quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O dia em que Josip Simunic foi imune às regras do futebol

A história da Seleção Croata de futebol, após a dissolução da Iugoslávia, é sólida. A única Copa do Mundo em que ficou de fora foi a de 2010, tendo sido terceira colocada em 1998 e vice-campeã vinte anos mais tarde. Nesse meio tempo, acabou se virando com gerações menos brilhantes. Uma delas foi a que viajou à Alemanha, para a disputa do Mundial de 2006. Nem por isso, entretanto, os eslavos deixaram de ter histórias para contar.

Foto: Getty Images


Repetição da fórmula vitoriosa?

Treinada por Zlatko Kranjčar, pai de Niko, o camisa 19 daquela seleção, os croatas foram à Copa do Mundo projetando um time taticamente parecido com aquele que havia surpreendido em 1998. Trio na zaga, dupla de alas ofensivos, trinca de meio-campistas e um par de atacantes compunham aquele time. Faltaram apenas jogadores da categoria de Zvonimir Boban, Robert Prosinecki, Davor Suker ou Aljosa Asanovic para fazer a fórmula dar certo...

Aquele time tinha muito menos talento do que a geração em que se inspirou. Lá atrás, contava com zagueiros de bom nível, mas não mais que isso — Dario Simic, Robert Kovac e Josip Simunic. O primeiro volante era alguém que atuou a maior parte da carreira também como zagueiro, Igor Tudor. Já o capitão, Niko Kovac, era o outro volante, dotado de mais qualidade técnica. À frente deles, o Kranjčar filho tentava ser uma liderança técnica, mas não conseguia evitar sua irregularidade.

Foto: Boris Kovacev/Cropix
Já o ataque até tinha jogadores de qualidade, como Ivica Olic, Ivan Klasnic ou Dado Prso, mas nenhum equiparável ao ídolo Suker. O líder de 2018, Luka Modric, era um garoto de 21 anos e foi reserva utilizado por menos de vinte minutos em duas partidas. Apesar do apelo à tática que tanto orgulho proporcionou ao povo croata, aquele time simplesmente não tinha os requisitos técnicos para alcançar semelhante sucesso.

Início difícil em grupo parelho

A primeira notícia ruim para os axadrezados veio já no sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Primeiro, viu-se desafiada a competir com o último campeão Mundial, o Brasil. Antes do início da competição, havia um verdadeiro frenesi em torno da Canarinho e do famigerado “quadrado mágico”, formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano. Além disso, as outras forças também não eram desprezíveis.

A Austrália levou à Alemanha aquela que é provavelmente a melhor geração de seu país. Ícones como Tim Cahill, Harry Kewell ou Mark Viduka eram boas armas em que o experiente treinador Guus Hiddink depositava suas fichas. Já os japoneses, que completavam o grupo e eram comandados por Zico, ainda contavam com a experiência de Hidetoshi Nakata e esperavam muito das fantásticas cobranças de falta de Shunsuke Nakamura.

Quando a bola rolou, os croatas quase se aproveitaram das dificuldades originadas da enorme expectativa que existia sobre os brasileiros na primeira fase. O Brasil jogou mal, mas contou com a inspiração de Kaká, traduzida em golaço de fora da área, para decretar a derrota croata.

Foto: Getty Images
No segundo jogo, o Japão arriscou a vida. Havia perdido para a Austrália na partida inaugural e, aspirando algo mais na competição, não poderia ter um novo revés. Mas a Croácia também não podia se dar a tal luxo. O treinador eslavo chegou a dizer que abusaria do jogo físico antes do apito inicial: "somos maiores, mais pesados e provavelmente mais fortes”. 

O jogo foi tratado como final, mas, diferentemente do que acontece nas fases mais agudas dos mata-matas, não havia prorrogação e o jogo morreu ali mesmo nos 90 minutos, sem que a bola balançasse as redes. A sorte para japoneses e croatas foi que a Austrália perdeu para o Brasil. Então, na última rodada, todos os três poderiam se classificar.

No apagar das luzes, o inusitado

A tensão era palpável. Quem vencesse aquele jogo teria enormes chances de classificação para as oitavas de final. Certo é que Croácia e Austrália, bem como o árbitro inglês Graham Poll, protagonizaram cenas lamentáveis naquele 22 de junho de 2006, em Kaiserslautern.

Nem tudo foi polêmica, entretanto. Logo aos dois minutos, Darijo Srna acertou uma bela cobrança de falta e abriu o placar para a Croácia. Mas, quatro minutos depois, dois dos personagens principais deram o ar da graça pela primeira vez. Simunic agarrou Viduka na área. Pênalti. Menos para o árbitro.

Porém, mais tarde, foi em cobrança penal convertida por Craig Moore que os australianos chegaram ao empate. Intervalo. Erro de lado, a vaga ainda era dos comandados de Hiddink.


Veio o segundo tempo e aos 11 minutos o goleiro Zeljko Kalac falhou feio e permitiu o segundo tento croata, anotado por Niko Kovac. Aos 30, novo pênalti deixou de ser marcado para os australianos, em outro pixotada da arbitragem. Mas, três minutos depois, Harry Kewell deu números finais à contenda, equilibrando novamente o placar. A disputa foi quente até o final. Aos 40, Simic foi expulso. Dois minutos mais tarde foi a vez do australiano Brett Emerton deixar o campo com o segundo amarelo.

Chegou o final do tempo regulamentar e Simunic recebeu seu segundo cartão amarelo. E o vermelho? Inexplicavelmente, o croata não foi expulso. Nada que uma outra falta poucos minutos depois, nos acréscimos, não tenha assegurado. Entretanto, a história ficou escrita: mais pelo protagonismo do árbitro, de seus erros e de Simunic, imune a cartões amarelos, do que pela eliminação da Croácia e classificação da Austrália.

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