Coisas que só acontecem com o Tottenham

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Coisas que só acontecem com o Tottenham

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Não chega a ser um ritual, mas, no futebol, as massas são a classe de alimento mais escolhida pelas comissões técnicas antes de uma partida — o macarrão sendo, talvez, a opção mais comum. Embora importante, esse não deve ter sido um assunto discutido quando o Tottenham se preparou para a 38ª rodada da Premier League 2005-06. O derby londrino contra um West Ham que nada aspirava na competição não era o jogo mais difícil do mundo. E bastava vencer. Somando três pontos, o time consolidaria a quarta colocação e disputaria sua primeira Liga dos Campeões, após a reformulação da competição no início da década de 1990. Mas não é por acaso que o Tottenham é tido como um dos times mais azarados do planeta. Typical Tottenham é a expressão utilizada a cada vez em que os Spurs projetam sucessos, fazem por onde obtê-los, mas morrem na praia na hora H. Como naquele 7 de maio de 2006.

Defoe Carrick Tottenham
Foto: Roy Beardsworth/Offside/Arte: O Futebólogo
* Este texto apareceu primeiro na revista Relvado #12

“No carro, ouvimos algo no noticiário”


“Além de mim, Jermaine Jenas e Paul Stalteri também estavam fora, então combinamos de nos encontrar no centro de treinamento e dirigir a Upton Park. Estávamos um pouco ansiosos antes do jogo por conta de tudo o que ele representava e não havia nada que pudéssemos fazer para ajudar. No carro, ouvimos algo no noticiário”, recordou o então capitão do time londrino, Ledley King, em sua autobiografia.

As notícias não eram boas, mas não era possível ter a dimensão exata de sua gravidade. Antes de um jogo que poderia devolver ao Tottenham futebol europeu de primeira qualidade — de quebra alijando o maior rival, Arsenal, da disputa da mesma competição e, ainda, terminando a Premier League à frente dos Gunners pela primeira vez desde a campanha de 1994-95 —, aquilo devia ser só mais um pequeno e superável obstáculo. Em sendo verdade, teria que ser algo passageiro. 

As ondas do rádio reportavam o despertar de um súbito mal-estar que atingiu a maior parte do elenco dos Spurs durante a madrugada.

No entanto, conforme o trio afastado da partida se encaminhava ao estádio, aquilo foi se tornando um pesadelo. Os sms trocados entre os desfalques e os relacionados indicavam que o ocorrido não parecia ser uma simples dor de barriga, sugeria uma intoxicação alimentar. E, como o time havia se alimentado junto, a ideia que surgiu era a de que aquele mal teria vindo de algum alimento específico. 

“Foi só quando chegamos ao estádio e fizemos nosso caminho ao vestiário visitante que entendemos, de fato, o quanto eles estavam afetados [...] Eles estavam tão doentes que não tinham nada dentro. Suas cabeças estavam baixas”, continuou King.

Benayoun West Ham Tottenham
Foto: West Ham United/Arte: O Futebólogo

Ainda assim, em um ato de heroísmo e retidão, os jogadores avançaram ao campo de jogo. Tinham de defender sua causa, mesmo em condições deploráveis. Diante de tudo o que aconteceu naquela tarde, o placar foi bastante razoável. 

Quando o narrador inglês indicava que o Tottenham já tinha que correr atrás de seu prejuízo, uma vez que Robert Pirès havia aberto o placar para o Arsenal, contra o Wigan, Carl Fletcher acertou um petardo de média distância e inaugurou a contagem para o West Ham. O pesadelo continuava a se materializar. Jermain Defoe chegaria a empatar a disputa, mas, aos 80’, o israelense Yossi Benayoun sacramentou a vitória dos Hammers, após receber passe de calcanhar de Marlon Harewood. 

Nem o pênalti desperdiçado por Teddy Sheringham, que, por ironia, é ídolo dos Spurs, salvou o clube.


Caso de polícia? Que nada


O Tottenham havia assumido a quarta posição após a vitória na 15ª rodada, ante o Sunderland. E não a perdeu, até a partida fatal, no que foi um desfecho cruel demais. A alguns quilômetros dali, o Arsenal bateu o Wigan por 4 a 2 e ficou com a vaga. “Tive tanto respeito por eles quando saíram e jogaram apesar de sua doença [...] É possível perceber o tanto que eles queriam dar seu máximo, mas não tinham nada a oferecer [...] Que tenham marcado — com Defoe — foi um milagre”, relatou King.

Após o confronto, foram levantadas suspeitas e até foi instaurado um caso para investigar o ocorrido. De início, ficou óbvio que os jogadores haviam comido a mesma coisa no hotel: lasanha e espaguete. Logo, começaram os rumores de que membros da cozinha seriam torcedores de Arsenal ou West Ham, tendo envenenado a comida. 

O trágico acontecimento preencheu manchetes: Lasagne-Gate foi o nome escolhido pela imprensa britânica. No entanto, como citou King, a partir de exames, os médicos do clube descobriram que a causa havia sido um vírus que se espalhou rapidamente diante da proximidade dos atletas às vésperas do confronto. 

Lasagne-Gate Tottenham
Foto: Getty Images/Arte: O Futebólogo

Todo o contexto só reforçou a tristeza daquele momento. Duas rodadas antes, no confronto direto, os Spurs haviam visitado o Arsenal e deixado o campo com um valioso empate. Além disso, duas peças cruciais para o time haviam se recuperado de problemas físicos antes do confronto decisivo, Michael Carrick e Robbie Keane. Anos mais tarde, em 2017, Martin Jol, o treinador da época, lembrou o ocorrido à Sky Sports

“Tivemos 10 jogadores passando mal durante a noite. Pedimos para adiar o jogo por 24 horas, mas não quisemos arriscar penalizações”. Os 10 nomes citados eram Edgar Davids, Teemu Tainio, Keane, Michael Dawson, Carrick, Aaron Lennon, Radek Černý, Calum Davenport, Lee Barnard e Tom Huddlestone.

A polícia local chegou a ser chamada a investigar o caso. Porém, como indicado, não havia muito o que descobrir. Um vírus provocou toda a celeuma. Simples assim. Uma posição conquistada em dezembro e defendida a duras penas foi perdida em maio, no apagar das luzes. 

“É cruel para o Tottenham, mas o esporte é assim”, assinalou Arsène Wenger, comandante do Arsenal, em coletiva após a rodada fatal. 

Acontece, mas o torcedor dos Spurs já via as adversidades como algo comum. Estava acostumado. Afinal, o Typical Tottenham não surgira do nada. E, diante do azar, puro e simples, não adiantava culpar a lasanha e o espaguete.

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