O rock de Gareth Bale

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

O rock de Gareth Bale

O histórico do Tottenham na Liga dos Campeões da Europa não é dos melhores. Em 2018-19, os Spurs jogam a competição apenas pela quinta vez, tendo como melhor participação sua primeira, em 1961-62. Na ocasião, os londrinos chegaram às semifinais, caindo para o futuro vencedor, o Benfica. Entretanto, esse registro escasso não impediu a vivência de noites memoráveis — como aquelas que Gareth Bale protagonizou no final de 2010.


Bale Internazionale Tottenham Gareth
Foto: Getty Images / Arte: O Futebólogo

Retornando com estilo


A temporada 2010-11 trouxe de volta ao estádio White Hart Lane a emoção da principal competição de clubes do planeta. Foram 49 anos de espera e havia motivos para que se pudesse crer em uma boa participação. O Tottenham era treinado por Harry Redknapp desde 2008 e vivia um tempo de mudanças, tanto em termos de qualidade de futebol quanto de projeção internacional.

Desde o início de sua trajetória, ficou claro que treinador e clube estavam em sintonia. Nas primeiras 10 partidas sob o comando do inglês, os Spurs acumularam sete vitórias, empatando um clássico contra o Arsenal e perdendo dois encontros — contra Fulham e Everton. Após a virada do ano, a qualidade das performances caiu, mas o time fechou a campanha em oitavo lugar na Premier League, uma evolução evidente para quem terminara 2007-08 na 11ª posição.

No ano que se seguiu, 2009-10, veio o grande prêmio. O time encerrou a temporada em quarto e ainda sentiu o doce gosto de pulverizar as chances de título de seu grande rival, o Arsenal, vencendo o derby da 34ª rodada. Terminar a Premier League em tal posição não apenas significou mais um passo rumo ao renascimento do time como garantiu uma vaga na Liga dos Campeões em 2010-11. 

Harry Redknapp Tottenham
Foto: M. Regan/ Getty Images / Arte: O Futebólogo
A confirmação do êxito veio no penúltimo jogo do ano (na adiada 29ª rodada), com o tiro fatal saindo da cabeça de Peter Crouch, em um marginal 1 a 0 contra o Manchester City, fora de casa. Naquela altura, um promissor lateral esquerdo de notável vocação ofensiva passava por um processo importante em sua carreira: deixava sua posição de origem e se arriscava no campo de ataque. 

O maior reforço estava no plantel


Diante de seu novo desafio, o Tottenham foi às compras. Do Real Madrid, trouxe o talento de Rafael van der Vaart; do Internacional, a potência do volante Sandro (que mais tarde seria apelidado elogiosamente de “Besta”). Já a chegada do zagueiro William Gallas acirrou a rivalidade com o Arsenal, seu clube anterior. 

Apesar do indiscutível acréscimo de qualidade trazido pelos reforços, a arma secreta do time estava sendo preparada para iniciar seus imparáveis ataques.

O sorteio dos grupos não foi simpático com os londrinos. Colocou o terceiro colocado do Campeonato Alemão em sua rota, o Werder Bremen, e o Twente, campeão holandês. Mas o pior não foi isso: a campeã da última edição, Internazionale, apresentou-se uma enorme pedra que os Spurs teriam que remover para ir adiante. De alguma forma, um galês retirou esses obstáculos e conduziu o Tottenham a um sonho virtualmente impossível, mas permitido.

O time fez uma estreia razoável, empatando com o Bremen fora de casa. Na sequência, em White Hart Lane, massacrou o rival holandês: 4 a 1 — dois gols de Roman Pavlyuchenko, um de van der Vaart e outro do garoto Gareth Bale, aquele lateral que aos poucos se firmava na frente.

Bale Twente Tottenham Gareth
Foto: Cleva Media/Fotosports Int / Arte: O Futebólogo

O baile do debutante


Tudo bem: aquela não era sua primeira aparição na Liga dos Campeões. Ainda assim, era o primeiro grande jogo que disputaria, a primeira das batalhas que diferenciam o clube médio do grande e o bom jogador do craque. Na terceira rodada, o Tottenham viajou à Milão e parecia que o sonho acabaria ali mesmo. 

