O Boxing Day que levou o Manchester United ao primeiro título inglês com Alex Ferguson

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Boxing Day que levou o Manchester United ao primeiro título inglês com Alex Ferguson

Mais de 25 anos haviam se passado desde que o Manchester United conquistara seu último título inglês. Depois de viver anos 1960 memoráveis, os Red Devils sofreram durante as duas décadas seguintes. Alguns títulos da FA Cup — além da conquista da Recopa Europeia de 1990-91 — diminuíram o vazio do torcedor, mas não aplacaram a dor da longa espera, sobretudo em um período de domínio de seu maior rival, o Liverpool. Apesar disso, o futebol, com seu caráter cíclico, reservou emoções aos mancunianos de vermelho, a começar em 1992-93; logo após o Natal, na rodada de Boxing Day.

Foto: John Giles/PA Archives/ Arte: O Futebólogo


Faltava a cereja do bolo


Sir Alex Ferguson chegou ao Manchester United em 1986 e logo deu início a um trabalho que seria qualquer coisa, menos fácil. Em seu livro, Liderança, o lendário comandante deixou claras as primeiras dificuldades que enfrentou: “Quando cheguei a Old Trafford e vi o que teria de enfrentar no que diz respeito à cultura de bebedeiras, fiquei um pouco preocupado. Eu me perguntei: ‘No que eu fui me meter?’”.

No entanto, resoluto, Fergie ficou. Apostou em si e no sonho infantil que representava a oportunidade de dirigir os Red Devils. Aos poucos, foi moldando o time ao seu modo, incutindo alguns de seus princípios, tais como disciplina, esforço, determinação e convicção.

Ao mesmo tempo em que jogadores que não viam o jogo como o comandante foram perdendo espaço, a alarmante média elevada de idade foi forçando mudanças. “No fim dos anos 1980, eu estava determinado a recomeçar do zero e ficar com quantos jogadores jovens pudesse”, garantiu o treinador escocês.

Em meio a um desmanche, Ferguson começou a fazer as contratações que desejava. Assim, foram chegando atletas como Mark Hughes, Paul Ince, Gary Pallister e Mick Phelan. A eles foram se juntando outros nomes importantes, como foram os casos de Denis Irwin, Andrei Kanchelskis e do goleiro Peter Schmeichel, que acabaram sendo o sustentáculo para a aparição de jovens das categorias de base do clube mancuniano, tendo Ryan Giggs sido o primeiro da famigerada Class of 92 (o time vencedor da FA Youth Cup de 1992) a despontar. Apesar disso, quando se anunciou a temporada 1992-93, ainda faltava alguém capaz de, com sua técnica, ganhar pontos para o United.

Foto: PA/ Arte: O Futebólogo
Naquele momento, Alex Ferguson teve sorte. Encontrou a cereja do bolo por um preço módico. Éric Cantona havia sido a estrela máxima do Leeds United no título inglês de 1991-92, mas fora preterido por Howard Wilkinson em um momento de crise no começo da campanha seguinte e desejou sair. O francês chegou a Manchester custando £1,2 milhões e logo se tornou uma certeza.

“Pedi conselho para pessoas de confiança. Conversei tanto com Gérard Houllier, o técnico francês, quanto com o jornalista esportivo Erik Bielderman na tentativa de entender melhor o jogador que estava comprando. Além disso, falei com Michel Platini [...] Todos me deram dicas sobre a melhor forma de lidar com Cantona, que chegou ao Manchester United com a reputação — injusta — de ser indisciplinável”, relatou.

Resposta imediata


Cantona estreou pelos Red Devils no dérbi de Manchester, vencido por 2 a 1. Na ocasião, ingressou no intervalo, na vaga de Giggs, e não marcou. O primeiro tento só saiu na terceira partida, com o francês garantindo um empate fora de casa ante o Chelsea. Era o final do ano e a partida seguinte seria logo após o Natal, durante a tradicional rodada de Boxing Day (na Inglaterra, é habitual a disputa de jogos no dia 26 de dezembro, logo após as festividades natalinas).

O Manchester United não estava propriamente na linha de frente pelo título da Premier League, no que foi a primeira disputa da campeonato inglês em novo formato. Haviam sido jogadas 20 rodadas e a liderança do certame cabia ao Norwich City, com 39 pontos. Cinco atrás estavam os mancunianos, na quarta posição, atrás também de Aston Villa e Blackburn. Vitórias eram um imperativo na luta pelo fim de um jejum que durava desde a campanha 1966-67.

