quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Os 18 importantes meses de Arsène Wenger no Japão

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Há momentos em que o futebol pode ser tudo, menos bonito. A pressão pode ser feroz. As derrotas, implacáveis. E ainda há ocasiões em que o espírito esportivo fica em segundo plano. O futebol pode consumir quem o vive intensamente. Era em uma situação como essa que Arsène Wenger se encontrava, em setembro de 1994, após ser demitido do Monaco. Sete anos após sua chegada ao Principado, estava farto, sobretudo após o escândalo de suborno de atletas rivais envolvendo o Olympique de Marseille. Assim, recusou gigantes europeus. Partiu para o Japão.

Nagoya Emperor Cup Wenger
Foto: AFP/Getty Images/Arte: O Futebólogo

“Aí vem mais um estrangeiro”


Wenger desembarcou em Nagoya em fevereiro de 1995. Até ali, nunca havia sequer visitado o Japão. Pode-se questionar o que o teria levado a aceitar liderar uma equipe de uma liga que começara a ser disputada apenas em 1992. Por certo, o salário anual na casa dos 75 milhões de ienes foi um incentivo. Mas havia mais.

O presidente do clube, Shoichiro Toyoda, ficara hipnotizado pelo modo como Wenger falara em uma conferência da FIFA, nos Emirados Árabes. O fato de que o francês se dirigia a treinadores de nações com futebol em desenvolvimento provocou o impacto necessário. O Japão estava pavimentando o chão para emergir no contexto do futebol. Queria aprender e oferecia algo que já não existia no ocidente: tempo e tranquilidade.

Além disso, prometia entregar aos comandantes controle total sobre uma série de áreas do clube, até mesmo a nutrição dos atletas. Isso clubes como o Bayern de Munique, que abordaram o francês pouco antes, não podiam lhe garantir.

Wenger Monaco
Foto: Offside/REX/Arte: O Futebólogo

Wenger estava cansado e desgostoso. Nem tanto por ter sido demitido, após anos bastante bons no Monaco. A intensidade das pressões vividas e as marcas do escândalo do Olympique de Marseille haviam sido profundas. Anos mais tarde, o treinador admitiria isso: “Foi o momento mais difícil da minha vida. Quando você está em um trabalho como o meu, preocupa-se com cada detalhe. Então, ir trabalhar sabendo que tudo isso é inútil é um desastre”.

O Japão permitiu reflexão e distanciamento. No entanto, o Nagoya Grampus Eight — clube da multinacional Toyota — havia terminado a temporada anterior na penúltima colocação, salvo pelo fato de que sequer existia segunda divisão naquela altura. Investimento importante do clube, o goleador inglês Gary Lineker se aposentara sem entregar o futebol esperado. Por sua vez, o sérvio Dragan Stojkovic ganhara fama pelos cartões recebidos, não pela sua técnica. Treinado pelo inglês Gordon Milne, o time vinha mal.

É fácil perceber os motivos pelos quais torcedores e atletas não ficaram particularmente animados com a chegada de Wenger. Em entrevista à revista inglesa FourFourTwo, o defensor Tetsuo Nakanishi registraria o tom daquele momento: “Ninguém confiou em Wenger no início. Todos nós dissemos: ‘Aí vem mais um estrangeiro’”.

Ganhando os comandados


Anos mais tarde, o próprio Arsène admitiria não ter encontrado a mais calorosa das recepções. O status que havia construído na Europa valia pouco no mundo nipônico. Porém, o francês trazia um estilo de trabalho que se encaixaria perfeitamente naquilo que os jogadores procuravam.

“Havia um muro entre mim e os jogadores do Grampus. O know-how que eu havia desenvolvido na Europa não tinha uso com esse muro. Eles queriam instruções específicas… mas o jogador com a bola deve estar no comando do jogo. Eu tive que lhes ensinar a pensar por si mesmos”.

