sexta-feira, 14 de julho de 2017

Duplas históricas: Gabriel Batistuta e Rui Costa

No último texto da série, foi recordada a excepcional dupla de meio-campo formada pela força e liderança de Roy Keane e a capacidade de controle e passe do ruivinho Paul Scholes, com a camisa do Manchester United. É hora de fazer breve viagem. Saímos da Terra da Rainha e partimos para a Velha Bota, mais especificamente para a Toscana, onde um argentino e um português assinaram um pacto de talento, assistências e gols, assegurando lugar eterno na história da Fiorentina.



Os anos 90 tiveram muitas peculiaridades, algumas delas lembradas com nostalgia. A referida década representou o auge da Nintendo, famigerada empresa do ramo de jogos eletrônicos. No período, foi firmada uma parceria que dificilmente será esquecida. Além do característico tom violeta, a camisa da Fiorentina passou a estampar a marca japonesa. Ainda assim, nada disso seria lembrado não fosse o fato de a equipe ter vivido um dos momentos mais importantes de sua história.

A esquadra que dera espaço para brilhar o talento de Roberto Baggio nos anos 80 e contara com a distinção técnica de Sócrates passou por tempos conturbados na transição para a década de 90. O terceiro lugar obtido na temporada 1983/84, bem como o quarto de dois anos após, estavam na história. Entre 1989 e 1992, a Viola terminou dois nacionais em 12º lugar e um em 13º, muito próxima da zona do descenso, que começava na 15º posição à época. Ao final, o inevitável aconteceu, e, em 1992/93, os toscanos desceram à segunda divisão.

No entanto, logo retornaram e, apoiados no talento de uma dupla fantástica, viveram anos de calmaria e até sucesso. Com Gabriel Batistuta no auge de suas capacidades, vivendo anos extremamente goleadores, no comando de ataque, e o português Rui Costa orquestrando à equipe, o time ganhou lugar cativo na memória. El Ángel e El Maestro foram fantásticos no período em que estiveram juntos, entre as temporadas 1994/95 e 1999/00. Não obstante, suas trajetórias na equipe não foram concomitantes. Batigol chegou primeiro e fez parte dos tempestuosos tempos vividos no Stadio Artemio Franchi.

Daqueles conhecidos loucos a representar as cores de River Plate e Boca Juniors, Batistuta, formado no Newell’s Old Boys, foi contratado pela Fiorentina em 1991 — eram tempos em que o futebol italiano atraia os maiores jogadores do planeta. Até então, tudo acontecera muito rapidamente em sua carreira. Em um ano era revelação dos Leprosos, no outro representava os Millonarios e logo depois os Xeneizes. Em 1991, passou a vestir a camisa da Viola e conquistou a Copa América pela Seleção Argentina.

Apesar disso, as coisas não iam bem na Fiorentina. Nada que tenha impedido o goleador de alcançar marcas expressivas. Até 1994, ano em que passou a ser acompanhado por Rui Costa, anotara 54 gols, transcorridas três temporadas. Nada mal, mas o melhor estava por vir, faltavam-lhes passes de genialidade.

“A nossa história dentro do campo de jogo é suficiente para demonstrar a nossa amizade, ali nos entendíamos muito bem”, revelou Batigol, em 2008, ao periódico português Mais Futebol.

Eis que a Fiorentina ganhou um grande reforço em sua volta à primeira divisão, em 1994/95. Tratava-se de um miúdo de apenas 22 anos, que, em 1991, participara do irresistível título do Mundial Sub-20, conquistado pela Seleção Portuguesa, de Luís Figo, Jorge Costa, João Pinto, Capucho e… Rui Costa.

Cria da prolífica base do Benfica, o jogador chegou à Itália após temporada de sucesso com a camisa encarnada. Em 1993/94 conquistara o Campeonato Português, impedindo o tricampeonato do Porto e adiando um período de supremacia dos Dragões. Custou valores que hoje se aproximam dos €6 milhões; pechincha na era dos milhões, uma fortuna em 1994 — quantia que valeu cada centavo.

Juntos, Ángel e Maestro foram brilhantes. Na primeira temporada da parceria, o argentino foi o artilheiro do Campeonato Italiano, com 26 tentos. O time terminou em 10º lugar, porém, ao menos em pontos, mais próximo da classificação à UEFA Cup do que da zona do descenso. O melhor momento da dupla, veio no ano seguinte, na campanha de 1995/96. Mais entrosados, levaram a Viola de volta ao pódio.

