Quem foi Pichichi? A lenda de um goleador basco

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Quem foi Pichichi? A lenda de um goleador basco

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Entra ano, sai ano e o Campeonato Espanhol tem sempre um novo Pichichi. Claro, ele pode se repetir em determinados períodos. Ser Pichichi é ser o artilheiro máximo de La Liga. É também o nome dado a uma láurea que conecta grandes figuras do futebol hispânico, gente como Telmo Zarra, Alfredo Di Stéfano, Ferenc Puskas, Hugo Sánchez, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Todos esses nomes, entretanto, honram um outro. Mais antigo. Um tanto quanto obscuro, conforme os anos passam, mas importante para a formação da cultura de futebol da Espanha: Pichichi.

Pichichi Atleti
Foto: Twitter/Arte: O Futebólogo


Futebol aristocrático


Era o dia 23 de maio de 1892, quando uma das famílias mais bem estabelecidas de Bilbao viu um novo rebento vir ao mundo. Rafael Moreno Aranzadi foi o nome de batismo escolhido para o filho de um ex-prefeito local e, também, sobrinho do famoso estudioso Miguel de Unamuno. 

Foi nas ruas de Casco Viejo, o bairro medieval da capital do País Basco, que ele começou a mostrar que podia ser grande, como outros nomes de sua família. Mais especificamente, na Andra Maria Kalea, ou, em português, na Rua Santa Maria, próximo ao nº 10.

Contudo, sua importância não viria do campo da política ou da academia — embora tenha chegado a iniciar os estudos de Direito, fracassando e os abandonando, ainda no primeiro ano.

Apesar da pequena estatura, menos de 1,60m, Rafael era um jovem intrépido. Com a bola nos pés, não se intimidava. Aprendeu a jogar futebol na rua, desafiado por meninos mais velhos. Seu apetite era grande. Assim como a capacidade para encontrar soluções para o “problema” de sua compleição física, algo que o levaria, inclusive, a ser ignorado pelo serviço militar. 

Foi o porte que lhe colocou dificuldades, e o obrigou a encontrar soluções, o responsável por lhe oferecer um nome que as ruas de Bilbao não esqueceriam.


A origem não é precisa. Em um texto do Guardian, há muitas teorias acerca do apelido que foi cunhado — que pode ser traduzido como “patinho”. Há quem diga que foi o irmão mais velho, Raimundo, o responsável. Entretanto, rumores atribuem o feito às crianças de Casco Viejo, à imprensa local e, até mesmo, aos torcedores do Athletic Bilbao. No frigir dos ovos, pouco importa. O fato é que a alcunha pegou. 

Pouca gente sabe quem é Rafael Moreno Aranzadi. Por outro lado, Pichichi (Pitxixi, em basco) é um nome bem mais acessível.

Tamanho não é documento


O atacante rápido, que tinha drible e bom chute como recursos (além de, a despeito das desvantagens óbvias decorrentes de sua estatura, ser bom cabeceador, como contou seu primo Alfonso Moreno), foi jogador de um time só. 

Vestiu a camisa do Athletic pela primeira vez em 1911. Já o primeiro encontro oficial aconteceria em 17 de março de 1913. Era disputada a semifinal da Copa do Rei. Contra o Real Madrid, marcou dois dos três gols que garantiram o triunfo bilbaino.

Com Pichichi em sua escalação habitual, o Athletic venceu quatro vezes a mencionada copa — até então, o principal torneio de clubes do futebol espanhol —, em 1914, 1915, 1916 e 1921. Na decisão de 1915, marcou uma tripleta ante o Espanyol, superado por cinco bolas a zero.

Trajando sempre um lenço branco na cabeça, no intuito de oferecer alguma proteção ante os inevitáveis choques com a bola, alcançou outras marcas importantes. Foi dele o primeiro gol de La Catedral, o antigo estádio San Mamés. Em 21 de agosto de 1913, coube ao atacante anotar o solitário tento do Athletic, no empate contra o Racing Club de Irún, um dos rivais do clube à época. 

Statue Pichichi
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Não bastasse, ele ainda é lembrado como o primeiro jogador profissional da história do Athletic — aquele que, pela primeira vez, recebeu um soldo para jogar futebol. O que, muito provavelmente, era merecido, tendo em vista seus feitos e importância. Tal também fica claro nas palavras de seu já citado primo: “Quando as coisas vão mal para o time, a multidão espera que Pichichi resolva a situação”.

