quarta-feira, 22 de novembro de 2017

1984/85: o ano em que o futebol sorriu à cidade de Verona

Êxitos de clubes pequenos, glórias obtidas em condições desiguais, com menos dinheiro e holofotes, via de regram carregam consigo a simpatia do público. Nesse sentido, é bem provável que o Leicester City tenha sido o último expoente, quando se trata dos principais campeonatos europeus. Contudo, muito antes de os Foxes arrebatarem corações com a onipresença do carrapato N’Golo Kanté, a habilidade de Riyad Mahrez e os gols de Jamie Vardy, na Itália o Hellas Verona alcançou a glória máxima do país.


Foto: Arquivo Gazzetta dello Sport



Um contexto pós-crise no futebol italiano

Os anos 80 começaram com o futebol italiano em crise. Após a deflagração do escândalo de manipulação de resultados que ficou marcado na história como o Totonero, a Velha Bota passava por um período de necessária reanálise, até porque da desonra investigada decorreram os rebaixamentos de Milan e Lazio e a perda de pontos de Avellino, Bologna, Perugia, Palermo e Taranto – isso sem falar nos vários nomes, entre treinadores e atletas, punidos.

Muito provavelmente, o grande reflexo disso foi a instituição do sorteio dos árbitros a cada rodada (o que aconteceu nessa edição apenas). O habitual é a escolha ser feita por um corpo técnico, ao menos em tese, especializado no assunto. É comum tratar esse fato como um dos determinantes para a conquista do Campeonato Italiano por uma equipe que vem de uma cidade modesta – a segunda da região de Vêneto, atrás de Veneza, e urbe muitas vezes menor do que qualquer uma do quarteto Roma-Milão-Nápoles-Turim. Embora seja impossível mensurar tal realidade, é realmente possível que tal fato tenha tido relevância.

Fato é que o Hellas Verona se tornou o último provinciale a conquistar a Serie A. Após tal feito, a maior outsider a dar as caras na Velha Bota foi a Sampdoria (de Gênova, sexta maior cidade do país), em 1990/91. Isso dá um pouco da dimensão do tamanho do êxito dos Gialloblu, porém a certeza quanto a isso vem quando se nota o desfile de craques que se via no país. A Internazionale saía à passarela com Karl-Heinz Rummenigge, a Juventus com Michel Platini, o Napoli apresentava Diego Maradona, isso sem falar nas estrelas de Zico, Sócrates, Cerezo, Michael Laudrup, Roberto Mancini e Júnior, que abrilhantavam as equipes de Udinese, Fiorentina, Roma, Lazio, Sampdoria e Torino. Ainda assim, os veroneses levaram a melhor.

Continuidade: um dos segredos do Hellas Verona

Acontece que o Hellas Verona não caiu de paraquedas no pódio do campeonato. O treinador da esquadra, o italiano Osvaldo Bagnoli, ex-atleta do próprio clube, estava no comando desde 1981. Foi sob sua direção que o time deixou a segunda divisão, com o título de 1981/82. Já naquela altura, os Gialloblu tinham ambições. Seu presidente, Tino Guidotti estava insatisfeito com o que vivera no ano anterior (o time terminou a Serie B uma posição acima da zona do rebaixamento) e queria vê-lo crescer.


Foto: Olycom


No retorno à divisão de elite do futebol italiano, em 1982/83, os efeitos da presença do treinador se fizeram ainda mais notórios. O veroneses terminaram a Serie A na quarta colocação, ficando atrás apenas da campeã Roma, de Juventus e Inter. Classificaram-se à disputa da Copa da UEFA. Ficaram também com o vice-campeonato da Coppa Italia: na oportunidade, o Verona chegou a bater a Vecchia Signora na partida de ida, mas a Juve, com gols de Paolo Rossi e Platini (2), venceu na volta e levantou o troféu. Eram bons os ventos que uivavam sobre os veroneses.

Com efeito, 1983/84 não foi um ano tão bom, mas para uma agremiação modesta como é o caso do Hellas Verona estava tudo em perfeita ordem e o trabalho do treinador continuou. O sexto lugar no Campeonato Italiano acabou sendo considerado bom, mesmo porque o clube voltou a ser vice-campeão da copa nacional (perdeu dessa vez para a Roma), ainda que na competição continental disputada tenha caído já na segunda eliminatória. Após bater o Estrela Vermelha, os Gialloblu perderam para os austríacos do Sturm Graz, no critério do gol marcado fora de casa.

