A grande recuperação do Goiás em 2003

quarta-feira, 25 de março de 2020

A grande recuperação do Goiás em 2003

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O fim da 23ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2003 sinalizou a conclusão do primeiro turno da competição. Naquele ano, eram 24 os competidores e, portanto, 46 as partidas por disputar. Naquela altura, o torcedor do Goiás mal pôde comemorar a vitória contra o Vasco, 3 a 1. Sua situação era complicada, apesar de já ter apresentado sinais de melhora. A lanterna seguia em suas mãos e o rebaixamento à segunda divisão parecia iminente.

Foto: Ari Ferreira/Lancepress/Arte: O Futebólogo

Contra o descenso, aposta em Cuca


Embora contasse com um time com nomes que marcariam sua história no futebol brasileiro, o início de temporada do Esmeraldino foi uma calamidade. Nos primeiros 10 jogos do Brasileirão, perdeu seis, empatou três e venceu tão somente um encontro (ainda que o triunfo tenha sido superlativo, 7 a 0, ante o Juventude). Desse modo, a barra pesou e o treinador de então, Candinho, pediu o boné. Depois de mais uma derrota, contra o Criciúma, o comandante se demitiu.

Era ainda vivido o final do mês de maio, mas havia urgência. Tanta que um dia depois da saída de Candinho o Goiás já tinha substituto. Cuca optou por deixar o Paraná Clube, até então o nono colocado na competição, para tratar daquela missão impossível. Segundo o vice-presidente de futebol paranista da época, José Domingos, a proposta apresentada ao treinador foi irrecusável e não podia ser igualada pela Gralha Azul — tratava-se do dobro dos valores que recebia em Curitiba.

Foto: ESPN/Arte: O Futebólogo
Assim, Cuca seguiu para o Serra Dourada, onde encontrou jogadores como o goleiro Harlei, os zagueiros zagueiros Fabão e Renato Silva, o volante Josué, o meia Danilo e os atacantes Araújo, Dimba e Grafite. Mesmo assim, foi necessário à diretoria do alviverde ter a paciência como virtude. O início foi difícil. Nos primeiros cinco jogos com o novo comandante, o Goiás seguiu perdendo: foram quatro insucessos e apenas um triunfo, contra o Fluminense.

Apesar disso, após a derrota para o Guarani, na 16ª rodada, a sorte esmeraldina começou a mudar. Primeiro, as perdas viraram empates. Foram seis nos sete jogos que se seguiram (entremeados por uma vitória importante contra o São Caetano). E, dali em diante, os goianos partiram rumo à consolidação, emplacando 16 partidas de invencibilidade e vencendo, dentre outros, o Cruzeiro, que viria a ser o campeão naquele ano.


Testes em busca da evolução


Em sua chegada a Goiânia, conforme fez notar a Folha de São Paulo, Cuca se deu o direito de fazer testes. Escalou sua equipe nos esquemas táticos 3-5-2, 4-4-2 e 4-3-3. Também correu atrás de improvisações, recorrendo ao meio-campista Cléber como lateral direito e, por outro lado, apostando no ala esquerdo Leandro Smith, destaque nas assistências (8), pela faixa central. 

Muitas vezes, optou por três volantes e três atacantes, uma fórmula pouco usual. Nestes turnos, acostumou-se a lançar um meio-campo formado por Josué, Marabá e o experiente Simão — além de um ataque forte, com Araújo, Grafite e Dimba. Quando precisava de um meia de origem, apostava em Danilo. E, além disso, podia contar com as bombas de Fabão nas cobranças de falta. O beque fez nada menos que seis gols na competição. Apenas o trio de frente foi mais eficaz.

Foto: Weimer Carvalho/O Popular/Arte: O Futebólogo

“Não existe mistério em jogar com três volantes, desde que eles não sejam só brucutus. É uma maravilha ter um jogador no meio-campo que crie e ainda consiga marcar [...] Gosto de montar o Goiás com três atacantes. Os motivos são as peças que tenho e o campo grande do Serra Dourada [...] Quando estamos com a bola, ficamos igual a um avestruz quando ele abre as asas, leve. Isso porque ele não tem pena, e sim pluma, e tenta abranger os espaços. Quando perdemos a bola, ficamos do mesmo jeito quando o bicho fecha as asas, se protegendo”, falou ao já citado periódico paulistano.

