Barcelona 1992: O ouro olímpico que orgulhou toda a Espanha

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Barcelona 1992: O ouro olímpico que orgulhou toda a Espanha

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Seja pelo caráter amador que acompanha os Jogos Olímpicos, o que, no âmbito do futebol, provoca a restrição de aceitação apenas de atletas sub-23, além de três exceções, ou pela competição com as Copas do Mundo, é certo que o futebol não clama a presença de tantos holofotes nas Olimpíadas. Há exceções. Uma delas aconteceu em 1992, quando uma geração liderada por Abelardo, Pep Guardiola, Luis Enrique e Kiko levou milhares de pessoas ao Camp Nou e orgulhou a Espanha.

Spain Olympics 1992
Foto: FIFA/Arte: O Futebólogo


Renascer Barcelona e o futebol espanhol


No começo dos anos 1990, Barcelona não era o melhor destino para um turista, ou a cidade mais agradável para se viver. Os impactos da tardia redemocratização espanhola, iniciada em 1975, combinados à crise econômica mundial daquela década, haviam sido duros com a capital catalã. Postos de emprego foram encerrados, entregando partes da cidade ao cinza. 

Segundo a pesquisadora Antonia Casellas, “entre 1970 e 1985, a cidade perdeu 42% de seus empregos industriais, 69% dos empregos da construção, enquanto os empregos no setor de serviços aumentaram apenas 12%”.

Uma das missões dos Jogos Olímpicos de 1992 era radicalizar a situação barcelonista. Para o bem, revitalizando a cidade e mostrando ao mundo, uma vez mais, que aquela era uma cidade importante, imponente e que deveria ser considerada no grupo das mais convidativas a se visitar. 

Não são poucas as vozes que apontam as mudanças vividas entre 1986 e o fim das Olimpíadas como a mais profunda reforma urbana vivida por uma cidade europeia. Dados angariados pelo portal Opera Mundi, recolhidos junto à prefeitura de Barcelona, apontam que: 

“Entre 1985 e 1992 [...] o consumo elétrico da cidade cresceu 29,7%. Na mesma proporção aumentou o consumo de gás. A produção de lixo por habitante cresceu 56%, o volume de passageiros que entraram e saíram pelos aeroportos da cidade aumentou 66,6%, em vôos nacionais, e 119%, em vôos internacionais”. 

Barcelona Spain 1992 Olympics
Foto: Olympics/Arte: O Futebólogo

Se esses indicadores parecem aterradores sob um olhar ambientalista, eles também indicam desenvolvimento econômico brutal. Este foi percebido, sobretudo, em obras de infraestrutura de transporte, habitação, telecomunicações, hotelaria e construções esportivas. 

E o meio ambiente não ficou jogado às traças: uma das grandes obras efetivadas na cidade foi a retirada de uma linha de trem que ficava no limite entre a cidade e o mar, com a consequente recuperação de 4,5 km de praia. Também as obras de infraestrutura de transportes coletivos levaram à diminuição do fluxo de veículos nas regiões mais centrais da cidade, reduzindo a emissão de poluentes na atmosfera. 

Nem tudo foram flores, como evidenciaram os processos de gentrificação na capital catalã, decorrentes daquele período e amplificados a partir da crise econômica global de 2008. Contudo, é indiscutível que as Olimpíadas de 1992 não acabaram na cerimônia de encerramento.

E o futebol? Além de um jejum de quase 30 anos sem conquistas da seleção espanhola (desde a Euro 1964), o fracasso ainda fresco, com a ausência de classificação à Euro 1992, assombrava o futebol local. O esperançoso e otimista ambiente gerado ao redor de Barcelona era tudo o que aquela jovem equipe precisava para resgatar o orgulho do espanhol com seu selecionado.

Um time talentoso e unido


Os Jogos Olímpicos de 1992 foram os primeiros a admitir que, no futebol, só poderiam ser convocados jogadores abaixo dos 23 anos — quatro anos mais tarde seria estabelecida a exceção que permite a presença de três atletas sem limite etário, fruto de um acordo entre a FIFA e o COI. Aquela era uma resposta à exigência de que os atletas olímpicos tivessem que deter o estatuto de amadores. Na altura em que esportes como o futebol e o basquete já se encontravam amplamente profissionalizados, a exigência acabava por esvaziar algumas disputas.

