Quando Paulo Sousa desafiou a Juventus e riu por último

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Quando Paulo Sousa desafiou a Juventus e riu por último

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Dia 22 de maio de 1996. Paulo Sousa sobe ao terreno do estádio Olímpico de Roma para a disputa de um desafio importante. A Juventus, clube que representava na ocasião, enfrentava o Ajax. Era a final da Liga dos Campeões da Europa e os italianos precisavam superar o campeão vigente. O português acabaria substituído no minuto 57. O placar, 1 a 1, não mudaria e ele veria do banco a disputa de pênaltis. O título veio. Ele foi. Sorte do Borussia Dortmund.


Paulo Sousa Dortmund Borussia


Peça importante da Juve


Paulo Sousa foi membro de uma das mais importantes gerações de jogadores de Portugal. Ele não chegou a fazer parte da equipe campeã mundial sub-20, em 1991, com Rui Costa e Luís Figo. No entanto, esteve presente na campanha igualmente vitoriosa de dois anos antes. Do Benfica, em que foi revelado, seguiria rumo ao Sporting, numa transferência polêmica, em meio à crise financeira que assolou o estádio da Luz. Logo, partiria para a Itália.


Em meados de 1994, ele já tinha em Turim sua morada. A Juventus não hesitou ao pagar um valor a rondar o milhão de contos (cerca de 10 milhões de dólares), pelo jovem que se destacava pela consistência, qualidade com a bola nos pés e boa visão de jogo. Curiosamente, Roma e Cagliari apareceram, inicialmente, como possíveis destinos. As coisas rapidamente saíram melhor do que a encomenda. 

De cara, a Vecchia Signora pôs fim — com sobras — ao jejum de títulos italianos. Em 1994-95, a Juve superou uma espera de nove anos, somando 10 pontos a mais do que a vice-campeã Lazio. Paulo Sousa foi parte integral desse sucesso, disputando 26 das 34 partidas do certame. Todas como titular. O êxito se estendeu à Coppa Italia, confirmando uma dobradinha alvinegra. E poderia ter sido ainda melhor, já que os italianos chegaram à final da Copa da Uefa, perdendo para o Parma.

Paulo Sousa Juventus
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo
Paulo Sousa só não disputou ainda mais jogos por conta de pequenos problemas físicos e convocações para a seleção de Portugal. E essa foi a mesma toada da temporada seguinte. O scudetto não foi renovado, mas os Alpes Italianos estiveram no centro da cena continental, presenciando vitórias importantes contra equipes do porte de Rangers, Real Madrid e Nantes. O português chegou até a marcar um tento, nas semifinais contra o time francês. Então, a final.

Já acumulando 36 partidas na temporada, 34 desde o início, Sousa subiu ao gramado do Olímpico de Roma, para a famosa final europeia contra o Ajax. Depois, com a vitória na mala, voltou para casa, que não lhe serviria de lar por muito tempo.

A oportunidade de se provar


Em meados de 1996, já se sabia que Paulo Sousa sofria problemas na patela de um de seus joelhos. A Juventus não confiava que o português, mesmo com apenas 26 anos, conseguiria manter seu melhor nível e preferiu negociá-lo. O Dortmund apareceu na rota do jogador, mas apenas como um plano de uma temporada. Ele queria provar o erro da Vecchia Signora e depois retornar ao Bel Paese. 

E não foi pouco ambicioso em sua chegada ao Westfalenstadion. 

Logo, disparou: esperava que os aurinegros disputassem o título da Liga dos Campeões. Queria renovar o título europeu. Para levar a cabo esse plano, contava com a inteligência tática do treinador Ottmar Hitzfeld e a parceria de Paul Lambert e Andreas Moller no meio de campo. Aquele era um trio equilibrado: tinha força, bom passe e habilidade.