Arsène Wenger Nagoya Grampus
Foto: Reprodução/FourFourTwo/Arte: O Futebólogo

Os jogadores acreditavam precisar de instruções claras, objetivas e específicas. Em termos simples: gostariam de alguém que lhes dissesse exatamente o que fazer. Wenger não era esse cara, era aquele que estava um passo adiante. O francês estava preparado para, de fato, ensinar futebol. Afinal, entregando ideias prontas, o time estaria fadado ao fracasso ao final de seu contrato. Por outro lado, ensinando os atletas a pensar, poderia deixar uma marca viva.

Nesse sentido, o fato de que a J. League 1995 começou a ser jogada apenas em março foi importante para o treinador, que teve mais de um mês para dar início ao trabalho. Ao lado do croata Boro Primorac, que, como treinador do Valenciennes, havia sido um dos responsáveis pela denúncia do escândalo do Marseille, e agora era seu auxiliar, Wenger colocou a mão na massa. E teve a sorte de encontrar um porta-voz no campo: Stojkovic.

O meia não precisava aprender a tomar decisões por si mesmo. Em seu currículo, trazia a disputa de torneios internacionais pela Iugoslávia, títulos pelo Estrela Vermelha e passagens pela França e a Itália. Faltavam-lhe, entretanto, disciplina e estímulo. Alçado à condição de liderança, viu seu papel ser ressignificado e ressurgiu. Antes de Wenger, Stojkovic acumulava 14 jogos pelo time, sete cartões amarelos e um vermelho — na estreia. Gols haviam sido apenas três. Em contraponto, um ano mais tarde, seria eleito o melhor jogador do Campeonato Japonês.

Dragan Stojkovic Nagoya Grampus
Foto: Masahide Tomikoshi/TOMIKOSHI PHOTOGRAPHY/Arte: O Futebólogo

“Eu dei meu melhor, dei meu talento, ajudei meu time e tivemos uma conexão muito boa, um entendimento muito bom. Ele [Wenger] era o chefe no banco e eu no campo, era uma boa combinação”, diria Stojkovic anos mais tarde, em 2013, ao site oficial do Arsenal.

Outro nome conhecido comandado pelo francês foi o do zagueiro brasileiro Alexandre Torres, também lembrado por ser filho de Carlos Alberto Torres, o Capita. Em 2002, ao Jornal do Brasil, o beque diria que só conheceu um treinador que estimulava os defensores a participar da construção das jogadas, um certo Wenger. O comandante também recordaria o brasileiro: “Fui a São Paulo e contratei um jogador chamado Torres. Ele se adaptou muito bem ao Japão [...] Eu disse: ‘Tragam esse cara, eu quero levá-lo’. No dia seguinte, ele veio com um cara. Olhei para ele e disse: ‘Conheço seu rosto de algum lugar’. O agente dele era Carlos Alberto”.

Wenger levou novidades aos japoneses e ofereceu algo a mais ao brasileiro e ao sérvio com quem trabalhou.


Obtendo resultados


Em um campeonato sem empates — em que os jogos que terminassem em igualdade eram decididos no gol de ouro e, em sendo necessários, nos pênaltis —, o início de Wenger no Grampus foi difícil.

Os três primeiros jogos terminaram com derrotas para Gamba Osaka, Cerezo Osaka e Jubilo Iwata. O primeiro triunfo, consumado nos pênaltis, viria na quarta rodada, ante o Mitsubishi Urawa FC (que passaria a se chamar Urawa Red Diamonds). E essa vitória não foi um divisor de águas, já que a ela se seguiram mais quatro derrotas.

Apesar disso, o trabalho estava começando a engrenar. Entre as rodadas nove e 26, o Nagoya disparou. Foram 14 vitórias e apenas quatro derrotas. De repente, o time, que ficara no fundo da tabela no ano anterior, estava lá em cima. Na altura, a J. League costumava ser disputada em dois turnos separados. Uma vez finalizados, os campeões de cada um disputavam uma final, determinando o campeão. Os comandados de Wenger terminaram a primeira parte do certame na quarta colocação, apenas seis pontos atrás do líder Yokohama Marinos.

A boa forma do time persistiu. No segundo turno, o Nagoya somou 17 vitórias. Acabou com a vice-liderança, superado apenas pelo Verdy Kawasaki. Apesar de não ter chegado à decisão, o time acabaria vendo seu desenvolvimento ser reconhecido: Wenger foi eleito o melhor treinador da competição, sendo acompanhado por Stojkovic, o MVP da disputa.

