sexta-feira, 30 de junho de 2017

Juventude e mentalidade ofensiva: a base do ambicioso trabalho de Bielsa no Lille

Marcelo Bielsa pode não ser o mais vencedor dos técnicos de futebol, mas é indiscutivelmente referência no contexto atual. O estilo de jogo de pressão e seu idealismo o transformaram no “guru” de vários treinadores e amantes desse esporte. É também verdade que o argentino, de Rosário, nunca escondeu o apreço pelo trabalho com jogadores jovens. Nesse sentido, encontrará terreno fértil na temporada 2017/18. Contratado pelo Lille, poderá moldar um elenco recheado de garotos.



Do time que conquistou o Campeonato Francês na já distante temporada 2010/11, em que o clube proporcionou o florescimento do talento de Eden Hazard, resta apenas a referência moral do imponente capitão Rio Mavuba, de 33 anos. O volante, que tem passagem pela Seleção Francesa, terá a missão de liderar um grupo extremamente jovem. Com relação ao último ano, o time não contará mais com os defensores Marko Basa e Franck Béria, ambos com 34 anos. Assim, Mavuba (foto) passa a ser o jogador de linha mais experiente da equipe. Vale ressaltar que, do elenco ao corpo diretivo da equipe, tudo mudou no último ano.

É pouco provável que Bielsa prescinda do atleta na contenção, mas é possível que passe a o utilizar menos. A razão? A necessidade de escalar sempre um time que esteja na melhor forma física, ou, popularmente, “na ponta dos cascos”. Esse é um dos motivos pelos quais sempre gostou de comandar com jovens, por sua energia e disposição para aprender coisas novas. A forma como a qual o técnico trabalha suas equipes é agressiva e repetitiva, portanto, cansativa. Fazer forte pressão gera, indiscutivelmente, muito desgaste físico.

A outra, como apontou o autor Jonathan Wilson em A Pirâmide Invertida, é o fato de que um dos princípios básicos para o treinador é buscar fazer o novo, o inesperado, o que é mais fácil quando se tem atletas menos experientes e com menos movimentos internalizados devido à experiência adquirida.

Exemplo disso foi o trabalho que desenvolveu com o jovem Arturo Vidal, na Seleção Chilena. Comandante de La Roja entre 2007 e 2011, ou seja, entre os 20 e os 24 anos do craque, utilizou-o como lateral, tanto pelo lado direito quanto pelo esquerdo, na zaga e como meio-campista. Moldou-o como quis. Foi assim com uma geração de jovens talentosos que inspirou o país, o qual com a continuidade promovida por Jorge Sampaoli, colocou em definitivo o Chile no mapa da bola. Curiosamente, Bielsa e Vidal vivem uma trajetória marcada por críticas mútuas.

“Sua filosofia, segundo ele, poderia ser destrinchada em quatro termos: “concentración permanecente, movilidad, rotación y repenitización”. Os primeiros três são relativamente fáceis de traduzir: foco permanente, mobilidade e rotação. Mas o quarto é uma expressão clássica de Bielsa [...] Tem um aspecto de urgência. É a chave da filosofia de Bielsa: exigir, repetidamente, que os jogadores façam coisas pela primeira vez”¹

No contexto do Lille, as novidades iniciais são as chegadas do meio-campo português Xeka, de 22 anos, que já havia sido emprestado pelo Braga no meio da temporada 2016/17 e firmou agora vínculo permanente, do atacante brasileiro Luiz Araújo (21), ex-São Paulo, e do winger marfinense Nicolas Pepe (22), ex-Angers.

O primeiro é uma das peças que poderá ter papel fundamental no controle do jogo e pressão; como, por exemplo, Ander Herrera foi no Athletic Bilbao de Bielsa. Combativo e bom passador, o garoto não retém a bola; tão logo a recupera lhe dá destinação, o que é fundamental para a construção de ataques rápidos e letais. Na última temporada, teve média de 2,1 desarmes, 1,7 interceptações, e acerto médio de 82,4% dos passes, a cada partida.



Xeka precisará, é claro, ser mais influente durante as partidas, porém, lapidado, revela o potencial necessário para ser uma das principais engrenagens do time, tanto na pressão pela recuperação da bola quanto no início da construção das jogadas.

Os outros dois, são ponteiros extremamente rápidos, ambos canhotos que gostam de trabalhar a bola partindo do flanco direito para o centro. À primeira vista, parecem se tratar de jogadores realmente semelhantes. Por essa razão, é provável que um deles seja modelado no sentido de atuar por outro lado do campo. Também é de se imaginar que Bielsa terá que trabalhar para melhorar as capacidades defensivas e noções de jogo coletivo dos garotos.



Eles se juntam a outro atacante contratado há pouco tempo e em quem se deposita muita esperança: Anwar El Ghazi, ex-Ajax. Aos 22 anos, é versátil, característica que muito agrada El Loco Bielsa. O garoto, que tem passagem pela Seleção Holandesa, chegou na janela de inverno e ainda não mostrou suas qualidades. Há expectativa de que desenvolva seu talento, sobretudo considerando que terá parceiros móveis com os quais dialogar. Também rápido, mas, mais forte e melhor finalizador do que seus companheiros recém-chegados, oferece muitas alternativas técnico-táticas.


