Gérson: o artilheiro que foi dos braços do povo ao abandono

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Gérson: o artilheiro que foi dos braços do povo ao abandono

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Era o mês de setembro de 1985 quando a revista Placar estampou uma foto do craque Reinaldo em sua capa. Então, vestia a camisa do Palmeiras. Aquela edição do periódico fazia previsões acerca do que os torcedores do alviverde poderiam esperar do centroavante mineiro. Porém, o Rei não foi o único artilheiro a receber holofotes naquela edição. Algumas páginas adentro, a publicação ressaltava os feitos do “goleador de Tbilisi”. Era um tal Gérson, da periferia de Santos e jovem centroavante do Guarani.

Gerson Internacional
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Da Vila Belmiro à Rússia


Parecia que as categorias de base do Santos haviam produzido um novo Juary, garantindo também que Serginho seria devidamente substituído, quando decidisse pendurar as chuteiras. Com tino para o gol e um bigode protuberante, Gérson não demorou a chamar atenção. Da artilharia do grande laboratório em que se testam os jovens futebolistas brasileiros — a Copa São Paulo de Juniores —, o santista partiu para uma carreira promissora. O gol estava no sangue daquele sobrinho de Baltazar, ídolo do Corinthians, nos anos 1950.

Não bastasse o fato de o Peixe ter conquistado o torneio de jovens, no ano de 1984, Gérson foi o artilheiro do certame, com oito gols. Um deles na dura final contra o Corinthians — “aos 18 minutos do primeiro tempo, depois de Amauri cobrar uma falta”, como narrou a Folha de São Paulo. Apesar disso, o santista não permaneceria muito tempo na Vila Belmiro, tendo feito poucos jogos, a maioria na Copa Libertadores de 1984.

Chegando aos 20 anos, mudou-se para Campinas, onde permaneceu, por pouco tempo, vestindo a camisa do Guarani. No Bugre, marcaria alguns golzinhos, como numa goleada por 6 a 1 ante o CSA, mas não desabrocharia. A concorrência não era fraca. Aquele time contava em seus quadros com os atacantes Edmar e Evair, sem falar nas figuras de Neto e João Paulo.

Placar 1985 Gerson
Foto: Placar

Apesar disso, suas qualidades não deixaram de ser notadas em momento algum. O centroavante foi um dos destaques da Canarinho que disputou o Mundial de Juniores, em 1985. Ladeado por promessas como Müller, Silas e Taffarel, o atacante foi um dos artilheiros do certame sediado na União Soviética, registrando três gols. Todos eles anotados contra a Colômbia, nas quartas de finais.

Por conta desses feitos, aquela edição de Placar foi forçada a destacar seus talentos, celebrados aos gritos de spasibo, “obrigado”, em russo. Depois da partida contra os colombianos, Gérson foi saudado pelos torcedores de Tbilisi, a sede do encontro, respondendo: “Já sou popular por aqui. Imagine quando sair de Leningrado [onde foi disputada a semifinal] para Moscou, na final: vou ter de ficar repetindo spasibo a cada segundo”, segundo registrou a referida revista.

Brasil 1985
Foto: Placar/Arte: O Futebólogo

Troca de Galo


Depois de um breve e infrutífero retorno ao Santos, Gerson passou dois anos em Jundiaí, representando o Paulista. Aquele não foi um período propriamente auspicioso para o Galo da Japi, rebaixado do Paulistão, em 1986. Ainda assim, o centroavante conseguiu ser suficientemente exitoso para chamar a atenção de outro Galo, destacando-se nas disputas da Série A2 do estadual. Em 1988, o Atlético contratou o goleador, que não tardou a recompensar a confiança dos mineiros.

Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Sua estreia aconteceu no final do ano, em um jogo do Brasileirão, contra o Internacional. Aquele foi um campeonato com uma fórmula curiosa. Não existiam empates. Caso os 90 minutos terminassem com igualdade no placar, cada equipe levava um ponto e um terceiro era decidido nos pênaltis, naquela ocasião vencidos pelo Colorado. Estava claro que o alvinegro precisava de um homem-gol: seu artilheiro naquele torneio foi o meia Renato, com oito tentos.

Logo na primeira edição da Copa do Brasil, em 1989, Gérson foi o artilheiro. Apesar de o Galo só ter avançado até as quartas de finais, sucumbindo ante o Goiás, o matador deixou sua marca sete vezes. Tal se repetiria dois anos mais tarde, em 1991. Nesse turno, a campanha foi ainda pior, com a eliminação para o Criciúma nas oitavas, o que só serve para amplificar os feitos do homem da Baixada Santista. Ele anotou seis vezes na primeira fase, que eternizou a maior goleada da história da competição: Atlético 11 a 0 no modesto Caiçara, do Piauí.


Gérson fez um total de 149 jogos pelos mineiros, balançando as redes 92 vezes. A marca lhe confere o 22º lugar no rol dos que mais vezes marcaram pelo Atlético. Seu repertório era grande; ele fez gols de todos os tipos. De cabeça, com as duas pernas, em velocidade, empurrando a bola, aplicando um ou dois dribles e, claro, de pênalti. Era o batedor oficial.

Além disso, em um bom momento alvinegro, que contou com jogadores com o ponta Sérgio Araújo e o meia Marquinhos, grande amigo do atacante, ele ainda participou das campanhas de título estadual, em 89 e 91. Na primeira destas edições, Gérson foi o artilheiro máximo, com 19 gols. Ele venceu também um Torneio Ramón de Carranza. Nesse período, ademais, ganharia convocações à Seleção Brasileira de Sebastião Lazaroni, para a disputa do Torneio do Centenário da Federação Dinamarquesa de Futebol.