O time não ficaria a ver navios, entretanto. Ainda em 1995, havia a Copa do Imperador por disputar. Sem titubear, o Nagoya começaria a deixar vários adversários pelo caminho: Kyoto Sanga, Yokohama Flugels (em que atuava o brasileiro Zinho), Vissel Kobe, e, com autoridade, o Kashima Antlers, 5 a 1. Na decisão, disputada no Estádio Nacional, em Tóquio, superou sem dificuldades o Sanfrecce Hiroshima, 3 a 0, conquistando o título.


No ano seguinte, depois de vencer a Supercopa do Japão, a campanha na J. League seria ainda melhor.

Pela primeira vez disputada no sistema tradicional de pontos corridos, com turnos unificados e sem decisão, a competição assistiu a sete vitórias do time de Wenger nas primeiras oito partidas. Haveria alguma oscilação, o campeonato ficaria parado entre o final de maio e o de agosto, para a disputa da J. League Cup — após um ano de hiato —, mas o Nagoya seria vice-campeão nacional, com apenas três pontos a menos do que o Kashima Antlers.

Quando do final do campeonato, entretanto, Wenger já havia dado por encerrada sua passagem de 18 meses pelo clube japonês.

Colecionando recordações


“Ele não ficou por aqui tempo suficiente para deixar um legado, mas a brevidade de seu tempo no Japão apenas aumentou a fantasia do que ele poderia ter construído se tivesse ficado por mais tempo”, disse o repórter Shintaro Kano, do Kyodo News. No dia 22 de setembro de 1996, o Arsenal confirmou a contratação do treinador francês, que conseguiu uma liberação amigável junto à direção do Nagoya e assumiu o comando dos Gunners em 1º de outubro.

Wenger havia tido o tempo de depuração necessário para retornar ao mais alto nível do futebol. Não apenas isso: aprendera lições que o acompanhariam pelo restante de sua carreira. É seguro dizer que sua trajetória de 22 anos à frente do Arsenal teria sido impossível, sem aqueles 18 meses.

Arsène Wenger Arsenal
Foto: Dave Cheskin/PA/Arte: O Futebólogo

“No Japão, me deparei com uma cultura diferente, com valores diferentes e em um momento da minha vida em que talvez precisasse de um recomeço. Quando se está envolvido no futebol a esse ponto, em que a única prioridade é ganhar o tempo todo, acaba negligenciando outros aspectos da sua vida”, diria o treinador, como registrado em Arsène Wenger: The Biography.

Em 2013, quando o Arsenal foi ao Japão para um amistoso de pré-temporada, o francês voltaria a falar sobre o impacto de sua estadia na Terra do Sol Nascente: “A visão que tenho da vida mudou no Japão. Foi uma experiência absolutamente profunda, e muito, muito positiva [...] Talvez um pouco maluca da minha parte, no momento em que decidi ir, mas agradeço por esse momento de loucura”.

A passagem também produziu marcas no clube e no futebol japonês. À FourFourTwo, Kano explicitou o impacto de Wenger, garantindo que ele modernizou o estilo de liderança no Nagoya, controlando “meticulosamente” o clube. A impressão também é reforçada por Go Murakami, que foi intérprete do comandante, e indicou que Wenger dedicava atenção até mesmo às mais básicas habilidades que, em tese, os jogadores já deveriam dominar, conforme contou ao These Football Times.

Quando são muitas as vozes que discutem um tema, chegando a um consenso, é difícil contestar o veredito. Wenger era um treinador promissor antes de passar pelo Japão, e, após, tornou-se um dos maiores de sempre. A história, corroborada pelas vozes de quem viveu aqueles 18 meses, indica que o sucesso no Arsenal foi condicionado à viagem a Nagoya. Ali, Wenger viveu um reinício. Preparou-se para a maior saga de sua vida, sem, contudo, deixar de influenciar aqueles que confiaram em sua liderança para ajudar o futebol nipônico a progredir.

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