Chegou a temporada 1984/85, com poucas mudanças.

Um coletivo forte com dois estrangeiros determinantes 

Sob a mesma direção desde 1981, o Verona, que havia contado tempos antes com o brasileiro Dirceu, contratara dois jogadores que seriam determinantes para a conquista. Membro da melhor geração de futebolistas da história da Dinamarca, o atacante Preben Elkjaer chegara com duas missões fundamentais: ser estrela e marcar gols. Por outro lado, para comandar as ações do meio-campo e inspirar seus companheiros, o clube trouxera o experiente Hans-Peter Briegel (foto), polivalente alemão de longa história com as camisas do Kaiserslautern e da Nationalelf (em 1985, seria eleito o jogador alemão do ano).
Foto: weltsport.net

Essa dupla, fundamental, juntou-se a um grupo de bons jogadores que já compunham a base do time há alguns anos – figuras como a do goleiro Claudio Garella, o defensor Luciano Marangon, os meias Antonio Di Gennaro e Pietro Fanna e o atacante Giuseppe Galderisi. Equilíbrio foi uma das chaves da conquista gialloblu. O time teve o maior número de vitórias (15) e foi quem menos perdeu (apenas duas vezes, contra cinco dos segundos colocados na estatística, Torino, Inter, Sampdoria e Juventus); teve o terceiro melhor ataque e a defesa mais sólida, com um saldo de gols impressionante: +23.

A trajetória começou em uma noite histórica: a estreia de Maradona pelo Napoli. No Stadio Marcantonio Bentegodi, foram dados os primeiros sinais de que se poderia estar diante do futuro campeão nacional. Inapelavelmente, os donos da casa venceram por 3 a 1. O início de campeonato do Verona foi impressionante. A primeira derrota só aconteceu na 15ª rodada, curiosamente para o modesto Avellino, que quase seria rebaixado. Nesse período, vieram vitórias contra Juventus e Torino, além de empates perante Inter e Roma.

Não se pode, todavia, contar a história do título do Hellas Verona sem falar em pelo menos um capítulo particular de Elkjaer, contra a Juventus. Na 5ª rodada, após ser lançado em tiro de meta, fintou com o corpo o marcador bianconeri percorreu todo o campo adversário e finalizou o goleiro rival, para afirmar a superioridade gialloblu desde o início do campeonato. Detalhe: sem um dos pés de seu par de chuteiras.



Empatar, sim. Perder? Jamais!

A estrela inspiradora de Elkjaer, apelidado de "Cavalo Doido", a habilidade de Fanna, as defesas de Garella, os gols de Galderisi ou a resiliência e o “elemento surpresa” de Briegel tornaram aquele Verona quase invencível. É bem verdade que foram muitos empates na campanha. Porém, em um torneio tão equilibrado como aquele, impedir que os adversários diretos recuperassem pontos nos confrontos diretos foi um feito e tanto. Considerando os dez jogos realizados contra os cinco times que terminaram o certame imediatamente abaixo dos Gialloblu fica evidente tal realidade: foram obtidas duas vitórias, sete empates e apenas uma derrota se abateu sobre o time. Ou seja: foi consolidada superioridade contra as equipes modestas, ao mesmo tempo em que se impediu as maiores de se aproximar.

Matreiramente, os veroneses foram tomando conta do campeonato. Então, chegou a 29ª rodada. No Stadio Atleti Azzurri d'Italia, casa da Atalanta, um empate seria suficiente para selar o inédito título. Foi o que aconteceu. Eugenio Perico até abriu o placar para a Dea, mas ele, Elkjaer, deu números finais ao encontro. Pela primeira e ainda hoje única vez na história do futebol da Velha Bota a láurea máxima do futebol do país partiu para Verona.

Já na temporada seguinte, os árbitros voltaram a ser escolhidos na forma eleita nos torneios que antecederam o ano de 1984/85; o Hellas Verona foi apenas o 10º, em 1985/86. Na Champions, depois de eliminar o PAOK, os Gialloblu caíram para a Juventus, 2 a 0, no agregado. Apesar do quarto lugar em 1986/87, o time da região de Vêneto não voltou a viver grandes momentos e em 1989/90 caiu para a segunda divisão. Retornaria no ano seguinte só para ser rebaixado novamente em 1991/92. Um câmbio intermitente entre divisões: essa tem sido a tônica dos anos do clube que não se esquece das especiais jornadas dos anos 80 – em especial daquilo que viveu em 1984/85.

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