Atlético Mineiro 1989
Foto: Placar/Arte: O Futebólogo

Apesar de tudo isso, uma desempenho abaixo da média nas semifinais do Brasileirão de 1991 azedou sua relação com a torcida atleticana, que passou a o taxar como “cachaceiro”. Era a hora de mudar de ares.

Não bastou ser capitão do Colorado e rei da Copa do Brasil


Em setembro de 1991, Gérson acertou sua transferência para o Internacional, para um recomeço. Custou 200 mil dólares e o passe do meia Edu Lima. Tinha 26 anos e muita lenha para queimar. Foi no Colorado que viveu o melhor e o pior momentos de sua trajetória. O atacante não tardou a se tornar capitão do time e, apesar de não ter conseguido uma campanha boa no Brasileirão de 1992, o Inter logo conquistou um grande prêmio.

Atuando em um time que revelava as qualidades de gente como Caíco, tinha peças como Célio Silva e Silas em grande fase, e oferecera um reencontro com Marquinhos, o meia que cansara de o consagrar no Galo, Gérson brilhou na Copa do Brasil de 1992. 

Mais uma vez, foi o artilheiro do certame, agora com nove gols. Só que, dessa vez, o troféu também veio. E o goleador brilhou em grandes momentos, como nas quartas de finais, marcadas por um acirrado Gre-Nal. Com esse feito, o matador se tornou o único jogador a ser artilheiro da competição três vezes, consolidando um total de 23 gols.

Internacional Copa do Brasil 1992
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Apesar disso, um problema gravíssimo já vinha sendo enfrentado nos bastidores. Segundo a revista Placar, em 27 de março de 1992, Gérson foi submetido a um exame de sangue. No dia 7 de abril, o treinador Antônio Lopes foi informado do resultado. Uma contraprova também havia sido feita. Aquilo estava mesmo acontecendo, por mais que se tentasse ocultar de várias formas, inclusive sugerindo-se que o atacante tinha caxumba. Nos bastidores, cresciam os murmúrios de que Gérson carregava o vírus do HIV em suas veias.

As especulações logo ganharam ares de verdade quando o diretor do clube, Romeu Masiero, foi à imprensa dizer que o jogador era soropositivo, antes de o próprio dirigente pedir demissão. Tal realidade foi negada por todos, inclusive o atleta e sua família. A bem da verdade, Gérson nunca afirmou estar doente, jogando até 1993. Ou seja, o atacante liderou o Inter à conquista da Copa do Brasil, mesmo carregando o peso do mundo em seus ombros. Também venceu o Gauchão daquele ano.


“Procurei tranquilizar. Dei o exemplo do Magic Johnson, que também enfrentou o problema e jogou”, contou Lopes ao Globo Esporte, anos mais tarde. Como contou Felipe Prestes, no Puntero Izquierdo, meios de comunicação, como o Zero Hora e a revista Veja, tentaram informar o público a respeito da Aids, que tanta tormenta e desinformação vinha trazendo nos anos 1980 e 90.

Em que pese todo o alarme iniciado em 1992, a negativa constante e o tabu conseguiram suprimir o boato. Seus companheiros garantem que não sabiam bem o que acontecia. “A gente não sabia da doença. Ele sofreu sozinho”, disse o ponta Maurício, ao GE. “Ninguém sabia que ele estava doente. Só soubemos em 93. Ele era nosso capitão, o líder da equipe. Assumia as coisas dentro de campo, falava, brigava e orientava. Fora de campo, era quem tomava a palavra para falar com direção e treinador”, corroborou o zagueiro Pinga.

Correio do Povo Gerson 1992
Foto: Correio do Povo

Os companheiros não sabiam. Exceto Silas. “Ele me pedia para levá-lo na clínica para tomar o medicamento, que era o AZT, mas ele não falava nada, e eu também não, era aquele silêncio, né... Silêncio de irmão”, disse o antigo meia, em entrevista à ESPN. Feroz, a doença foi mais forte que sua coragem e acabou consumindo seu corpo. Em março de 1994, ele foi internado com neurotoxoplasmose, a causa oficial de sua morte, dois meses mais tarde. Tinha 28 anos.


Dispensado pelo Internacional desde o fim de 1993, Gérson viu várias pessoas tentarem ajudar, arrecadar fundos, mas não resistiu no dia 17 de maio. Deixou duas filhas e a esposa grávida. Sua terceira menina, nascida três dias depois do óbito, nunca pôde conhecê-lo. “A vida acabou para ele não foi quando ele morreu, mas foi quando ele foi abandonado, pelos amigos, pelo clube, ali acabou o Gérson da Silva, centroavante”, disse a esposa Andréa, também à ESPN.

Nunca se chegou a uma conclusão cabal sobre sua condição de soropositivo, se era real, ou não. A maior parte dos relatos indica que a violência da toxoplasmose se deu em razão de uma imunossupressão. O fato é que Gérson foi rapidamente dos braços do povo à solidão. E ao esquecimento que condena aqueles que estiveram no centro de uma discussão importante, mas que ninguém quer ter. Algo que nem as alegrias proporcionadas a duas das maiores massas associativas do Brasil conseguiu aplacar.

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