Olimpia 1979: o fim da hegemonia continental de argentinos, brasileiros e uruguaios

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Olimpia 1979: o fim da hegemonia continental de argentinos, brasileiros e uruguaios

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Era disputada a vigésima edição da Copa Libertadores da América. Desde a isolada primeira contenda, em 1960, nenhum time paraguaio havia chegado à decisão. Até que, em 1979, o Olimpia retornou ao grande palco do futebol sul-americano, para reclamar a coroa que deixara escapar naquela já distante ocasião. Aliás, a rebelião dos Franjeados também foi uma manifesto contra a ordem vigente, pois, embora Universitario, Unión Española e Deportivo Cali tivessem chegado às finais, apenas argentinos, brasileiros e uruguaios haviam sido laureados até ali.

Olimpia 1979
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Um carrasco para arrumar a casamata


“Venho para ser campeão da América com o Olimpia”, teria sido a primeira declaração do uruguaio Luis Cubilla, como treinador do Decano. Isso mesmo: o homem escolhido para liderar os paraguaios foi, justamente, o responsável por lhes tirar o pão da boca, em 1960. Depois de perder a primeira partida daquela final, ante o Peñarol, por 1 a 0, o Olimpia vencia a segunda partida, pela mesma margem, até o minuto 83, quando Cubilla empatou e levou a taça para Montevidéu.

O comandante desembarcou em Assunção na transição de 1978 para 1979; chegou para dar continuidade ao projeto de devolver a hegemonia nacional aos Franjeados, que vinham de um título nacional, mas haviam passado alguns anos à sombra do rival Cerro Porteño. 

O uruguaio também trouxe consigo alguns conhecidos para sua comissão técnica. Aníbal Ruiz, foi um auxiliar, enquanto Hermes Huelmo, ficou com a preparação física.

A aposta em Cubilla foi uma tacada de mestre do mandatário do clube alvinegro. Osvaldo Domínguez Dibb, megaempresário paraguaio, e homem bem relacionado no meio político — conservando, inclusive, bom trânsito com o ditador Alfredo Stroessner —, estava no comando do clube desde 1974, e tinha muita ambição. E, como confirma Carlos Kiese, um dos pilares daquela equipe, nada teria sido possível sem o treinador uruguaio.

Luis Cubilla Olimpia
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

“Há 40 anos, Cubilla mudou o futebol paraguaio. Construiu um todo, não apenas treinamentos, mas uma preparação completa para jogadores, dirigentes e torcedores [...] Ele fez coisas que só o tempo permitiu compreender [...] Por isso ganhamos tudo”, comentou o agora jornalista, em seu perfil oficial no Twitter.

A base já estava lá


Os principais destaques do Olimpia já estavam em Assunção, quando Cubilla foi contratado. Uruguaio naturalizado paraguaio, o goleiro Ever Hugo Almeida, uma bandeira do clube, havia chegado em 1973, vindo do Guaraní. Assim como o atacante Osvaldo Aquino. Além deles, talentos como Kiese, Enrique Villalba e Evaristo Isasi vinham das categorias de base. Já o capitão e grande destaque do meio-campo, Hugo Talavera, havia chegado do Cerro Porteño, em 1975.

Contratação mesmo foi a do defensor Alicio Solalinde, vindo do Libertad e que era peça importante da seleção paraguaia. 

Ademais, é importante recordar que aquele elenco tinha fome de história. A maior parte do time se encontrava em meados de seus 20 anos, portanto, muito próximo de seu auge técnico.

A recuperação nacional, com o título paraguaio de 1978 foi um passo importante para o clube. Naquela década, só havia vencido em 1971 e 1975. Pouco para um clube com as dimensões e a importância que o Olimpia tem no cenário paraguaio. Porém, como dito, para Cubilla, um clube que tivesse aspirações de verdadeira grandeza sul-americana precisaria vencer a Copa Libertadores.