Diante disso, o treinador Vicente Miera colocou a mão na massa. Poucos entendiam a importância que um ouro olímpico teria para moralizar o futebol espanhol quanto ele. Ao final de 1991, Miera havia sido o escolhido para tentar evitar o fiasco que seria a ausência da Espanha na Euro do ano seguinte.

Ele substituiu Luis Suárez, que havia acumulado duas derrotas e duas vitórias nas eliminatórias. Em um grupo com França, Tchecoslováquia, Albânia e Islândia, não alcançou seu objetivo, porém, acabou sendo o escolhido para a missão olímpica. E todo o seu trabalho se pautou em observação, planejamento, treinamentos e união.

Vicente Miera
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


“Estivemos nada menos do que 54 dias concentrados. Isso é algo muito difícil de se assumir agora. Imagine. E não tivemos nem um mínimo problema. Além disso, primeiramente tínhamos 36 jogadores convocados, depois deixamos em uma cifra menor, ao redor dos 24, e, depois, escolhemos os 20 finais. Aquilo foi super difícil para mim. Apesar disso, eles me deram uma lição, porque todos os meninos entendiam as decisões, me entendiam e me respondiam sempre com franqueza, sinceridade e motivação, porque diziam que, como um todo, estariam na torcida”, falou Miera à revista Panenka.

Assim, foi formada a Quinta de Cobi, em alusão ao mascote oficial da competição. “Estávamos em Cervera de Pisuerga, um lugar maravilhoso, longe do mundo. Havia um ambiente muito bom e um grupo muito bom”, recordou o defensor Miguel Hernández, ao portal ABC. Além do significado daquela disputa, o time também sabia que estava sendo observado de perto por Javier Clemente, o homem que havia sido escolhido para liderar a equipe principal da Espanha dali em diante.

Outra questão que demonstra a unidade que existia no seio daquela equipe foi a briga comprada para que a seleção estivesse presente na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos. Isso porque as disputas de futebol começaram um dia antes da mencionada cerimônia e, dois depois, haveria um novo jogo por jogar. Isso tudo em Valência, sub-sede dos jogos. Entretanto, os jogadores ganharam a queda de braço e participaram do evento.

Analisando em retrospectiva, é fácil perceber a qualidade de que dispunha aquele time. No costumeiro onze inicial, viam-se figuras como Albert Ferrer, Abelardo, Pep Guardiola, Luis Enrique e Kiko Narváez. Todos eles construiriam boas histórias com a camisa da Fúria.

Uma campanha tranquila


Classificada como país-sede, a Espanha foi sorteada para o Grupo B da competição, ao lado de Catar, Egito e Colômbia. Ali, o único adversário que se apresentava como ameaça real era a equipe sul-americana, que levava em seus quadros atletas como Jorge Bermúdez, Faustino Asprilla, Víctor Aristizábal e Faryd Mondragón.

Logo na estreia, a Espanha mostrou sua força, vencendo os Cafeteros por 4 a 0. Com dois triunfos por 2 a 0, a anfitriã também bateu Egito e Catar, classificando-se em primeiro lugar do grupo.

Guardiola Spain Olympics 1992
Foto: FIFA/Arte: O Futebólogo

Em termos de tradição, o jogo das quartas de finais acabou sendo o mais pesado. A Itália avançara em segundo lugar no seu grupo, à sombra da Polônia. Contudo, como recomenda a cautela, nunca se deve subestimar os italianos. Um solitário tento de Kiko garantiu o avanço espanhol às semifinais, deixando a Azzurra de Giuseppe Favalli, Demetrio Albertini, Dino Baggio e Angelo Peruzzi pelo caminho.

A seguir, a surpreendente seleção ganesa foi a adversária nas semis. Com um time cuja média de idade era inferior aos 19 anos, o elenco africano vinha bem, porém cansado. Precisara de uma prorrogação para eliminar o Paraguai, de Celso Ayala, Carlos Gamarra e Francisco Arce. Na semifinal, Abelardo e Rafael Berges asseguraram o avanço espanhol à decisão, em outro 2 a 0. 

Note-se que a Fúria chegou a decisão sem conceder um gol sequer, o que não põe em discussão o fato de que o famoso goleiro Santiago Cañizares era, naquela altura, reserva de Toni Jiménez.

