O delírio e a realidade da Escócia no Mundial de 1978

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O delírio e a realidade da Escócia no Mundial de 1978

O treinador escocês Ally MacLeod passou à história como um grande falastrão. As apostas feitas às vésperas da disputa da Copa do Mundo de 1978, na Argentina, foram muitas. Os resultados, porém, decepcionaram. A Escócia possuía uma destacada geração de jogadores e acreditava em um bom desempenho. Havia motivos para torcer por uma participação decente, mas nada muito além disso.

Scotland 1978
Foto: Getty Images/ Arte: O Futebólogo

Da Copa das Nações Britânicas à América do Sul


“Meu nome é Ally MacLeod e eu sou um vencedor”. Foi com essas palavras que o responsável por liderar a Escócia entre 1977 e 1978 se apresentou aos seus jogadores. Não há como não ressaltar o fato de que lá estavam diversos nomes que, de fato, haviam ido muito além de um troféu de Copa da Liga Escocesa, pelo Aberdeen — a única glória relevante que o treinador havia conquistado até ali. 

Seja como for, o impacto inicial da chegada do falador foi positivo. O primeiro grande desafio do comandante foi a disputa da tradicional Copa das Nações Britânicas. A competição, de caráter anual, costumava colocar frente a frente, Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales — sendo desnecessário ressaltar o peso da rivalidade nessas competições, amplamente dominadas pelos ingleses.


Em três jogos, um empate contra os galeses foi suprimido por vitórias nas outras partidas. O jogo final, em especial, teve um sabor doce. A vitória contra a Inglaterra, em Wembley (2 a 1), com gols de Gordon McQueen e Kenny Dalglish, foi motivo de muita celebração, inclusive saindo do controle. Eufóricos, torcedores escoceses invadiram o gramado e protagonizaram cenas de vandalismo. Pedaços do gramado foram arrancadas e até uma parte de uma das traves foi removida (o que ajuda a explicar o fim da competição, em 1984).

England Scotland Britain Home Championship 1977
Foto: Match Oficial Program/ Arte: O Futebólogo
Passada a competição regional, ainda havia chão a ser percorrido para garantir a classificação para o Mundial de 1978. Dividindo o Grupo 7 das Eliminatórias com o País de Gales e os campeões europeus vigentes da Tchecoslováquia, os escoceses já haviam vencido uma partida contra seus vizinhos, mas tinham também perdido para os tchecos na estreia. 

Na hora H, os comandados de MacLeod passaram um recado forte: demoliram o representante do Leste Europeu em Glasgow, 3 a 1, e bateram, outra vez, os galeses, 2 a 0 — jogo disputado em Liverpool, apesar do mando adversário. E o melhor: viram a Inglaterra ficar fora de sua segunda Copa do Mundo seguida.

Sinais dados e ignorados


A animação quando da confirmação da vaga no Mundial foi enorme. A bem da verdade, a empolgação foi tanta que pouco importou a derrota para os ingleses na edição da Copa das Nações Britânicas de 1978. Para eles, estava claro que a nação britânica suprema, naquele momento, seria a representante da região na Argentina. Antes do certame mundial começar, entretanto, houve sinais conflitantes: havia indícios de que nem tudo ia bem.

Depois de uma despedida com mais de 30.000 pessoas presentes no estádio Hampden Park, Ally MacLeod concentrou seus escolhidos em uma pequena turnê pré-Copa contra seleções sul-americanas.

Scotland Argentina 1978
Foto: Getty Images/ Arte: O Futebólogo
O elenco, que incluía presenças imponentes como as de Dalglish e Graeme Souness, ambos vindos do Liverpool, Archie Gemmill, Kenny Burns e John Robertson, do Nottingham Forest, e vários outros vindos dos rivais de Manchester — City e United —, jogou contra Chile, Argentina e Brasil. Venceu apenas os chilenos, 4 a 2 (depois de abrir 3 a 0, em 37 minutos), empatou com a Albiceleste e perdeu para a Canarinho. Tudo normal? Talvez não.

Sem meias palavras: fracasso total


O sorteio não foi generoso com os escoceses. Os britânicos caíram no Grupo 4, junto da melhor geração do Peru, do que restava da geração holandesa vice-campeã de 1974, e do azarão Irã. O tombo inicial já foi pesadíssimo. 