Olimpia Campeón Libertadores 1979
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Em sua 12ª participação no certame continental, o Olimpia foi colocado em um grupo com um compatriota, o Sol de América, vice-campeão nacional em 1978. Também se viu obrigado a enfrentar a dureza da altitude boliviana. Viagens a La Paz, para enfrentar o Bolívar, e Cochabamba, batalhando contra o Jorge Wilstermann, não pareciam tão desafiadoras do ponto de vista esportivo, mas a exigência física extra seria um empecilho.

Primeira fase quase perfeita e insanidade em Cochabamba


O Olimpia “passou de passagem” pelo Grupo 2. Das seis partidas disputadas, venceu cinco. Somou 13 tentos, concedendo apenas cinco. A estreia, em casa, contra o Sol de América, terminou 2 a 1. Na oportunidade, Cubilla mandou a campo o seguinte esquadrão: Almeida; Solalinde, Paredes, Flaminio Sosa e Piazza; Talavera, Kiese e Domingo Samaniego (Luis Torres); Isasi, Villalba e Eduardo Ortiz (Delgado).


A única derrota viria ante o Bolívar, em um renhido 2 a 1. Por outro lado, a outra visita à Bolívia acabou sendo mais memorável. Nem tanto pelo triunfo contra o Jorge Wilstermann, mas pelas circunstâncias lamentáveis que rondaram a partida apitada pelo brasileiro José Roberto Wright.

Logo aos 15 minutos da etapa inicial, Talavera abriu a contagem para os Franjeados. Decretado o intervalo da partida, os times foram para os vestiários com esse placar mantido. Entretanto, no retorno para a disputa do segundo tempo, a pancadaria rolou solta. O jogo chegou a ficar parado por 13 minutos. Na tentativa de controlar a loucura, Wright expulsou quatro bolivianos, Miguel Bengolea, Carlos Arias, Juan Sánchez e Eduardo Navarro, e um paraguaio, Villalba.

Nada que tenha aplacado as cenas lamentáveis.

Reiniciada a contenda, Isasi aumentou a contagem para o Olimpia, aos 63’. E, não muito tempo depois, um boliviano foi ao solo, lesionado, e o jogo precisou ser encerrado, dado que o Aviador não tinha jogadores suficientes para seguir pelejando. Irritadíssima, a torcida invadiu o campo e a violência tomou conta. Sobrou até para o apitador brasileiro. Conta-se que Cubilla chegou a roubar uma arma de um policial, na tentativa de se defender da selvageria.

Brilho contra o Guarani brasileiro e o Palestino chileno


Superada a tranquila, em números, mas, no campo, tumultuada fase inicial, o Olimpia teve pela frente dois desafios duros. No Grupo B, precisou ser melhor do que duas equipes que viviam as melhores fases de suas histórias, vindas de improváveis títulos nacionais em seus países. O Decano teve de se aplicar para eliminar os campineiros do Guarani, além dos santiaguinos do Palestino.

Treinado por Carlos Alberto Silva, o Bugre foi o primeiro adversário alvinegro. No Defensores del Chaco, prevaleceu a força dos Franjeados. Contra uma esquadra que tinha em Careca, Zenon e Renato seus jogadores de maior talento, o Olimpia se valeu de uma impetuosa presença de área. De duas jogadas confusas na cozinha brasileira surgiram os tentos de Villalba e Roberto Paredes. Miltão, que ingressara no segundo tempo, descontou para o Guarani, em um jogo marcado também pela expulsão de Careca.


Na segunda partida, visita ao Palestino capitaneado por ninguém menos do que Don Elías Figueroa, os paraguaios saíram ilesos, com um 2 a 0, cortesia de Talavera, autor dos dois tentos. E, no reencontro, o Decano foi além, mediante um 3 a 0 patrocinado por Kiese, Mario Varas (contra) e, outra vez, Talavera.

Quando viajou ao Brasil, favorecido por empates entre Guarani e Palestino, o Olimpia já sabia que iria à final. No Brinco de Ouro da Princesa, não saiu do 1 a 1. Marinho fez para os bugrinos, e Aquino empatou. Pela primeira vez desde 1960, os Franjeados estavam na final, o que era motivo de animação, mas também provocava calafrios, tendo em vista o adversário a ser batido.

