Denis Law, Joe Baker e um ano muito louco em Turim

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Denis Law, Joe Baker e um ano muito louco em Turim

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Quando se pensa na trajetória do escocês Denis Law no futebol, é impossível separar sua figura da do Manchester United. Foram mais de 10 os anos em que representou os Red Devils. Nesse tempo, ao lado de Bobby Charlton e George Best, eternizou a United Trinity. Contudo, antes de fazer de Old Trafford seu lar, ele atuou no rival local, o Manchester City, e, mais importante que isso: emigrou à Itália, onde acabaria amigo de outro britânico, Joe Baker.

Denis Law Joe Baker Torino
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Marcas artilheiras e passaporte carimbado


A temporada 1960-61 foi importantíssima para a trajetória de Law. Em sua primeira campanha completa pelo Manchester City, o atacante de 21 anos fuzilou as metas rivais 23 vezes em 43 jogos. Pelo Campeonato Inglês, foram 19 tentos em 37 aparições. Estava correspondendo às expectativas do clube que havia quebrado o recorde britânico de valor de uma transferência (aproximadamente 55 mil libras). Descoberto na Escócia pelo Huddersfield Town, caminhava a passos largos para se transformar em um dos grandes atacantes de seu tempo.

Com um time apenas mediano, rapidamente o City ficou pequeno para o faro de seu artilheiro. Em alta no mercado, foi disputado a tapa por Internazionale e Torino, e acabou firmando com os Granata, contra as reclamações dos nerazzurri, que diziam ter um pré-contrato assinado. 

Outra vez, Law viu seu nome ser vinculado a altas cifras: 110 mil libras, um novo recorde de transferência envolvendo um jogador britânico. E ele não chegou ao Bel Paese desacompanhado. Ex-Hibernian, o atacante Joe Baker, jogador da Seleção Inglesa e meses mais novo que Law, foi outro contratado, preferindo os Alpes à Toscana, em que a Fiorentina desejava contar com os seus serviços.

Denis Law Manchester City
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

À época, o Toro ainda lutava para se recuperar da terrível tragédia de Superga, o acidente aéreo que vitimou sua equipe, em 1949. Dois anos antes da chegada da dupla, o time se encontrava na segunda divisão e, após o acesso, limitou-se a uma campanha de 12º lugar. Entretanto, tratava-se de uma equipe com recursos que nenhum inglês desafiava, sobretudo porque até 1961 existia um teto salarial no país. Partir para a Itália significava, além de tudo, a chance de obter grandes lucros. O diretor de futebol granata, Gigi Peronace, tinha força no mercado e foi atrás da dupla, empolgando os torcedores.

Com status de estrelas, Law e Baker logo se tornaram amigos, inclusive dividindo um apartamento. Em seu segundo jogo, Denis marcou seu primeiro tento. Naquele encontro contra o Vicenza, anotou uma vez, vendo Baker fazer outros dois gols, em um empate por 3 a 3. Ao longo do Campeonato Italiano 1961-62, Law balançaria as redes mais nove vezes, incluindo duas doppietas, uma ante a Udinese e outra contra o Bologna. Baker registraria mais cinco gols.

Apesar disso, o estilo de jogo praticado no país, que se tornava famoso pelo catenaccio — principalmente com os treinadores Nereo Rocco, do Milan, e Helenio Herrera, da Inter — não vinha sendo do agrado dos britânicos. Sem falar nos pontapés e constantes xingamentos por parte dos defensores rivais, tivessem ou não a posse da bola. E, além disso, toda a fama que carregavam ajudava pouco.

Incidentes e acidente


Implacável, a imprensa local costumava dizer que Law e Baker tinha ido para a Itália para viver a dolce vita, abusando dos prazeres da noite. Além disso, o Torino, por vezes, permitia à dupla viagens à Escócia, sob o pretexto de que os atacantes trariam a família para viver em Turim — o que era visto com bons olhos pela direção. Contudo, os parentes nunca se mudaram para a Itália. 

Sempre juntos, os britânicos fariam parceria também em outras grandes controvérsias.

Joe Baker Denis Law
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Em janeiro de 1962, um dia antes de uma partida contra o Venezia, fora de casa, os atacantes decidiram aproveitar a noite e conhecer a cidade. Implacavelmente, foram seguidos por paparazzis, que os haviam descoberto. E, ao que se conta, tudo aconteceu no espaço de um flash. Farto de ser fotografado, Baker pediu que parassem. Mas Celio Scarpin, possivelmente o mais obstinado dos perseguidores, continuou a disparar. Com o estopim curto já estourado, Joe o socou e empurrou contra o as barreiras do Grand Canal.

Law tentou apartar, mas aquilo virou notícia. Os cliques haviam sido muitos. Cansado das constantes mostras de indisciplina de seu atacante, o treinador argentino Benjamín Santos tirou Baker da relação de jogadores que entraram em campo no dia seguinte. E esse não foi o pior momento da dupla em sua passagem pelo Bel Paese.

Cerca de um mês depois, em 7 de fevereiro, conforme conta John Foot, em Winning at All Costs: A Scandalous History of Italian Soccer, Baker pegou seu mais novo carro — um Alfa Romeo Giulietta Sprint — e, junto a Law e seu irmão Joseph, caiu na farra. Relata-se que, no jantar, tomaram vinho Barolo. E, nas duas boates que se seguiram, enfiaram a cara em Whisky com Coca-Cola. Na saída, dirigindo em alta velocidade, Baker entrou pelo lado errado e tentou fazer uma rotatória sem frear.

Denis Law Joe Baker La Stampa
Foto: La Stampa

O carro capotou. 

No local, ficava exposta a estátua do herói nacional Giuseppe Garibaldi. Enquanto a imprensa preencheu páginas a criticar a conduta dos estrangeiros e a dizer que os atacantes não conseguiram driblar Garibaldi, Baker passou mais de um mês no hospital, tratando severas fraturas no rosto. Por sua vez, Law escapou com escoriações e seu irmão praticamente intacto. Certo é que nem no hospital Baker ficou livre dos paparazzi, que tiravam fotos nas menores oportunidades e passaram a importunar também os membros de sua família — além da namorada, Sonia —, que haviam chegado de Motherwell. 

O periódico La Stampa teria relatado que “Joe Baker e Denis Law, jogadores do Torino, arriscaram perder suas vidas em um acidente de carro, na manhã de ontem. Os dois jogadores ingleses [sic], que já vinham provocando graves preocupações ao clube Granata, com seu comportamento indisciplinado, descobriram a velocidade do carro esportivo comprado horas antes pelo centroavante”.

Law seguiu atuando até o final da temporada, mas sua forma caiu drasticamente. Não voltou a marcar um gol sequer. Dizia-se que estava com a cabeça longe dali, o que teria sido confirmado mediante um pedido de transferência. Baker não vestiu mais o uniforme grená. Ao final da temporada, ambos voltaram para o Reino Unido. Baker firmou com o Arsenal e Law fechou com o United, iniciando ali uma nova e brilhante história. 

Denis Law Manchester United
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Mas, antes disso, um último acontecimento. Ciente de que o Torino desejava se desfazer de Denis, Gianni Agnelli, presidente da Juventus, fez menção de buscar sua contratação. Segundo se conta, torcedores do Toro buscaram o atacante em casa e o levaram ao aeroporto com uma passagem só de ida para Aberdeen, sua cidade natal, evitando sua assinatura com a grande rival. Há quem diga que a iniciativa foi do próprio jogador, decidido a retornar às Ilhas Britânicas. O fato é que ele nunca vestiu a camisa dos bianconeri, mas se tornou um gigante da história do Manchester United.

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