segunda-feira, 24 de julho de 2017

A importância do Anderlecht na carreira de Lucas Biglia

Com a disputa de uma Copa do Mundo no currículo, passagem de destaque pela Lazio e contratação pelo Milan, é natural que quem acompanha o futebol internacional conheça o argentino Lucas Biglia. No entanto, os 31 anos do jogador às vezes surpreendem, afinal não muitos destes foram vividos em um grande centro do futebol europeu. Ainda assim, o volante está na Europa há onze deles, sete passados em Bruxelas, cidade em que representou o Anderlecht e se transformou no jogador que é.


O início da trajetória de Biglia não tem absolutamente nada de incomum. Como é corriqueiro em mercados como o da América do Sul, atletas talentosos são lançados constantemente e com muito pouca idade — muitas vezes sem estar prontos, inclusive. Lucas despontou no Argentinos Juniors em 2004, aos 18 anos. Eram tempos difíceis, El Bicho lutava para retornar à primeira divisão argentina. Conseguiu e viu seu talentoso meio-campista partir para o Independiente.

No Rey de Copas, ficou apenas um ano e meio, mas, no curso desse período, disputou e conquistou o Mundial Sub-20, em 2005. Na oportunidade, El Principito estava cercado de boas companhias. Na defesa, havia Pablo Zabaleta, no meio Fernando Gago e no ataque Lionel Messi e Sergio Agüero, seu parceiro no clube de Avellaneda. Naquela competição, foi titular em duas partidas e ficou de fora de apenas uma. Na finalíssima, contra a Nigéria, ingressou na segunda etapa, na vaga de Gago.

Estava evidente, já ali, que Biglia possuía a qualidade técnica necessária para fazer uma carreira de qualidade. Ainda assim, seu primeiro destino na Europa foi o Anderlecht, de longe o clube mais bem-sucedido do futebol belga. Na oportunidade, revelou que seu objetivo era “dar um passo adiante na carreira” e que “o Anderlecht me pemitirá jogar a UEFA Champions League”, conforme reportou o periódico La Libre. O que o argentino talvez não previsse era o duradouro impacto que teria na capital belga.

Quando chegou a Bruxelas, Biglia teve a sorte de encontrar um grupo de jogadores argentinos, e, em particular, um ex-companheiro: Nicolás Frutos, ex-Independiente. Passado o primeiro jogo, em que ingressou no decorrer, foi titular durante durante toda a sua primeira temporada e essa foi a realidade dos sete anos que se seguiram. Nesse tempo, foram quatro títulos do Campeonato Belga, uma da Copa da Bélgica e três da Supercopa.

O período foi importante, pois moldou o estilo que o jogador hoje demonstra. Na Bélgica, Biglia construiu uma reputação como controlador de meio-campo, alguém capaz de determinar a forma como o jogo é desenvolvido. Sua influência na saída de bola, construção das jogadas e regência do ritmo das partidas foi crescendo, ano após ano. Rapidamente, já era o jogador mais importante do time; muitas vezes, seu capitão - nas ausências de Olivier Deschacht (o que inclui a temporada 2012/13 inteira).

O destaque na capital belga era tanto que, mesmo longe dos holofotes, em 2011 foi lembrado como alternativa para a Seleção Argentina. Convocado por Sergio Batista, disputou amistosos e ganhou vaga na Copa América 2011. No entanto, o comandante foi substituído por Alejandro Sabella, que só o chamou uma vez em 2012, voltando a o considerar após a transferência para a Lazio. Desde então, é figurinha carimbada dentre os 23 selecionáveis da Albiceleste.

Além do sucesso doméstico, Biglia participou de momentos importantes da história recente dos Mauves et Blancs. Em 2008, após sofrer pesada derrota para o Bayern de Munique nas oitavas de finais da extinta UEFA Cup, 5 a 0, o Anderlecht foi à Baviera e deixou a Allianz Arena com uma vitória, por 2 a 1. Nada que tenha anulado a derrota anterior, mas uma despedida com honra da competição. 

Semelhantemente, na mesma fase, mas já em tempos de Europa League (2010), os belgas perderam o jogo de ida para o Hamburgo (de Zé Roberto e Ruud van Nistelrooy), 3 a 1, mas lutaram bravamente na volta, vitória por 4 a 3. Biglia marcou naquela noite (assim como um garoto chamado Romelu Lukaku). No Anderlecht, o argentino encontrou uma característica marcante de seu próprio país: a luta até o fim. Ao mesmo tempo, teve contato com a forma europeia de se jogar futebol. Viveu, pois, estágio riquíssimo. Preparou-se para o momento em que o salto a uma liga de maior expressão viesse.

Eventualmente, o jogador entendeu que não havia mais o que fazer na Bélgica. Embora tenha manifestado tal intenção em momentos anteriores ao da efetiva saída, terminou sua trajetória com honras, mediante a conquista de seu último título belga. Na ocasião, empate contra o Zulte-Waregem, marcou o gol do título e se disse feliz por “oferecer esse belo presente de despedida aos torcedores”, conforme relatou o Fox Sports. Ao todo, foram 303 partidas pelo Anderlecht, com 16 tentos marcados e 51 assistências.

“Chegou o momento de dar outro passo. Tenho conversado com o Anderlecht (...) Tenho sete anos nessa entidade. É o momento justo de mudar de ares. O Anderlecht também entende assim”, relatou Biglia à ESPN Deportes.

Enquanto soa estranho para muitos o fato de um jogador, do nível de Lucas Biglia, ter passado tantos anos representando o Anderlecht e, portanto, afastado dos grandes palcos, a experiência foi de extremo proveito para o argentino. Em Bruxelas, evoluiu. Transformou-se no jogador que é hoje, aquela figura capaz de equilibrar meio-campos, o típico “queridinho” de treinadores. Não é à toa que logo se tornou capitão da Lazio e assegurou lugar na Seleção Argentina.



Qual o potencial impacto no Milan?

Após quatro anos de titularidade absoluta e bom desempenho com a camisa Biancoceleste, Biglia acertou sua transferência para o Milan. Contudo, não se trata de um movimento para uma equipe Rossonera qualquer. Os milanistas trabalham no sentido de voltar a ter relevância em solo nacional e no contexto internacional. Muitas apostas de potencial técnico a ser desenvolvido foram contratadas e, nesse sentido, o argentino é, ao lado de Leonardo Bonucci, a grande referência da equipe, nessa renovação.

“Patrão” no meio-campo laziale, chega ao Milan para fazer aquilo que sempre fez: dar equilíbrio. Da voluntariedade de Franck Kessie à técnica de Hakan Çalhanoğlu, há talento, mas não existe dúvida de que o mais estável dos jogadores contratados para o meio-campo da equipe é Biglia. E isso pode ter dois significados preponderantes: 1) o jogador ajudará a equipe a se encaixar; e 2) dará melhores condições para o desenvolvimento das habilidades de seus jovens companheiros.

A opção por Lucas Biglia é uma tacada certeira da direção do Milan. Como foi também da parte do Anderlecht, naquele já distante ano de 2006, que entregou ao argentino todas as condições para se tornar o jogador influente e importante que é hoje - tanto em contexto de clubes quanto da Seleção Argentina.

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