Desse modo, o time que chegou a permanecer 16 rodadas na lanterna da competição conseguiu ficar livre do rebaixamento 10 jogos antes do final do Campeonato Brasileiro. Tal feito era simplesmente impensável nos idos de maio. Naquela altura, os otimistas, que viam possibilidade de salvação para o time do centro-oeste, tinham consciência de que a luta seria até o fim. Não foi.


Os gols de Dimba


No desenlace da competição, apenas o torcedor do Cruzeiro, campeão, pôde se declarar mais satisfeito que o do Goiás.

O Esmeraldino terminou o Brasileirão na nona colocação. Alcançou, ademais, números interessantíssimos. Teve a oitava melhor defesa da competição (um feito e tanto para quem passou tanto tempo afundado no rebaixamento) e foi o quinto time que mais marcou gols. Quanto a essa estatística, não há como não levantar a importância de um jogador.

Aos 29 anos, Editácio Vieira de Andrade, o Dimba, já era figurinha carimbada no futebol brasileiro. O centroavante havia representado camisas importantes, como as de Bahia, Portuguesa e Botafogo. Porém, seu maior destaque havia sido registrado na temporada anterior, atuando pelo Gama. Isso porque foram apenas dois os gols que o separaram da artilharia do Campeonato Brasileiro de 2002, em que pese o rebaixamento do Gama.

Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Dimba fez 17 gols naquela disputa, dois a menos que Luis Fabiano e Rodrigo Fabri, então em São Paulo e Grêmio, respectivamente. Assim, viajou pouquíssimos quilômetros, trocando o Distrito Federal por Goiás. E manteve seu desempenho brilhante à frente das redes rivais.

Em 2003, a artilharia não escapou. Em 41 partidas, o homem-gol marcou 31 tentos. À época, a marca também representou a quebra do recorde estabelecido por Edmundo em 1997 (29).

''Não foi nada além do normal no primeiro turno, o problema é que nada estava dando certo com a gente [...] O importante foi a persistência de cada jogador. Sempre assumíamos os nossos erros e tentávamos melhorar. Passada a fase ruim, a união foi fundamental, e os resultados estão aparecendo”, refletiu à Agência Estadão, em agosto de 2003.

Sete vezes, o goleador conseguiu fazer dois gols em uma mesma partida. Já o maior jejum foi vivido entre as rodadas 25 e 27, ou seja, durante míseros três jogos. Embora tenha sido seguido de perto pelo paranista Renaldo e o são-paulino Luis Fabiano, autores de 30 e 29 tentos, respectivamente, ninguém acabou sendo tão prolífico quanto Dimba.


Missão cumprida e desmanche


Encerrada a missão de salvamento entregue às mãos de Cuca, o comandante decidiu mudar de casa. Em 12 de dezembro de 2003, o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, anunciou a contratação do treinador. “Faltam pequenos detalhes, mas posso afirmar que ele [Cuca] será o técnico do São Paulo em 2004”, garantiu à Folha. O contrato firmado foi de um ano e o salário estipulado em R$ 60 mil.

Foto: Acervo Gazeta Press/Arte: O Futebólogo
Como se perder o treinador milagreiro já não fosse suficientemente ruim, o Goiás ainda teve de lidar com outra notícia desagradável, logo no dia seguinte. Cuca não juntou apenas as suas coisas e seguiu para a capital paulista. Ele convenceu Fabão, Danilo e Grafite a tomar o mesmo caminho. No ano seguinte, Josué também se juntaria ao Tricolor.

“Nosso aproveitamento atual na bola parada é zero, mas, agora, teremos um bom batedor de faltas, que é o Fabão. Já o Danilo é um craque, um jogador de passadas largas, forte, eficiente e com bom nível cultural”, registrou Juvêncio no portal Terra

Apesar de tudo isso, o Goiás não se perdeu. Pelo contrário, melhorou. Trouxe de volta o ídolo Alex Dias e apostou suas fichas em jogadores como o zagueiro André Dias, os laterais Paulo Baier e Jadílson e o meia Rodrigo Tabata. A nova fórmula deu certo e o Esmeraldino terminou o Brasileirão de 2004 em sexto, o que ainda melhorou no ano seguinte, com um terceiro lugar e a conquista de vaga na Copa Libertadores da América. 

Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Porém, de 2006 em diante o clube retomou seu lugar no meio das tabelas, até cair à segunda divisão, em 2010. E, desde então, o time vive em uma gangorra, entre acessos e descensos. O que não apaga os dias de sonho dos anos 2000. Que começaram com uma recuperação impressionante, marcada pela chegada de um treinador redentor e os gols de um artilheiro implacável.

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