Treinados por Claudio Ranieri e ladeados por jogadores como o goleiro Francesco Toldo, o meio-campista sueco Stefan Schwarz e o brasileiro-belga Luis Oliveira, português e argentino conduziram a Fiorentina ao título da Coppa Italia, batendo Internazionale na semifinal e Atalanta na final (com gols de Batigol em ambos os confrontos). Além disso, levaram à equipe ao quarto lugar no Campeonato Italiano, a melhor posição desde 1986.

Em 1996/97, a campanha foi marcada pelo título da Supercoppa Italia, com vitória contra o Milan, treinado por Óscar Tabárez e que tinha em seu ataque o talento de George Weah (que havia sido eleito o melhor jogador do mundo em 1995) e o montenegrino Dejan Savićević — Batistuta somou dois gols no triunfo.



No Italiano, os toscanos ficaram com a 9ª colocação, e, em solo europeu fizeram bonito. Na disputa da UEFA Cup Winner’s Cup, chegaram às semifinais, eliminando os romenos do Gloria Bistrița, o Sparta Praga e o Benfica. Comandados pelos gols de Batistuta, que marcou quatro vezes no certame, só pararam no Barcelona de Giovanni, Luís Figo, Ronaldo e Hristo Stoichkov, ocasião em que o argentino marcou na partida de ida, empate por 1x1.

Com Rui Costa e Batistuta, a Viola ainda conquistou o terceiro lugar do campeonato nacional em 1998/99, que teve o hermano na vice-artilharia, um gol atrás do brasileiro Amoroso. Em sua última campanha com a camisa da Fiorentina, 1999/00 o goleador voltou a ficar em segundo lugar no ranking dos matadores do Campeonato Italiano, dessa vez um gol atrás de Andriy Shevchenko.

A parceria terminou antes da campanha de 2000/01; Batistuta, o segundo maior artilheiro da história do clube, com 207 tentos, partiu para a Roma, onde seria finalmente Campeão Italiano. Rui Costa ficou por mais um ano, adicionando mais uma Coppa Italia a seu currículo, antes de partir para o Milan, onde empilhou mais algumas conquistas.

Tristemente, os dias de glória vividos pela Fiorentina entre a segunda metade dos anos 90 e o início do século XXI teve final trágico. Em 2002, foi decretada a falência do time, que desceu à quarta divisão, ascendendo já no ano seguinte. Curiosamente, o salto se deu diretamente à segunda divisão, em razão do controverso e famoso Caso Catania, que aumentou o número de equipes da competição e admitiu a Viola, que desde 2004/05 disputa a Serie A Italiana.

No período em que estiveram juntos, atacante e meia tiveram companhias qualificadas — chegaram a dividir clube até mesmo com Edmundo —, mas foram sempre as maiores referências, com a capitania da equipe, infinidade de gols da parte do argentino e assistências do português. Hoje, os craques gozam de uma certeza: sempre terão onde se instalar quando desejarem lembrar as belezas da Toscana.

Batistuta — Gabriel Omar Batistuta — 1º de fevereiro de 1969

Carreira: Newell's Old Boys (1988/1989), River Plate (1989/1990), Boca Juniors (1990/1991), Fiorentina (1991/2000), Roma (2000/2002), Internazionale (2002/2003), Al-Arabi (2003/2005)

Títulos: Campeonato Argentino (1990), Torneo Clausura (1991), Serie B (1993/94), Coppa Italia (1995/96), Supercoppa Italiana (1996, 2001), Serie A (2000/01), Copa América (1991, 1993), Copa das Confederações (1992)

Rui Costa — Rui Manuel César Costa — 29 de março de 1972

Carreira: AD Fafe (1990/1991), Benfica (1991/1994; 2006/2008), Fiorentina (1994/2001), Milan (2001/2006)

Títulos: Taça de Portugal (1992/93), Campeonato Português (1993/94), Coppa Italia (1995/96, 2000/01, 2002/03), Supercoppa Italiana (1996, 2004), Serie A (2003/04), UEFA Champions League (2002/03), UEFA Supercup (2003)

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