Na estreia em Córdoba, os primeiros sinais foram positivos, já que Joe Jordan abriu o placar para os escoceses contra o Peru, aos 14 minutos do primeiro. Não contava com uma performance de enorme inspiração de Teófilo Cubillas. Primeiro, assistiu César Cueto, no que foi o gol de empate. Depois, ele mesmo fez o segundo; e o terceiro, em uma cobrança de falta ensaiada e magistral: um petardo de três dedos. O fiasco foi ainda maior porque Willie Johnston foi pego no exame antidoping após a partida.


Sabendo que o terceiro jogo seria contra a poderosa Holanda, uma vitória contra o Irã era um imperativo. E a tensão tomou conta da decisão. Nem um empurrãozinho dos asiáticos salvou a pele do Tartan Army. O placar foi aberto pelo defensor Andaranik Eskandarian, em um gol contra dos mais bizarros, em uma tentativa de corte atrapalhada. Porém, os iranianos não desistiram do jogo. Eventualmente, apostando em dribles e na habilidade de seus jogadores de frente, chegou ao empate, com Iraj Danaifar. E foi isso. 

A Escócia chegou ao jogo contra a Holanda precisando de um resultado improvável. Peruanos e holandeses tinham uma vitória e um empate cada. Os comandados de MacLeod precisariam vencer a Oranje e tirar um saldo de três gols de diferença. Não deu. O que não quer dizer que os britânicos não tenham deixado a Argentina com a cabeça erguida.


A réstia de dignidade


Tudo indicava que se veria uma tragédia da maior espécie quando a Holanda saiu na frente. Rob Rensenbrink converteu uma penalidade máxima sofrida por Johnny Rep, aos ‘37 do primeiro tempo. Contudo, o empate veio ainda na etapa inicial. A bola foi lançada para a área e Jordan escorou para Dalglish estufar as redes. 

Archie Gemmill Scotland 1978
Foto: Daily Record/ Arte: O Futebólogo
A esperança logo voltou, porque dois minutos depois do retorno dos vestiários, Gemmill também marcou de pênalti. Coube a ele, também, o terceiro. Ironicamente, a jogada, recordada no filme Trainspotting (1996), mostrou tudo o que se esperava da Escócia: com muita destreza, Archie fez fila na defesa da Laranja, deixando quatro adversários pelo caminho, e tocou na saída do goleiro Jan Jongbloed. Faltava só um tento e havia 22 minutos para anotá-lo. Subitamente, o quarto gol escocês era mais factível do que o segundo da Holanda.

O problema é que o Carrossel Holandês podia ter alguma ferrugem por tirar, mas ainda estava funcionando. Aos ‘72, Ruud Krol comandou a saída de bola de sua defesa, com toques e movimentações. Com pouca oposição, foi avançando pela faixa central do campo até que viu a passagem de Rep. Ele caminhou um pouco mais e decidiu chutar. Acertou o ângulo direito da meta defendida por Alan Rough e apagou a chama escocesa. O adeus foi confirmado. A questão é que a eliminação não foi consumada naquele terceiro jogo.


“[O discurso na Seleção Escocesa] Era tudo sobre ‘vamos vencer isso, temos um grande time, temos ótimos jogadores, mostraremos para todos’. Não podia ser mais estranho à forma como fazíamos as coisas em Anfield [...] Não dava para fazer nada mais errado do que o que a Escócia fez na Argentina [...] Nós os subestimamos [a equipe do Peru] [...] O jogo seguinte foi contra o Irã e precisávamos ganhar. Todos pensaram que seria apenas uma formalidade, mas não foi”, relatou Souness em sua autobiografia Football: My life, my passion.

Existiam motivos para empolgação antes do Mundial, mas ela não podia ter a dimensão do discurso enfático e apaixonado de MacLeod. O comandante que chegou a sugerir que os escoceses poderiam alcançar um dos três primeiros confirmou uma fama de falastrão que nunca o abandonou. Pudera: o sonho escocês sugerido esteve muito mais próximo de um delírio do que da realidade. Esta acabou revelada pela manchete do jornal The Daily Record: “De volta pela porta dos fundos” — recebidos por pouco mais de 100 pessoas.

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