“Nós tentaremos atacar tanto quanto seja possível, defender bem mais no campo do adversário, jogar com a bola no chão. [...] O futebol é um pouco sobre trabalho e muito sobre paixão. O que encontrei aqui se encaixa em minha visão”, disse o comandante na entrevista que concedeu em sua chegada ao clube.

É necessário considerar também a presença de jogadores que têm passagens pelas equipes de base da Seleção Francesa. São os casos dos atacantes Yassine Benzia, formado no Lyon e que representa a Seleção Argelina principal, Martin Terrier, cria da casa, e Farès Bahlouli, também trabalhado pelas camadas jovens do Lyon, mas já com passagem pelo Monaco. Todos apresentam potencial técnico e margem para evolução, mas, em um primeiro momento, partem atrás na corrida por lugares no time; parecem ainda “verdes”.

É bom que se diga que também há peças em fases importantes de suas carreiras e que servirão de sustentação para o trabalho do comandante. Artilheiro do time na última temporada, o belga Nicolas de Préville (de 26 anos) deve ser, inicialmente, a principal referência de ataque (mesmo porque terminou a última temporada marcando três gols no Nantes). No entanto, também foi utilizado em algumas ocasiões como meia ofensivo, por trás do herói do título português na Euro 2016, o centroavante Éder (29). Quanto a este, é difícil fazer qualquer prognóstico. Sem grandes diferenciais técnicos, sua utilização tende a refletir seu contributo coletivo e desempenho individual, com gols.

Mais atrás, há outros dois atletas que deverão ter importância. Um deles é o lateral direito Sébastien Corchia (foto), de 26 anos, e que recentemente ganhou suas primeiras convocações à Seleção Francesa principal. Consistente, fecha bem seu setor, já tendo inclusive atuado no meio-campo, mas desempenhando tarefas defensivas. O outro é o volante Ibrahim Amadou (24). Os dois atletas citados lideraram as estatísticas de desarmes da equipe na última temporada (Corchia teve média de 2,7 por jogo e Amadou 2,5 por jogo).

As questões mais problemáticas ficam na retaguarda. Há pouca dúvida com relação ao lateral esquerdo Julian Palmieri, de 30 anos: trata-se de um jogador mediano, sem grandes qualidades e também sem muitos defeitos. O miolo de zaga é que mais preocupa. Nesse momento, a única alternativa válida de que dispõe Bielsa é o jovem paraguaio Júnior Alonso, que não foi mal em sua temporada de estreia. Contudo, trata-se de um jogador de 24 anos, com apenas seis meses de experiência no Velho Continente. Especulado no clube, o garoto Jean-Kévin Duverne também não inspira confiança. Aos 19 anos, o zagueiro do Lens parece próximo de ser contratado, mas embora tenha potencial e certa experiência (foi titular durante toda a última temporada), é também um garoto.

Quem também tem sido fortemente apontado como possível contratado no clube francês é o volante Thiago Mendes, do São Paulo.

A despeito de tudo isso, sabe-se que os times de Marcelo Bielsa são primazes no ataque e buscam ao máximo minimizar a influência de sua própria defesa nas partidas. Considerando seu contexto atual, deve-se ver justamente isso: um time com muito condicionamento físico e de veia notoriamente ofensiva, que exerce pressão e sufoca seus adversários. 

Tudo isso faz parte do projeto ambicioso do novo proprietário do clube, Gerard López (foto), que fez fortuna investindo no aplicativo Skype e já investiu na equipe Lotus, na F1. Antes de Bielsa, havia contratado o antigo diretor de futebol do Monaco, Luis Campos, um dos maiores responsáveis pela montagem do time que foi semifinalista na última edição da UEFA Champions League. Outro membro importante da direção é Marc Ingla, ex-vice-presidente do Barcelona, no período entre 2003 e 2008 e que chegou a disputar a presidência contra Sandro Rossell, em 2010. Há enorme ambição e know-how no clube francês.

"Queremos promover um espetacular e vencedor modo de jogar futebol [...] Apostando em talentos jovens", disse Ingla ao Independent.

Há que se considerar, entretanto, que tal processo de adaptação e apreensão das ideias do treinador argentino não deverá ser rápido e, por isso, não se podem cobrar resultados imediatos. Como o diálogo entre clube e comandante parece alinhado nesse momento, é esperada a concessão de tempo e tranquilidade para o desenvolvimento do trabalho proposto. Há dinheiro e visão. O Lille tem muita mão de obra jovem e talentosa, justamente à espera de um mentor; se está diante de um dos melhores cenários possíveis para o retorno de Bielsa ao futebol, após dois anos de afastamento.

¹ WILSON, Jonathan (2016). A Pirâmide Invertida. Campinas: Editora Grande Área, p. 355.

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