. 

Os dois são os jogadores que mais criaram ocasiões de gol para a equipe até o momento, com 11 e 14 passes, respectivamente. É curioso perceber também que Soriano e Samu são os jogadores mais faltosos da equipe (22 infrações cometidas pelo primeiro e 17 pelo segundo), o que adiciona à análise de seus desempenhos um dado importantíssimo: ambos são úteis ofensiva e defensivamente.

“Temos uma boa equipe e um bom elenco, mas, acima de tudo, um time que trabalha muito bem. Os jogadores são muito solidários. Demonstramos que se não damos nosso 100% não somos tão bons, mas o demos e a partir do segundo tempo estivemos muito bem. Demos tudo e por isso ganhamos”, disse o treinador Fran Escribá em entrevista coletiva após a vitória do Villarreal contra o Las Palmas

Há mais uma questão fundamental para o acerto coletivo do time: ter talento não vale um lugar na equipe. A constante reserva de jogadores como Jonathan dos Santos e Denis Cheryshev vem confirmar essa afirmação. Ninguém duvida do potencial técnico dos jogadores, entretanto, para o time, como um todo, não basta apenas ter talento. É preciso ter comprometimento máximo com a causa.

Fartura de opções de ataque

A despeito da qualidade do trabalho coletivo exercido por defensores e meio-campistas, todo o seu trabalho seria consideravelmente pior aproveitado não fosse a presença de bons atacantes de variadas características no comando do setor. O time é apenas o 16º colocado da liga quando o assunto é a criação de oportunidades e, por isso, precisa aproveitar as ocasiões que consegue gerar da melhor forma possível.

Para tanto, conta com uma comissão de frente respeitável. Fazendo uso de uma dupla de ataque, o que é cada vez mais raro, o time tem em Cédric Bakambu seu atacante mais letal – sobretudo em tempos em que não tem disponível o lesionado Roberto Soldado –, mas conta com outras peças que vêm mostrando talento. 

Embora ainda não esteja em sua melhor forma, Alexandre Pato tem tido boas atuações, já tendo balançado as redes quatro vezes. Até aquele em quem possivelmente não se depositasse tanta expectativa, caso do italiano Nicola Sansone ex-Sassuolo (foto), vem revelando bom desempenho. O jogador é o artilheiro do time na temporada, com cinco tentos em 14 jogos.

Em suma, o time tem duas alternativas para o ofício de matador, Bakambu e Soldado (embora, como dito, este esteja lesionado), o primeiro mais móvel e o segundo mais apto a fazer o trabalho de pivô, e outros dois atletas com maior mobilidade para circular pelo setor de frente, Pato e Sansone. 

É evidente que o trabalho desempenhado por Fran Escribá à frente do Villarreal tem sido excelente, mas é preciso dar méritos a seu antecessor: Marcelino Toral. Tudo começou com ele. Hoje o time está mais acertado do que na temporada passada, mas é certo que nada disso teria sido possível sem seu trabalho. Vem daí mais um mérito para o atual comandante, que soube preservar o que de bom havia em El Madrigal. 

Hoje, ver o Submarino Amarillo em campo é ter a oportunidade de acompanhar um time coletivamente bem formatado e confiante, nada brilhante, mas sólido e consciente de suas possibilidades.

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