A República Tcheca que parou no gol de ouro na Euro 1996

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A República Tcheca que parou no gol de ouro na Euro 1996

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O futebol apenas começava a se adaptar às profundas mudanças trazidas pelo Acórdão Bosman. Isso quer dizer que a Europa ainda preservava um senso de equilíbrio no futebol de clubes. Claro, os times mais ricos do continente sempre exerceram alguma hegemonia, mas ela não se apresentava tão poderosa. Tal se refletia nas seleções. Foi esse o contexto da brilhante campanha da República Tcheca na Euro 1996. Era um time jovem, com muito a provar, e composto por 15 jogadores locais.

Czech Republic Russia Euro 1996
Foto: Popperfoto/Getty-Images/Arte: O Futebólogo


O frescor da juventude


Fazia seis anos, ou duas competições, que os tchecos não se viam representados nos maiores torneios de seleções. Da Copa do Mundo de 1990, ainda como Tchecoslováquia, o país avançou a duas ausências, na Euro 1992 e no Mundial de 1994. E, quando se desenhou o certame continental de 1996, o time já não continha quase nada em comum com aquele que viajou à Itália, meia dúzia de anos antes.

Os únicos remanescentes eram os defensores Miroslav Kadlec e Lubos Kubik, os meio-campistas Jiri Nemec e Vaclav Nemecek — antes um garoto e agora o capitão do time —, e o atacante Stanislav Griga. Em seis anos, aconteceram 17 mudanças. E um time experiente, em que apenas quatro jogadores possuíam menos de 10 internacionalizações, deu lugar a outro, em que 10 peças não haviam alcançado a mesma marca.

Vinha chegando a hora de revelar ao continente as qualidades de jogadores como Pavel Nedved, Karel Poborsky e Vladimir Smicer. O primeiro era jogador do Sparta Praga, enquanto os outros militavam em seu grande rival, o Slavia. Outros jovens ainda ganhavam mais reconhecimento no cenário internacional, casos de Patrik Berger, meia do Borussia Dortmund, e Radek Bejbl, outro meio-campista do Slavia Praga.

Nedved Sparta Prague
Foto: Reprodução Twitter @FootballHistory/Arte: O Futebólogo
Aquele momento, em especial, ainda possuía um componente a mais para os tchecos. Em 1995-96, o país não havia conseguido se manter entre as melhores 24 nações do continente europeu, no coeficiente da UEFA. Isso significa que a seleção que viajou à Inglaterra para a disputa da Euro não tinha tido qualquer representante na Liga dos Campeões da temporada que acabara de ser encerrada.

Contudo, o país mostrara suas credenciais na Copa da Uefa. O Sparta Praga superou três fases, antes de cair perante o Milan, de George Weah. Já o Slavia alcançou as semifinais, caindo, enfim, ante o Bordeaux, com duas derrotas marginais por 1 a 0.

Força nas eliminatórias e na fase de grupos


O Grupo 5 das eliminatórias para a Euro não era particularmente desafiador, mas os tchecos não eram favoritos. A Holanda era sugerida como a principal força, enquanto se esperava que a Noruega competisse bravamente por um lugar na competição continental. Reconhecidamente, Belarus, Luxemburgo e Malta era rivais que tchecos, holandeses e noruegueses deveriam superar sem maiores dificuldades.

Apesar disso, os tchecos não deram moleza para ninguém. Fizeram o dever de casa, vencendo todas as partidas disputadas na condição de anfitriã. Ostrava e Praga foram lugares hostis para os adversários. Ademais, conquanto o empate sem gols na visita a Ta' Qali, em Malta, tenha sido um resultado inesperado, a República Tcheca conseguiu frear a Holanda, na viagem a Roterdã, em outro 0 a 0, e também parou a Noruega, em Oslo, 1 a 1. O pior resultado viria, insolitamente, em Luxemburgo, derrota por 1 a 0.


