sexta-feira, 12 de maio de 2017

Inesperada e fundamental: a readaptação de Mario Mandzukic

No início da temporada atual, não eram muitos os que sugeriam a Juventus como favorita ao título do mais importante campeonato de clubes do futebol mundial. A Vecchia Signora sempre apareceu menos cotada do que equipes como Barcelona ou Bayern de Munique. A despeito disso, catalães e bávaros ficaram pelo caminho e os italianos disputarão a final em Cardiff. As sábias adaptações promovidas por seu treinador, Massimiliano Allegri, têm imensurável importância nesse aspecto; a do croata Mario Mandzukic talvez seja o melhor exemplo.



Lembrado como um centroavante de personalidade forte, que teve alguns problemas durante a carreira, inclusive com o técnico Pep Guardiola, Mario parecia se tornar parte do passado Bianconeri no início da atual temporada. A chegada do caríssimo argentino Gonzalo Higuaín parecia ser um atestado de que o camisa 17 não teria muitas oportunidades durante a temporada. Não parecia errado esse pensamento. Mas, estava.

Mandzukic é, sim, alternativa ao ex-centroavante do Napoli, porém não tem sido apenas isso. Sua temporada é grandiosa e os méritos disso devem ser divididos. Tal sucesso só é possível porque o treinador enxergou a alternativa, o atleta viu a possibilidade como uma oportunidade especial, e, coletivamente, o time se encaixou. Hoje, o croata é um exemplar de meia esquerda perfeito para o esquema alvinegro.

Leia também: O rito de passagem de Paulo Dybala

Como atacante de referência, Mario sempre teve aflorado importante espírito de combate e luta (às vezes até exagerado). E em mais uma reconstrução, a Juventus precisou lidar com a saída de Paul Pogba, a lesão de Claudio Marchisio e a incorporação de Higuaín (pouco afeito às tarefas defensivas). Desenhou-se cenário interessante para novidades. Foi assim que o croata voltou a atuar aberto.

Voltou? Sim, porque já exercera tal função em tempos já distantes, sobretudo quando representou o Wolfsburg, em um período em que os Lobos ainda contavam com as poderosas presenças de Edin Dzeko e Grafite no comando do ataque. Entretanto, nunca antes havia demonstrado tanta vontade e dedicação para desempenhar função que não lhe privilegia, muito pelo contrário, exige muito mais de seu corpo. Sua conduta tem sido exemplar, o jogador é cara do time: é competitivo ao extremo, dedicado e aplicado.



No futebol, em algumas ocasiões, nos parece que inteligência só é notada quando alguém faz um passe de rara precisão e beleza. No entanto, esse é só um tipo de inteligência. Outro, ligado à percepção do que acontece em seu entorno, tem fundamental importância. Este é o que mais se nota na Juventus. Mandzukic é a prova viva disso.

Os gols, obviamente, rarearam, mas sua tarefa neste momento não é marcá-los. Pode parecer estranho imaginar um jogador de 1,90m e muita força física atuando aberto pelo flanco canhoto, mas a completude de seu jogo nos ajuda a entender isso. 

Na última partida da Juve, contra o Monaco, por exemplo, o croata venceu nada menos do que 10 duelos aéreos (sete deles no meio-campo, ajudando o time na recuperação de bola). Finalizou cinco vezes ao gol, marcou um tento e foi o segundo atleta alvinegro que mais passou a bola. O camisa 17 marca, atacada, finaliza, rouba bolas, corre muito e se entrega como poucos. Tornou-se fundamental.

Além disso, pensando de forma mais ampla, a presença de Mario no posicionamento mencionado, como ponteiro, permite que o treinador Bianconeri possa fazer muitas alterações táticas durante o jogo. Caso precise de fluidez pelas laterais pode deslocar Paulo Dybala pelo setor e avançar o croata para formar parceria com Higuaín no comando do ataque, tanto como segundo atacante quanto como centroavante, caso seja necessário alçar bolas na área adversária. Isso tudo sem precisar utilizar o banco de reservas. 

Certo é que hoje o time só funciona da forma coesa que lhe é peculiar em decorrência da perfeita compreensão de papéis por parte dos jogadores. Sob esse prisma é importante perceber que um dos atletas cuja modificação de função foi mais invasiva é a do atacante, que, aos 30 anos, voltou a ter que correr como em seus 20, mais longe do gol adversário e, portanto, dos holofotes. Contudo, aceitou o desafio, enxergando nele a oportunidade de voltar a ser tratado como um jogador do mais alto nível do futebol mundial. Hoje, não há dúvidas de que esse é o estatuto a que faz jus. 

Além disso, embora, como dito, os gols marcados pelo croata tenham rareado, eles não desapareceram. Na temporada, tem nove tentos e quatro assistências, em 44 jogos. Não é marca de centroavante de um dos maiores times do planeta, por certo, mas esse papel não é dele e, sim, de Higuaín. Portanto, tem-se que, no todo, a temporada de Mandzukic é, como a da Juventus, espetacular. 

A chance de uma Tripleta no final da temporada é real. Os títulos do Campeonato Italiano, da Copa da Itália e da UEFA Champions League estão ao alcance das mãos. E assim é porque na Vecchia Signora a força do coletivo fala mais alto. A atual forma de um croata de personalidade forte não nos deixa mentir.

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