Os primeiros 35 minutos de jogo foram terríveis. O veterano Javier Zanetti abriu o placar aos dois minutos e ao seu gol se seguiram outros três, de Samuel Eto’o (2) e Dejan Stankovic. Estava tudo perdido e a tragédia só não foi pior porque o goleiro dos Spurs, Carlo Cudicini, estava bem no jogo.

A despeito disso, o intervalo devolveu aos ingleses a esperança. O Tottenham não desistiu e, inspirado por uma estrela que começava a brilhar, mostrou que, enquanto houvesse tempo, a equipe não pararia de lutar. Pobres Maicon e Zanetti. 


Era jogado o sétimo minuto da etapa final quando Crouch recuperou uma bola e a endereçou a Bale. E o galês chamou os sul-americanos da Inter para dançar um rock. Com um raio, passou no meio dos dois, que não o alcançaram mais. O destino do fenomenal pique foi um chute cruzado que o goleiro Júlio César mal viu. Quando se deu conta, a bola estava dentro das redes.

Bale estava se aquecendo. Pacientemente, esperou um átimo de fragilidade da Inter. Ele veio quando as pernas já não acompanhavam a mente, no minuto final do tempo regulamentar. O galês maltratou outra vez Zanetti. Foi quase um replay, conforme o chute cruzado balançava as redes italianas. E o baque foi forte. Quando Aaron Lennon trouxe a bola da direita para o meio da defesa interista, viu Bale à espreita. E o garoto deu outro chute cruzado, marcando pela terceira vez: 4 a 3.

"Quando Gareth Bale começou seu show, [Samuel] Eto'o estava me dizendo: 'Quem é esse?'", disse o ex-zagueiro do Tottenham, e companheiro de Eto'o na Seleção Camaronesa, Sébastien Bassong ao Guardian.

Derrota à parte, espírito reforçado e sonho em curso


A noite de Bale em Milão foi incrível, mas mesmo assim o Tottenham perdeu e precisava se recuperar, para tentar a classificação aos mata-matas. O próximo adversário foi novamente a Inter, e, outra vez, Maicon foi chamado à dançar. Insinuante, hábil e veloz, Bale fez o que quis com o brasileiro. Afinal, o show de Milão não tinha sido apresentação única.

Em White Hart Lane, Maicon foi batido diversas vezes por um galês que driblava e corria, driblava e corria e, bem, driblava, corria e assistia. Se, na primeira apresentação, Gareth preferiu ele mesmo decidir, na segunda optou por dividir o protagonismo. O jogo já estava 1 a 0 (gol de van der Vaart) quando Bale tomou as atenções. Eram decorridos 16 minutos da etapa final quando o jogador foi à linha de fundo e cruzou para Crouch cumprimentar as redes. Minutos mais tarde, Eto’o até diminuiu para a Inter, mas na noite de Bale só o Tottenham poderia vencer.


No penúltimo minuto do jogo, outra vez, Bale arrancou. Pela esquerda. Quando viu que seu opositor seria o zagueiro brasileiro Lúcio, colocou a bola na frente, em um espetacular drible da vaca, e correu. Inalcançável. Acabou olhando para o centro da área e encontrou Pavlyuchenko, que conferiu números finais à contenda: 3 a 1. Na conta pessoal de Bale contra a Inter ficaram registrados três gols e duas assistências, em dois jogos.

Depois, um encorajado Tottenham bateu o Bremen e empatou com o Twente, avançando com a liderança. Nas oitavas de finais, vitimou o Milan, vencendo na ida (1 a 0 e sem o lesionado Bale) e empatando sem gols na volta. 

Porém, os ditados existem porque são aplicáveis a diversas situações e, como o sonho dos Spurs foi muito alto, o choque de realidade também foi intenso quando chegou. Nas quartas de finais, de nada adiantou ter o galês. O Real Madrid fez uma goleada marcante por 4 a 0 na ida e se limitou a bater marginalmente os londrinos na volta, 1 a 0.

Bale ficaria mais dois anos em White Hart Lane, antes de partir, por uma quantia recorde à época, justamente para o Real Madrid. Redknapp duraria uma temporada a menos. E, depois de uma aposta fracassada em André Villas-Boas, com o treinador Mauricio Pochettino o Tottenham acabaria por se consolidar uma força importante na Inglaterra. Ainda carente de maiores títulos, mas mais respeitado do que naquela já distante temporada 2010-11, em que Bale se deu a conhecer, alavancando seu crescimento e o do clube.

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