O Internacional que pintou o Brasil de vermelho em 1975 e 1976

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O Internacional que pintou o Brasil de vermelho em 1975 e 1976

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“Parece que a turma está compreendendo tudo direitinho. Se eu faço questão de lembrar essas coisas, não é com o sentido de criticar ninguém, mas de obter mais união, mais cabeça. Qualquer tropeço, qualquer bobagem, nos custará muito caro daqui em diante”. A fala é de Rubens Minelli, reproduzida pela revista Placar. O ano era 1975, e o Internacional, com um grande elenco, arrancava como favorito ao título do Campeonato Brasileiro. Porém, naquele momento, havia experimentado tropeços inesperados. Ficava claro que seria necessário superar os próprios nervos.

Internacional 1975
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Levando a hegemonia estadual para o país


Em 1975, o Internacional sustentava um heptacampeonato estadual. Desde 1969, ninguém mais havia feito ecoar o grito de campeão pelos pampas gaúchos. Em termos de futebol nacional, a força do Colorado também vinha ficando evidente. Nos campeonatos de 1972, 1973 e 1974, o time havia terminado o Brasileirão entre os quatro primeiros colocados. O Inter vinha, sistematicamente, batendo na trave e se impondo, a cada ano, uma pressão maior.

Desde 74, o Colorado era treinado por Rubens Minelli, que vinha do Rio Preto, mas carregava no currículo o troféu do Robertão de 1969. Era, pois, perfeitamente aceitável a convivência com alguma pressão. Na casamata, havia um comandante que vencera no passado. Além disso, em cada setor do time que chegou ao Brasileiro de 75, existiam figuras imponentes. 

Contudo, os fantasmas eram reais, por mais que se tentasse dizer que não — como o fez Elías Figueroa, o comandante da retaguarda Colorada:

“Não há nada disso. A torcida é que se impressiona demais e exterioriza seus temores. Aqui, ninguém está a fim de usar salto alto. O que a turma quer é guerra”, falou à Placar.

E o Inter foi à guerra.

Rubens Minelli
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo

Manga, Cláudio, Figueroa, Hermínio e Vacaria costumavam formar a primeira linha defensiva. Caçapava, Falcão e Paulo César Carpegiani sustentavam a retaguarda, construíam e chegavam para marcar gols. Valdomiro, Flávio e Lula — ou Escurinho — faziam os necessários gols e, vez ou outra, proporcionavam lances que deleitavam o torcedor Colorado. Era um time firme lá atrás, forte na recuperação de bolas e nas transições, e letal na frente.

Com essa base, o Inter deixou claro já na primeira fase do Brasileirão que não estava para brincadeiras.

Foram oito vitórias, dois empates e apenas uma derrota no Grupo D. O maior número de pontos, dentre todos os grupos, e, com sobras, o ataque mais prolífico. E, ainda assim, havia temor e dúvidas. Exigente, a torcida do Saci começou, até mesmo, a vaiar o time quando as goleadas não saíam, sendo advertida por Minelli no começo da segunda fase: 

“A torcida tem que se convencer de que, daqui para frente, goleada vai ser uma exceção”.

Duelando contra duas máquinas


O Inter voltou a liderar na segunda fase: somou 19 pontos no Grupo 2, consumando cinco vitórias, quatro empates e uma derrota. Foi, desta feita, seguido de perto pelo Santa Cruz. E o time pernambucano acabaria sendo, justamente, o responsável pelo segundo lugar do Colorado na terceira fase. 

Mesmo com a classificação às semifinais assegurada, o temor de um novo insucesso era real. Chegar entre os quatro melhores não era novidade. O poder do Fluminense, sim, era algo diferente em relação aos últimos anos.

Impulsionado pela presença de campeões mundiais como Félix, Paulo César Caju, Carlos Alberto Torres e Rivellino, o Flu vinha impressionando. A Máquina Tricolor entregou um senhor desafio ao Inter, também porque, como líder do Grupo A, recebeu a vantagem de jogar a semifinal em casa.

Em pleno Maracanã, mais de 97 mil pessoas viram Lula e Carpegiani colocarem o Internacional na final do Brasileirão. Agora, sim, estava-se diante de um fato novo: Colorado na final. O adversário seria o Cruzeiro, o vice de 1974, que perdera para o Vasco da Gama, em uma decisão recheada de polêmica. Para dar a dimensão do tamanho do desafio dos gaúchos, basta dizer que a raposa contava com o talento de gente como Nelinho, Piazza, Palhinha e Joãozinho. 

Internacional Cruzeiro 1975
Foto: Canal 100/Arte: O Futebólogo

Se o Inter havia perdido o direito de jogar a semifinal em casa por conta de sua campanha na terceira fase, o fato de ter somado mais pontos que os mineiros na dita fase levou a decisão para o Beira Rio. E, na hora do aperto, impôs-se o capitão: de cabeça, Figueroa marcou o gol da libertação vermelha. Há quem diga que o chileno cabeceou a bola iluminado pelo último feixe de luz solar que sobrara no Beira Rio.

