sexta-feira, 23 de junho de 2017

Henry no Barça: uma história cujo início completa 10 anos

Dois amigos, sentados em um bar de esquina, conversam: “quem foi o maior craque que você viu jogar no Arsenal?”, questiona um deles. Em meio a pensamentos que rondam figuras como Patrick Vieira e Dennis Bergkamp, uma certeza vem fácil à mente: “Thierry Henry”, responde o companheiro inquirido. Embora seja especulativo dizer isso, arrisco-me a revelar que essa será a resposta em 99% dos casos. Henry reinou no Arsenal. Ainda assim, em dado momento, decidiu que era a hora de respirar novos ares. Deixando seu protagonismo para trás, no dia 25 de junho de 2007, firmou pelo Barcelona.



Maior artilheiro da história do clube londrino, com 228 tentos anotados, o francês nunca deixou de manifestar seu profundo carinho e respeito pela agremiação. No entanto, naquela hora, as entrelinhas de sua transferência revelavam um objetivo muito evidente: vencer a UEFA Champions League

Pelo Arsenal, tivera a oportunidade mais clara em 2006, mas perdera justamente para o Barça, time que por anos tentou o contratar. O namoro, antigo, finalmente se tornou casamento em 2007. Sua despedida teve forte caráter emocional e foi repleta de sentimentos bons: da pura gratidão até a mais verdadeira adoração. Henry saiu deixando portas abertas. O próprio torcedor reconhecia que era justo o astro buscar o cumprimento de sua mais importante meta, mesmo porque muitas vezes ele havia tentado sua conquista representando os Gunners e não conseguira.

“É um sonho para todos vencer a Champions League e estou certo de que será o sonho do Barcelona a vencer novamente na próxima temporada [...] É a única coisa que não venci no Arsenal”, disse o atacante em sua chegada ao clube catalão.

Mantendo o histórico número 14 às costas, o craque chegou a um clube que ainda contava com Ronaldinho, Samuel Eto’o e Deco e via a estrela de Lionel Messi ficar cada vez mais evidente. Apesar disso, tudo saiu mal na primeira temporada do astro em Barcelona. Naquela que se confirmou a última temporada de Frank Rijkaard à frente do time, a queda de rendimento de alguns de seus principais craques foi notória. Internamente, o ambiente já não era bom.


O time terminou o Campeonato Espanhol em terceiro lugar e na Champions foi até as semifinais, sendo eliminado pelo Manchester United, que seria o campeão. Naquele momento, Henry chegou a ser considerado uma decepção, um desperdício de dinheiro e visão, uma vez que não era possível acomodar todos os grandes jogadores do clube no time titular. A despeito disso, tudo mudou em 2008/09, começava ali a trajetória que conduziria Pep Guardiola aos mais altos lugares nos rankings de melhores treinadores da atualidade.

Saíram Ronaldinho e Deco. Eto’o ficou por pouco, assumindo o compromisso de se entregar ao máximo. Assim, o time se reinventou. Com o camaronês no comando do ataque e Messi pela ponta direita, coube a Henry o papel de atacante pelo lado esquerdo. Afinal, sua contratação se justificou - e como. Mesmo sem ser referência, balançou as redes 26 vezes em 42 jogos, algumas delas de crucial importância. Demonstrou, cabalmente, que seu final ainda não chegara.

Pelo Campeonato Espanhol, sua primeira grande atuação aconteceu em dezembro de 2008, na 14ª rodada. Os Blaugranas recebiam o Valencia, que alinhava um ataque estelar: Joaquín, David Villa e Juan Mata. Ainda assim, os donos da casa não deram sopa para o azar e impuseram quatro bolas a zero. 

Sem Eto’o, Henry deu show particular, anotando três gols. Primeiramente, cumprimentou as redes de cobertura, após lançamento de Yaya Touré; a seguir, vindo da esquerda para o centro, recebeu bola de Aleksandr Hleb e fuzilou o brasileiro Renan; finalmente, como autêntico centroavante, finalizou com um toque bela jogada de Bojan.



Na disputa da Champions, foi vital nas oitavas de final, contra o Lyon. Após empate por 1 a 1 no fraco jogo de ida (tendo marcado o solitário gol do clube), fez os dois primeiros gols do triunfo catalão por 5 a 2 na volta. Nas quartas, na primeira mão contra o Bayern Münich, ajudou a dar enorme vantagem para o clube, assistindo Messi e fechando a goleada por 4 a 0. Contudo, nos jogos decisivos, sofreu com alguns problemas físicos. Ainda assim, esteve em campo para ver brilharem as estrelas de Eto’o e Messi. Finalmente levantou a “Orelhuda”.

Ao final da temporada, ainda teve tempo de reafirmar seu grande momento. Palco melhor não poderia haver: o estádio Santiago Bernabéu. Avassaladora, a primeira versão do Barcelona de Guardiola atropelou o Real Madrid: 6 a 2 - Henry marcou duas vezes. O primeiro veio em corrida por trás da defesa Merengue, em enfiada de bola de Messi; e o segundo em movimentação semelhante, dessa vez lançado por Xavi, o maior astro daquela noite especial.

Em 2008/09, Henry aconteceu, conquistou o Campeonato Espanhol, a UEFA Champions League e a Copa del Rey. Ganhou também lugar cativo na rica história do Barcelona. Mesmo que nada mais fizesse, já havia logrado o bastante.

Sua passagem pela Catalunha durou apenas mais uma temporada: 2009/10 não foi exatamente um ano bom para o francês. Embora tenha conquistado mais uma vez o campeonato nacional — levando também o Mundial de Clubes, a Supercopa da Espanha e a Supercopa da Europa —, sofreu com lesões, viu a ascensão de Pedro Rodríguez e sua estrela ficar mais apagada, sobretudo com o aumento da influência de Messi e a contratação de Zlatan Ibrahimovic. Fisicamente, entregara seu máximo no ano anterior. Dessa vez, em 32 jogos, marcou apenas quatro vezes.


Finda a aludida temporada, em acordo com a direção do Barça, deixou o clube um ano antes do final de seu contrato e foi embora para o New York Red Bulls, onde permaneceu até o final de sua carreira (exceto por um breve empréstimo ao Arsenal).

No Barcelona, Henry nunca foi a estrela maior da companhia, jamais obteve o estatuto que detinha no Arsenal. Porém, nunca esperou isso; sabia que seria mais um em uma constelação de craques. Ainda assim, entrou para a história dos Culés e conquistou seu maior objetivo, calou o Santiago Bernabéu e foi brilhante em vários momentos. Embora nunca tenha sido o Henry de Londres, em Barcelona ainda foi gigante.

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