“Naquele momento, todos pensaram que eu estava louco [de colocar o Dortmund como candidato ao título europeu]. Mas eu estava realmente convencido de que aconteceria”, contou Paulo Sousa aos britânicos da BBC, em 2013.


Já muito experiente, o time alemão foi colocando as dúvidas por terra, passo a passo. Sem Paulo Sousa, que, de fato, conviveu com problemas físicos, superou a fase de grupos. Com o português de volta nos mata-matas, o Dortmund bateu o Auxerre por duas vezes, o que se repetiu adiante, contra o Manchester United (em que pese a ausência de Sousa no jogo de volta). Fora da luta pela renovação do título da Bundesliga, sobrava a busca da inédita conquista europeia.

Que time poderia ser melhor para Sousa confirmar sua convicção a respeito de sua competência senão a Juventus? No dia 28 de maio de 1997, em Munique, a Alemanha presenciou um encontro em que a consistência aurinegra foi superior ao talento italiano. Lambert garantiu que Zinedine Zidane participasse pouco do jogo, enquanto Paulo Sousa ditou o ritmo da partida, jogando o encontro todo. O 3 a 1 para o Dortmund acabou sendo um resultado adequado ante o que se viu.

Riu melhor quem acreditou


Repetindo o feito de Marcel Desailly — bicampeão consecutivamente, primeiro com o Olympique de Marseille, e depois no Milan —, Paulo Sousa levantou a orelhuda mais uma vez. “Naquele momento [fim da temporada 1995-96], diferentes médicos me disseram que eu provavelmente teria que parar de jogar por causa da minha lesão, dizendo que eu não estaria no mesmo nível. Mas a determinação para superar isso, a mentalidade germânica, a cultura e até a temperatura me permitiram alcançar meu melhor nível de futebol com o Dortmund”, falou à BBC.

O português não ficaria muito mais tempo na Alemanha. Na metade da temporada 1997-98, concretizaria seu plano. Depois de ajudar o Dortmund a vencer o Intercontinental, contra o Cruzeiro, seguiu para a Internazionale. No entanto, a questão de sua saída da Juventus para o Borussia não morreu com a conquista.

Paulo Sousa Donizete Dortmund Cruzeiro
Foto: Matthew Ashton/Empics/Getty/Arte: O Futebólogo

“Por que eles me venderam? Porque não acreditavam mais na minha qualidade [...] Eles tomaram a decisão errada, já que um ano depois os venci [...] E aquela não foi a única vez! Mais tarde, os venci outra vez pelo Panathinaikos!”, falou ao Goal.com, em 2009. 


“Em termos individuais, o melhor poderia ter sido ficar na Juventus, porque ia para o meu último ano de contrato, ficaria livre para tomar todas as decisões que quisesse, mas gosto de estar onde as pessoas demonstrem muito que me querem. Foi nesse sentido”, completou em entrevista à Tribuna Expresso, dez anos mais tarde.

A bem da verdade, os problemas crônicos de Paulo Sousa o perseguiram até o fim de seus dias nos gramados. Depois da campanha de 1997-98, atuou pouco e costumava ser substituído ou entrar como suplente. Em julho de 2002, após a malfadada Copa do Mundo portuguesa, o meia anunciou sua aposentadoria: “Sinto dor por conta das sucessivas lesões, que têm me impedido de praticar regularmente minha atividade profissional”, anunciou em um comunicado da Federação Portuguesa de Futebol.

Da Inter, o lusitano foi emprestado ao Parma, antes de partir para a Grécia, representando o Panathinaikos por duas temporadas. Seu último clube foi o Espanyol, de Barcelona, e seu caso parece mesmo indicar o que um homem determinado a provar seu valor é capaz de fazer. Paulo deixou um clube campeão europeu e no ano seguinte voltou ao lugar mais alto do pódio, batendo aquele que costumava lhe pagar. Se o custo desse esforço foi o restante de sua carreira não se pode dizer. Mas Paulo Sousa tinha um ponto a provar e o fez com maestria.

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