A classificação veio de forma direta. Líderes do Grupo 5, somando um ponto a mais que Holanda e Noruega, os tchecos garantiram a viagem à Inglaterra. E, quando o sorteio da primeira fase foi realizado, ficou claro que as dificuldades seriam imensas. Para superar o Grupo C, a equipe teria que deixar pelo caminho seis títulos mundiais, três da Itália e outros três da Alemanha. E, além disso, precisaria ser superior à Rússia. Estava no grupo da morte.

A classificação veio com valentia e na conta do chá. Perder para a Alemanha na estreia, na casa do Manchester United, o estádio Old Trafford, não fez nenhum favor aos tchecos — embora não fosse um resultado inesperado. E foi na fortaleza do maior rival do United que a República Tcheca consumou o avanço.

Em Anfield Road, lar do Liverpool, ganhou da Itália: 2 a 1, tentos de Nedved e Bejbl. No mesmo estádio, um empate maluco contra a Rússia, 3 a 3, buscado aos ‘88, garantiu passagem. Empatados em pontos com os italianos, os tchecos avançaram no critério do confronto direto. A vitória contra a Azzurra assegurou a passagem aos mata-matas.

Czech Republic Russia Anfield Road Poborsky
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Tudo contadinho, mas suficiente


Com uma variação tática que pode ser descrita como um 3-4-2-1, com os jogadores muito próximos, a República Tcheca montou uma forte barreira para seus rivais. Sem Nedved, suspenso, o primeiro desafio das fases finais foi contra uma geração de ouro de Portugal. O país teria que parar um meio-campo que apresentava Luís Figo, Rui Costa, Paulo Sousa e Oceano.

“Nosso time era composto por uma boa defesa, porque todo time na condição de zebra tem que confiar nisso. Havia também uma questão de autoconfiança: no começo [da competição], tivemos um problema com isso. Porém, tínhamos alguns jogadores poderosos defensivamente e outros muito técnicos, que rapidamente entraram em grande forma e no melhor estado mental [...] Alguns deles meio que começaram suas carreiras ali”, lembrou o capitão Vaclav Nemecek, ao Independent, em 2019.

O treinador tcheco, Dusan Uhrin, escolheu um de seus reservas mais assíduos para substituir Nedved. A opção por Smicer ocasionou a realocação de alguns jogadores, mas premiou o autor do gol tardio contra os russos. E a classificação veio em um dos vários momentos mágicos daquele torneio. Aos 53 minutos, Poborsky escapou de dois marcadores — e contou com a sorte —, antes de cavar a bola da entrada da área, colocando-a longe do alcance do goleiro Vítor Baía.


“Sempre gostei de finalizar com técnica ao invés de força [...] Baía estava muito longe da sua linha, então isso era a coisa mais fácil a se fazer. Quase fiz isso excessivamente bem. A bola foi muito alta, por um momento achei que não entraria na rede, mas entrou”, recordou Poborsky ao site oficial da UEFA.

O 1 a 0 se manteve no placar até o fim. Classificada, a República Tcheca enfrentaria a França, que ensaiava para o Mundial de 1998, que sediaria. Agora, foram Radoslav Latal, expulso, e Jan Suchoparek, suspenso pelo segundo amarelo, que desfalcaram o time. Nedved voltou e Smicer foi mantido. E os tchecos se aguentaram até o final. Não foram vazados, mas também não anotaram qualquer gol. 

Coube às penalidades, já nas cobranças alternadas, decretar o destino daquela partida semifinal. Impecáveis, os cinco primeiros cobradores dos dois países marcaram. Então, Reynald Pedros parou no goleiro Petr Kouba. E Kadlec colocou seu país na final. Exigente, a outra partida semifinal também só encontrou vencedor nos pênaltis. A Alemanha bateu a anfitriã Inglaterra e obrigou os tchecos a um reencontro.


