quarta-feira, 5 de abril de 2017

Porto: o melhor ataque é a defesa

Lá se vão três anos de jejum de títulos portugueses para o Porto. Desde a temporada 2012/13, em que, miraculosamente, o brasileiro Kelvin anotou um tento no apagar das luzes em clássico contra o Benfica, assegurando vantagem ao fim do torneio, o clube não levanta o caneco nacional. Na atual campanha, os rivais mais uma vez protagonizam a ferrenha disputa pelo título e, embora os Dragões tenham o melhor ataque da competição, é a sólida defesa o grande trunfo Portista.



Hoje, com apenas 13 gols sofridos em 27 partidas, o Porto dá mostras de que mesmo quando o brilhantismo de outros tempos não está presente, é possível e viável a luta pelo título português. Se o time não conta mais com o talento de peças como James Rodríguez, Falcao García, João Moutinho ou Lucho González, a segurança de seus defensores faz com que os instáveis Jesús Corona, Yacine Brahimi, Otávio, Óliver Torres e Diogo Jota consigam ter boa prestação no setor de criação, municiando os prolíficos André Silva e Francisco Tiquinho Soares, mais à frente.

Ainda em sua primeira temporada de parceria, a dupla defensiva formada pelo espanhol Ivan Marcano e pelo brasileiro Felipe tem estado em ótima forma. Enquanto o primeiro tem média de 1,2 desarmes, 2,2 interceptações e 3,6 cortes por partida, o segundo tem números ainda melhores: seu promédio é de 1,9 desarmes, 2,3 interceptações e 4,6 cortes. Seguros no chão e também pelo ar, os beques estiveram ausentes em apenas uma partida do Campeonato Português na temporada, o que deixa ainda mais evidente sua importância para os Dragões.



Somente em uma ocasião, contra o Rio Ave, na 18ª rodada, o clube sofreu mais de um gol, detendo, ainda, o menor número de derrotas do certame – apenas uma para o Sporting CP, na 3ª rodada.

"Se eu faço uma abordagem errada a um lance o Marcano corrige-me e também acontece o contrário. É aceitável que assim seja e é bom para a equipa, já que temos de passar essa confiança para os colegas da frente", disse Felipe ao jornal Record, na última segunda-feira.

Pelas laterais há também bom desempenho. No lado direito, a experiência de Maxi Pereira tem tido grande valia, sendo o uruguaio o atleta do clube que mais desarmes faz por jogo, em média 2,5.

Já pelo lado esquerdo, o brasileiro Alex Telles (foto), que até teve má prestação no jogo de ida das oitavas de finais da UEFA Champions League, ocasião em que foi expulso contra a Juventus, também se destaca, sendo o jogador que mais interceptações por partida tenta: média de 2,7. Quanto ao lateral canhoto, é de se mencionar também seu contributo ofensivo, uma vez que o ex-jogador do Grêmio é o maior assistente do Porto no Campeonato Português, com sete passes para gols.

“Alex é um fenômeno. Tenho o acompanhado e ele está muito bem no Porto, feliz. É outro jogador que em pouco tempo estará na seleção brasileira, porque é muito bom jogador (...) não é o Roberto Carlos, mas é muito bom jogador”, falou o ex-lateral da Seleção Brasileira, Roberto Carlos, em entrevista concedida durante o evento Football Talks, em Estoril.

A despeito do ótimo desempenho da primeira linha de defesa do Porto, há ainda outro jogador fundamental para o bom andamento defensivo azul e branco: o volante Danilo Pereira (foto). Sempre postado à frente da retaguarda Portista, o imponente meio-campista (1,88m) tem sido sinônimo de segurança. Com 86,7% de aproveitamento habitual de passes vai muito bem na saída de bola da equipe, e, com média de 1,9 desarmes, 2,6 interceptações e 1,5 cortes por jogo, mostra-se um verdadeiro muro na contenção da equipe.

Leia também: André Silva, a aposta de ataque Portista

Sua forma é tão boa que o tem projetado na Seleção Portuguesa – foi titular no último amistoso – e gerado maciço interesse de outras equipes em seu futebol (Manchester United e Liverpool estariam acompanhando de perto o futebol do jogador). Apto a atuar também como zagueiro, Danilo se entendeu muito bem com Felipe e Marcano, que veem em seu camisa 22 um guardião.

É claro: no futebol números são importantes, mas em sua natureza nada exata, não há nada que seja absoluto na ciência da bola.

Para entender a importância dos zagueiros, laterais e do volante titular da equipe é preciso ver o Porto jogar. A maneira como Felipe e Marcano têm tranquilidade para jogar, uma vez que Danilo os protege e faz com que, muitas vezes seu trabalho já chegue parcialmente feito, e a forma como têm em Maxi Pereira e Alex Telles ótimas alternativas para sair jogando tem se mostrado singular. É por isso que o Porto sofre tão poucos gols: a proteção aos defesas é bem feita e a margem para a ocorrência de erros é pequena.



Quem mais agradece o bom desempenho da defesa construída pelo treinador Nuno Espírito Santo é o goleiro Iker Casillas. Após viver períodos de desconfiança e descrédito, o espanhol voltou a ser um jogador extremamente elogiado. O arqueiro já conseguiu a assombrosa marca de 16 partidas sem sofrer gols, tendo a impressionante média de apenas 0,48 gol sofrido por jogo. Nunca em sua carreira, havia conseguido um número de clean sheets tão expressivo em uma temporada.

E não é só porque está sempre bem protegido que o jogador ex-Real Madrid apresenta marcas tão sólidas. Exemplo claro se viu no último clássico contra o Benfica, ocasião em que Casillas esteve brilhante para parar o poderoso ataque formado por Jonas e Konstantinos Mitroglou; foram seis defesas importantes contra apenas duas de Ederson, o ótimo goleiro Encarnado.


É por esses motivos que, embora tenha o melhor ataque do Campeonato Português, o grande trunfo dos Dragões tem sido sua defesa. Mesmo na UEFA Champions League, não sofreu tantos gols – seis em oito partidas, sendo três deles nos encontros contra a poderosa Juventus.

Nuno Espírito Santo entendeu que se quisesse ser competitivo precisaria mostrar força desde a retaguarda. Seu ataque possui peças talentosas, mas demasiado instáveis e em quem não se pode depositar tantas responsabilidades. A estabilidade e maior experiência de sua esquadra estão atrás, provando que, no caso Portista, a busca pelo fim do jejum de títulos do Campeonato Português passa pela eficiência do ataque, mas é a segurança da defesa seu grande diferencial.

2 comentários :

  1. Qual a diferença entre corte e interceptação (do ponto de vista estatístico - pergunta feita por quem não sabe a resposta)?

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  2. Olá, amigo! O corte não implica a recuperação da bola, mas a simples neutralização da jogada adversária (o que explica o alto índice por parte dos zagueiros); já na interceptação, o jogador que recupera a bola mantém a posse. É como se fosse o desarme, mas no caso a bola está em jogo (e não como o rival) e quem a recupera o faz antes que o adversário a possua. Espero ter sido claro. Fique à vontade para perguntar o que quiser!

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