Coroação em um palco emblemático


Favorecido pelo status de bicampeão continental, o temido Boca Juniors entrou na Copa Libertadores apenas na segunda fase e, apesar de ter disputado a tapa, com o Independiente, o direito de disputar mais uma final, chegou à sua terceira decisão consecutiva. Detalhe: o jogo fatal seria disputado em um lugar mais que especial para o futebol sul-americano, na catedral azul e amarela, em La Bombonera. 

Ainda assim, Cubilla sabia bem o que o levara ao Olimpia. E, como poucos, conhecia os caminhos da competição, tendo vencido três edições como atleta. Se o primeiro encontro seria em Assunção, o Decano precisaria ser cirúrgico; tinha que estar em seu melhor dia. E, logo aos dois minutos, após bate rebate na área argentina, Aquino colocou o Defensores del Chaco em erupção. Era o 1 a 0.

Insolitamente, aos 27, Miguel Piazza cobrou falta de longa distância. Aproveitou-se de uma barreira desarrumada, e contou com uma colaboração importante. Um “montinho artilheiro” tirou a bola do alcance do arqueiro Hugo Gatti, um dos grandes nomes daquele time do Boca Juniors. O 2 a 0 não foi mais alterado — o que não impediu que, num lapso de soberba, os argentinos mantivessem uma confiança inabalável na virada.

Na semana seguinte, o ônibus do Olimpia foi recebido com intimidação pela hinchada xeneize. Mas nada disso abalou Almeida; Solalinde, Paredes, Jiménez, Piazza; Torres, Kiese, Talavera; Isasi, Villalba e Aquino, os escolhidos de Cubilla para a decisão. E, na hora do maior aperto, Almeida mostrou o que valia, com defesas magistrais. O marcador nunca foi aberto e, assim, o Olimpia acabou com sua espera, colocando fim, também, ao império de argentinos, brasileiros e uruguaios.


“Foi um sonho que se tornou realidade. Foi fundamental o aporte que nos deu o corpo técnico, liderado por Luis Cubilla, que estava acompanhado pelo professor Guelmo e pelo ‘Maño’ Ruiz. Para ele, a principal meta era ganhar a Copa Libertadores, mas a verdade é que nós não estávamos tão convencidos de poder ganhá-la, já que outros times paraguaios haviam tentado chegar longe, sem ter tido sorte”, disse Talavera, ao portal Pasión Fútbol.

As vitórias não terminaram ali


Segundo contaria, anos mais tarde, o mandatário Osvaldo Domínguez chegou a receber uma oferta de 40 mil dólares, vindos do clube argentino, para entregar o jogo, o que foi prontamente recusado: “O presidente do Boca [Alberto J. Armando] me deu uma mala com 40 mil dólares, mas disse a ele que meu país necessitava glórias esportivas: ‘Compadre, meu país não precisa de dinheiro, precisa de vitórias’”, teria dito o paraguaio.

A vitória continental também garantiu fôlego extra dentro do Paraguai. Dando sequência ao título nacional de 1978, o time venceu todas as edições disputadas até 1983, confirmando um hexacampeonato. E até o mundo se rendeu ao Olimpia. 

Apesar de não ter enfrentado o campeão europeu vigente, o Nottingham Forest — que desistiu do Intercontinental —, contra o Malmö, vice-campeão, o Olimpia mostrou sua força. Na Suécia, venceu por 1 a 0; no Paraguai, por 2 a 1.


Aliás, o período também acabaria sendo glorioso para a Albirroja, a seleção nacional. Em 1979, com Paredes, Solalinde, Flaminio Sosa, Aquino, Kiese, Talavera, Torres, Isasi e Villalba entre os convocados, o Paraguai conquistou a Copa América. 

E os impactos desse período seguem vivos. Em termos de marcas, na Copa Libertadores, ninguém fez tantas partidas na história quanto o goleiro Ever Hugo Almeida. Foram 113 jogos, entre 1973 e 1990. Além disso, em 2019, no aniversário de 40 anos da prodigiosa campanha continental, a Junta Municipal de Assunção conferiu aos campeões o título de cidadãos ilustres do Paraguai. Nada mais justo.

Paraguay 1979 Copa América
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

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