Adorado na cidade, de onde era um dos rostos mais populares, o atacante se deu ao luxo de encerrar a carreira por cima. Tinha 29 anos e acabara de vencer a Copa do Rei pela quarta vez, superando o Atlético de Madrid por 4 a 1, em 8 de maio de 1921. Apesar disso, manteve no futebol seu lar, tendo se tornado árbitro depois de pendurar as chuteiras (e o lenço).

Segundo o site oficial do Athletic, fez 89 jogos oficiais, entre 1913 e 1921, anotando 83 gols.

Uma prata e uma nova identidade para a Espanha


“Foi, em minha opinião, a melhor seleção que se apresentou no torneio. Zamora, Otero, Arrate, Balauste, Pagaza, Pichichi, Sesumaga, Patricio Samitier… Eram unidades magníficas. Se o time espanhol daquelas olimpíadas tivesse treinado suficientemente como conjunto, teria ganhado naquela ocasião o título de campeão do mundo”. 

A fala é do inglês Fred Pentland, figura que assumiria o comando do Athletic Bilbao em 1922 e se tornaria um dos grandes nomes da história do clube, numa citação encontrada em El Prisionero de Ruhleben: Fred Pentland, El Hombre que Cambió al Athletic. A equipe mencionada é a Espanha, que levou a Medalha de Prata nas Olimpíadas da Antuérpia, em 1920.
 
Spain Olympics 1920
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

As circunstâncias daquela competição são bastante peculiares, deve-se dizer. O Ouro Olímpico foi disputado por Bélgica e Tchecoslováquia. No entanto, alegando que o árbitro inglês, John Lewis, favorecia a equipe dona da casa, os tchecos abandonaram o gramado aos 40 minutos do primeiro tempo. Os belgas ficaram com a medalha, mas a Prata não foi entregue ao seu adversário, desclassificado da competição. 

Era esperada uma disputa entre as semifinalistas vencidas, Holanda e França, pela Prata e o Bronze. Porém, os franceses já estavam voltando para casa e decidiram não participar. Então, a organização dos Jogos Olímpicos decidiu promover uma disputa entre as equipes que haviam sido derrotadas nas quartas de finais: Itália, Noruega, Suécia e Espanha. Os espanhóis venceram suas batalhas, depois bateram os holandeses e ficaram com o segundo lugar no pódio.

Essa conquista colocou Pichichi ainda mais em evidência na cultura do futebol espanhol. No caminho para a obtenção da Prata, a Espanha arrancou uma virada à fórceps, contra a Suécia. 

Nasceu ali uma identidade marcante para o país. Com Pichichi, autor de um dos tentos contra a Holanda, forjou-se a Fúria. Ironicamente, tal distinção viria a calhar para a propaganda da Ditadura Franquista, anos mais tarde. Irônico porque esse espírito nasceu de um time majoritariamente formado no País Basco, uma região separatista.

Vida breve que a história não esquece


Pichichi não chegou a comemorar três décadas de vida. Em 1922, conta-se, ingeriu ostras estragadas. A partir disso, entrou em contato com a bactéria Salmonella typhi. Trocando em miúdos, contraiu Febre Tifóide e, rapidamente, avançou ao óbito, deixando para trás esposa e uma filha. Sem falar em uma legião de admiradores.

Com o passar dos anos, foi tendo sua importância histórica reconhecida. Em 1926, foi erguido um busto em sua homenagem, no estádio San Mamés. A partir da inauguração do novo San Mamés, em 2013, a escultura foi colocada na saída dos vestiários, a caminho do gramado. E, sempre que um novo adversário estreia no estádio, seu capitão deposita flores em homenagem a Pichichi.

Stampilla Pichichi

Claro: desde 1953, o jornal Marca entrega ao artilheiro máximo de La Liga o Trofeo Pichichi. Outro reconhecimento de relevo, sobretudo porque o basco não chegou a jogar o Campeonato Espanhol, cuja disputa se iniciou em 1929. 

Além disso, ele também segue presente na cidade de Bilbao. Afinal, quem quiser assistir a um jogo do Athletic precisará se dirigir à Rafael Moreno Pitxitxi Kalea, s/n. É lá que fica o San Mamés.

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