Um raro retrato de Espanha unida: 95 mil no Camp Nou, dentre eles o rei


Enfim, Barcelona. Sob os olhares ansiosos e otimistas de 95 mil pessoas, Toni Jiménez; Ferrer, Abelardo, Solozábal, López, Lasa; Guardiola, Luis Enrique, Berges; Kiko e Alfonso subiram ao gramado do Camp Nou. A esses 11 seria acrescida a presença de Amavisca, na segunda etapa, cuja entrada já seria prestigiada pelo rei da Espanha, Juan Carlos, que chegou atrasado, mas não deixou de estar em Barcelona. 

Isso, por si só, ante a cena separatista catalã, também deixava claro o que estava acontecendo.

Naquele dia, os catalães do Mundo Deportivo deram a nota do que estava por ser vivido. A capa celebrou, principalmente, o ouro olímpico no hóquei na grama, obtido pela delegação feminina. Entretanto, no cantinho da página estava dado o alerta: “Futebol/Tênis — Espanha às portas da glória”. De fato, aquele time estava muito perto de oferecer ao país uma glória inédita. Que não viria facilmente.

Historicamente muito mais experimentados em Jogos Olímpicos, os poloneses, finalistas, já haviam vivido o êxtase de estar no lugar mais alto do pódio, em 1972, e haviam angariado uma prata quatro anos mais tarde. Foram justamente eles que abriram a contagem, pouco antes do final do primeiro tempo, com Wojciech Kowalczyk. Miera conta que o tento da desvantagem não poderia ter vindo em hora mais oportuna, já que, imediatamente, ele pôde estar com seus liderados.

Kiko Narvaez Spain Olympics 1992
Foto: FIFA/Arte: O Futebólogo

A resposta demorou, mas veio. Aos 65’, em cobrança de falta vinda da ponta esquerda, Abelardo acertou um cabeceio potente para empatar a contenda. Cinco minutos depois, Kiko se aproveitou da indecisão da zaga polaca, tirou o goleiro da jogada e virou o jogo. Tudo isso sob os aplausos em uníssono no Camp Nou e os sorrisos do rei, constantemente procurado pelas câmeras. 

A Polônia empataria, com Ryszard Staniek. Mas, aos 90’, ficaria claro que aquele jogo tinha dono. Aproveitando rebote do arqueiro rival, Kiko fez o 3 a 2 fatal.

O dia 8 de agosto de 1992 avançou à história do futebol espanhol e dos Jogos Olímpicos. No dia seguinte, como não poderia ser diferente, o Mundo Deportivo aclamou os medalhistas olímpicos responsáveis por tirar a Fúria do marasmo: “Êxtase 92: Espanha faz vibrar o Camp Nou com um ouro para a história”. É difícil pensar que a imagem de Guardiola, um catalão, tenha sido escolhida ao acaso, mas o certo é que, naquela final, a Espanha foi um país unido. 

“Na época, não dei importância. Sou apolítico e me parecia normal que se apoiasse a Espanha, mas sempre fiquei à margem de questões políticas. Agora não creio que aquilo poderia se repetir, seria impossível”, refletiu David Villabona, meio-campista reserva daquela seleção, em fala concedida ao ABC.

As marcas daquele triunfo seriam tão profundas que afetariam até mesmo Lionel Messi, 16 anos mais tarde. Quando dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, a Argentina desejava contar com seu astro e o Barcelona não queria cedê-lo. Porém, o treinador culé era Guardiola, alguém que conhecia o sabor de disputar e vencer aquela competição. 

Pep lutou por Messi, que também conquistaria o ouro. “Sou muito grato a Pep Guardiola [...] Ele conduziu tudo brilhantemente. Ele foi jogador um dia e sabe como é. Agora eu posso falar sobre ser um campeão olímpico com um campeão olímpico”, disse o argentino.

Para onde quer que se olhe, é impossível ignorar os impactos dos Jogos Olímpicos de 1992 para Barcelona e a Espanha como um todo. A vitória no futebol apenas colocou mais luz sobre isso, marcando atletas, treinador, os presentes ao Camp Nou e, inevitavelmente, todos os que acompanharam de alguma forma aquele triunfo verdadeiramente nacional.

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