O resgate de Oliver Bierhoff e o gol de ouro


Curiosamente, a Alemanha se apresentou à decisão com dois desfalques importantes, por efeito do primeiro jogo contra a República Tcheca. Na semifinal contra os ingleses, Stefan Reuter e Andreas Möller receberam cartões amarelos que, somados aos obtidos naquela vitória ante os tchecos, os sentenciou a presenciar a final do lado de fora. Os tchecos também foram sem uma importante referência: o capitão Vaclav Nemecek, que vinha sofrendo com problemas físicos.

Era a repetição da final europeia de 1976. Vinte anos antes, liderados por Antonín Panenka e Zdenez Nehoda, os tchecos haviam vencido a Alemanha, em Belgrado, mas apenas nas penalidades máximas, após empate no tempo normal e na prorrogação. Na Inglaterra, mais especificamente em Wembley, uma vez mais os rivais não conseguiram confirmar um vencedor nos noventa minutos regulamentares.

Depois de um ótimo trabalho de pivô de Pavel Kuka, Poborsky foi derrubado dentro da área germânica. Aos 59 minutos, com a perna canhota, Berger bateu o goleiro Andreas Kopke, convertendo a penalidade e colocando os tchecos em vantagem. Porém, 10 minutos mais tarde, o treinador alemão, Berti Vogts, apostou em mais poder de fogo. Sacou o meia Mehmet Scholl e lançou o grandalhão Oliver Bierhoff. Quatro minutos mais tarde, foi recompensado. Christian Ziege cobrou falta pela faixa direita do campo de ataque alemão, na cabeça do centroavante.


Assim terminaram os 90 minutos, com igualdade no placar, 1 a 1. Mas aquela noite não terminaria como duas décadas antes. Um homem estava predestinado a determinar os rumos daquele jogo com a bola rolando e se beneficiando das regras vigentes. 

Aos 95’, um lançamento da retaguarda alemã chegou a Bierhoff que fez perfeito trabalho de pivô para Jürgen Klinsmann. O capitão da Mannschaft cruzou a bola de volta para o companheiro, que girou sobre seu marcador — Kadlec — antes de chutar forte de esquerda. A bola desviou em Michal Hornak, dificultando a defesa de Kouba, que chegou a tocar o esférico antes de oferecer um olhar vazio para frente, conforme as redes balançavam. Era o gol de ouro de Bierhoff, que correu para a torcida já tirando a camisa. A Alemanha era campeã.

Czech Republic Germany 1996 Nedved
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo
Conforme narrou o NY Times, pouca gente viu que a bandeira do auxiliar, o italiano Donato Nicoletti, estava erguida. E, quando o treinador tcheco começou a apontar desesperadamente para o oficial, ele abaixou seu instrumento de trabalho, em confissão de dúvida. Stefan Kuntz estava em posição irregular, mas, segundo o árbitro, Pierluigi Pairetto, não havia interferido no lance, que seria legal. 

“É difícil dizer se o resultado é justo”, falou o comandante tcheco ao final da partida.

A derrota foi um desfecho doloroso para aquele time. Mas sua grandeza foi reconhecida. Poborsky, eleito o melhor em campo da final, fechou com o Manchester United, na sequência. Nedved seguiu para a Lazio; Bejbl para o Atlético de Madrid; Berger para o Liverpool; e Smicer rumou ao Lens, de onde sairia mais tarde, também para o Liverpool.

Contudo, os tchecos não conseguiram disputar os Mundiais de 1998 e 2002. Só voltaram a brilhar na Euro de 2004, ainda com algumas estrelas de 1996, e com novos jovens de muita qualidade, como Tomas Rosicky e Petr Cech. Depois, o país acabou entrando em um longo período de estagnação, que segundo o jornalista James Stafford, justifica-se no fato de que, no pós-Acórdão Bosman, os jovens tchecos deixam o país muito cedo e se tornam apenas atletas que compõem elencos em seus times estrangeiros, não desenvolvendo seu potencial. Mas essas são histórias para uma outra hora.

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