Por sua vez, o Sheffield Wednesday, rival e anfitrião naquela rodada, encontrava-se no meio da tabela, sem grandes aspirações, além da permanência na elite. Contudo, os Owls entraram possessos em campo.

Foto: Twitter @wednesdayretro/ Arte: O Futebólogo

Liderados pelo treinador Trevor Francis, um homem que, como atleta, havia vencido de tudo representando as cores do Nottingham Forest, foram à caça. Com seis minutos de jogo, já venciam por 2 a 0 em Hillsborough. De uma bola mal afastada nasceu o primeiro gol, anotado por David Hirst. E de um lançamento longo e um bom trabalho de pivô surgiu o segundo, de Mark Bright.

Quando o árbitro soou o apito para o intervalo, o cenário era péssimo. Embora o Norwich seguisse no zero a zero com o Tottenham, e o Aston Villa empatasse com o Coventry, o Blackburn vencia o Leeds. Não se pode dizer que o Manchester United não tenha reagido, mas os gols teimavam em não sair. Para um lado apenas, já que 17 minutos após a volta dos vestiários John Sheridan foi assistido por Hirst e marcou o terceiro tento da casa.

O cenário de terra arrasada era uma realidade indiscutível para os Red Devils. No entanto, àquela altura do trabalho de Ferguson, parte de seus princípios já havia sido internalizada por aquele elenco. Os dias de bebedeira haviam sido substituídos pelos de disciplina, esforço, determinação e convicção — em uma palavra: compromisso.

Com vocês, Lee Sharpe, Brian McClair e… Cantona


Sem se render, o Manchester United foi à luta. Cinco minutos depois de sofrer o terceiro, o lateral Paul Parker acionou o meia Lee Sharpe pela ponta direita do ataque visitante e este centrou a bola na cabeça de Brian McClair: 3 a 1. Havia ainda muito terreno a ser percorrido, mas o primeiro passo estava dado. No entanto, conforme o tempo foi passando, a sensação passou a ser a de que o gol mancuniano não passou de um detalhe da vitória iminente do Sheffield.

Então, aos 80’, dessa vez pelo flanco esquerdo, Sharpe entortou seu marcador e cruzou outra vez na cabeça de McClair: era o 3 a 2 e a balança do lado psicológico passou a pender mais fortemente para o United, que se tornava um hóspede indigesto. Em um gesto de irresignação, o artilheiro da partida correu para dentro da meta rival buscou a bola e correu em direção ao meio-campo. A resposta foi imediata, com Hirst exigindo o melhor do goleiro Schmeichel, mas, naquela altura, o empate já era palpável.


Quatro minutos depois do segundo gol, Sharpe foi lançado outra vez nas costas da defesa dos Owls e cruzou, em um movimento típico, mas difícil de parar. Dessa vez, a bola foi rasteira e chegou a ele, Cantona. O primeiro arremate foi ruim, de susto. Foi necessária luta para que, chorando, a bola morresse no fundo das redes do pobre goleiro Chris Woods. Era o 3 a 3 definitivo.

“O empate por 3 a 3 foi magnífico. Foi como se os bons e velhos dias estivessem de volta e um fator importante, penso, é o francês. Eric Cantona é tão inteligente que parece mentira. E a coisa mais bonita sobre jogadores especiais é que eles são contagiantes. As coisas que ele tenta, os outros tentam, e é a forma como o time está jogando que coloca homens de meia idade pulando como crianças de dois anos”, disse Ferguson no Ano Novo de 1992 para 1993, como reproduziu o Guardian em 2013.

Sim, aquela partida foi um empate, e pouco ajudou o United em termos de ascensão na tabela — o time apenas superou o Aston Villa e viu o Blackburn se distanciar. No entanto, os efeitos morais daquele jogo transcenderam o placar.

Dali em diante, os mancunianos emplacaram quatro vitórias consecutivas e, até o final, só perderiam duas vezes (como comparação, até o Boxing Day haviam acontecido cinco derrotas). Em 22 jogos, Cantona marcaria nove gols e, ao final, vencidas 42 rodadas, uma distância de 10 pontos para o Aston Villa consagraria o Manchester United e Alex Ferguson. Eram, enfim, campeões. E, bem, é como dizem: o resto é história.

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