Quem também passou à eternidade naquele 1975 foi Flávio. O goleador do Inter foi o artilheiro máximo da competição, com 16 gols. Com justiça, o Colorado fez a capa da edição 299 de Placar: “É o Inter”.


Onde passa um boi, passa uma boiada


Sobe a placa de substituições. Saem Hermínio, Carpegiani e Flávio. Entram Marinho Peres, Batista e Dario. Essas foram as principais diferenças entre os times do Colorado de 1975 e 1976. Outra vez, o Inter entrou no Campeonato Brasileiro carregando na mala a taça de campeão gaúcho. Vencidos velhos fantasmas, o time tinha no octa estadual a motivação necessária para brigar pelo bi nacional.

“Eu tinha uma defesa muito técnica. O Cláudio, na lateral direita, era extremamente técnico. O Vacaria, na esquerda, tinha jogado no ataque e tinha muita habilidade para avançar. Figueroa e Marinho Peres tinham muita qualidade. O que falar do meio-de-campo, que tinha Caçapava, Falcão, Carpegiani e Batista? Os pontas [Valdomiro e Lula] eram rápidos e dribladores. O centroavante, Flávio ou Dario, só tinha o trabalho de se posicionar para colocar a bola para dentro”, lembrou Minelli também à Placar, anos mais tarde, em 2005.
Internacional Falcão Atlético Mineiro 1976
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Novamente, o Inter voou na primeira fase. Dos oito jogos disputados, venceu sete, saindo derrotado apenas uma vez, liderando o Grupo A e marcando superlativos 25 gols. Na segunda, também encabeçou a tabela do Grupo G — fato que se repetiu na terceira fase, com o primeiro lugar do Grupo Q. 

Agora, a semifinal foi disputada no Beira Rio. E o Atlético Mineiro vendeu caríssima a derrota, em um confronto que teve ares de final antecipada.

Vantuir abriu a contagem para o Galo, que apresentava o frescor da juventude de Toninho Cerezo, Paulo Isidoro e Reinaldo. A vantagem foi sustentada até o minuto 73. Batista resgatou o Colorado, anotando o 1 a 1. E coube a ele, Falcão, decretar o avanço do Inter, com um gol antológico, fruto de uma troca de passes de cabeça com Escurinho, já no apagar das luzes daquele que é lembrado como um dos grandes jogos da história do Campeonato Brasileiro. 


Decidindo a finalíssima outra vez em casa, o Inter teve mais tranquilidade do que em 1975. O Corinthians era um rival de respeito, mas não era propriamente comparável ao estelar Cruzeiro do ano anterior. 

Com o costumeiro oportunismo, Dario abriu o placar, aproveitando o ressalto de uma falta que atingiu a barreira paulistana. Depois, Valdomiro acertou uma cobrança de falta perfeita, longe do alcance do goleiro Tobias. Era o bicampeonato.


Em meio ao sucesso nacional, o azar continental


Em 1976, o último campeão e seu vice representaram o Brasil na Copa Libertadores da América. Na altura, Inter e Cruzeiro foram alocados em um grupo com os paraguaios de Olimpia e Sportivo Luqueño. Lideraram a disputa, com alguma tranquilidade. Mas, em uma disputa que passava um só, resplandeceram as estrelas mineiras. E um jogo, em especial, passou à eternidade.

Cruzeiro 5, Internacional 4. Provavelmente os dois melhores times do Brasil, gaúchos e mineiros fizeram um confronto decisivo e apoteótico. 

“O Figueroa tinha me quebrado, com uma cotovelada, lá em Porto Alegre. Eu falei: ‘Vou descontar”. Tinha feito dois gols em cima dele, estava 3 a 1, aí eu dei uma cotovelada [...] Eu fui expulso. E aí eu vi um jogador… Nem Pelé fez o que o Joãozinho fez nesse jogo. Ficou 3 a 2, 3 a 3, 4 a 3, 4 a 4 e 5 a 4. É um dos maiores jogos que o Mineirão já teve”, lembrou Palhinha à revista Relvado.


No ano seguinte, em 1977, o Inter até conseguiu superar a fase de grupos, batendo o Corinthians e os equatorianos do El Nacional e do Deportivo Cuenca. Mas, outra vez, sucumbiu perante o Cruzeiro na fase seguinte, perdendo em casa, em mais um jogo de extremo equilíbrio, 1 a 0.

O jejum continental demoraria mais três décadas para acabar. Na altura, Falcão e companhia viram Fernandão liderar o Colorado à conquista da América. E, daquela vez, o mundo também acabaria ficando aos pés do Inter. Essa história, no entanto, fica para outra hora. O bicampeonato nacional do Colorado pede que a exaltação à geração de 1975 e 1976 seja feita com exclusividade.

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