quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O agônico vice-campeonato brasileiro da Portuguesa em 1996

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Falar na Associação Portuguesa de Desportos, a Lusa, é recordar Julinho Botelho, Djalma Santos, Leivinha, Enéas, Dener e outros nomes importantes do futebol brasileiro. Também aparecerão no assunto alguns títulos do Rio São-Paulo e do Paulistão, especialmente o notório torneio de 1973, cujo desfecho inusitado obrigou a Federação Paulista a dividir a láurea entre Portuguesa e Santos. Inevitavelmente, em algum momento, será necessário falar sobre o agridoce ano de 1996.

Portuguesa 1996 Lusa
Foto: Agência Estado/Arte: O Futebólogo

Altos e baixos em 1995


Quando se desenhou o ano de 1995, a Portuguesa vinha de campanhas medianas, tanto em âmbito estadual quanto nacional. Seguia sendo um time tradicional, mas pouco aspirava. Porém, naquele momento, o time recebeu um reforço de caixa. O Frigorífico Chapecó acertou um contrato de patrocínio com a Lusa, assegurando um bom dinheiro ao time, que já contava em seus quadros com uma base forte de jogadores.

O desempenho da Lusa no primeiro turno do Paulistão de 1995 seria brilhante. A melhor campanha da dita fase revelou um time que venceu 16 de suas 30 partidas, tendo a segunda melhor defesa, com 29 gols concedidos, e o segundo melhor ataque, responsável por 47 gols. “Ainda não ganhamos nada. Espero que no segundo turno o time mantenha a regularidade [...] Se o campeonato fosse disputado em turno e returno, nossas chances seriam enormes de conseguir o título [...] Mas temos um trunfo em relação aos outros times, o nosso entrosamento”, disse Candinho, o treinador do time à época, à Folha.

No entanto, aquela classificação, celebrada pelo presidente do clube, Manoel Gonçalves Pacheco, que reconhecia que o clube estava em dívida com seu torcedor, não dava nenhuma regalia na fase final. A Portuguesa acabou não conseguindo chegar à decisão, que seria vencida pelo Corinthians.

Zé Roberto Portuguesa
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Naquela altura, apesar do brilho inicial, houve troca de comando. Candinho deu lugar a Levir Culpi. Mesmo possuindo uma base de jogadores que já contava com a juventude, o talento e a vitalidade de Zé Maria, pela lateral direita, e de Zé Roberto, pela esquerda; a força na dupla de zaga composta por Jorginho (irmão de Júnior Baiano) e Gilmar; o poder de marcação e a entrega de Capitão; a vitalidade de Roque; a rapidez de Zinho; e os gols de Tiba e Flávio; a Portuguesa oscilou muito. E sentiu algumas mudanças, como a saída de Paulinho McLaren para o Cruzeiro, após o Campeonato Paulista.

“O time foi muito bem no Paulista e quase chegou às finais. Apesar das mudanças de jogadores, tenho pedido que a dedicação mostrada no primeiro semestre continue a mesma”, disse Culpi, ainda no início do certame nacional, à Folha.

A 10ª colocação na classificação final de uma campeonato com formato curioso — uma primeira fase em que os 24 grupos eram divididos em dois grupos, com os campeões indo às semifinais, e uma segunda fase nos mesmos moldes — revelou bem o que foi o ano da Lusa. O time mostrou ser capaz de bater um forte Palmeiras no Palestra Itália, mas também de perder para o Bragantino, 3 a 0, em seus domínios.

Entretanto, os bons momentos tiveram seu impacto: Zé Maria recebeu a Bola de Prata da revista Placar ao final do ano. “O festejado titular Edinho deu mole e Zé Maria roubou o seu lugar com ótimas arrancadas, força física e cruzamentos na medida”, relatou a publicação. Na tentativa de renovar os ânimos e de reviver o bom início de ano de 1995, aconteceram novas mudanças para 1996, devolvendo expectativas ao torcedor da Fabulosa.

Zé Maria Portuguesa
Foto: Maurício de Souza/Estadão/Arte: O Futebólogo

Valdir Espinosa não foi a solução, que não estava longe dali


Se a tentativa com Levir Culpi não tinha surtido os efeitos esperados, a Portuguesa buscou um novo nome. Àquela altura, Valdir Espinosa já era um técnico dos mais experimentados do mercado brasileiro. Idolatrado no Grêmio, acumulava passagens por Botafogo, Flamengo, Atlético Mineiro e Palmeiras. Algumas boas, outras nem tanto.

O contrato de patrocínio com o Frigorífico Chapecó ia até o final do Paulistão, o que ajudou o time a fazer alguns investimentos. O goleiro Clemer foi um dos principais, titular desde a estreia no estadual, contra o Araçatuba. Logo, também seria incorporados Alexandre Gallo, o meia Caio, que retornou após uma passagem pelo futebol japonês, sem falar no saudoso atacante Alex Alves, que, após passagem medíocre pelo Palmeiras, buscava se recuperar.

Além disso, dois jovens logo assumiriam a titularidade na zaga: César e Emerson. E, no ataque, um outro garoto ganharia status de estrela. Depois de participar de escassas partidas na temporada anterior, Rodrigo, que se tornaria Rodrigo Fabri anos mais tarde, representaria a maior reserva de talento do time.

Rodrigo Fabri Portuguesa Grêmio
Foto: Mauro Vieira/Agência RBS/Arte: O Futebólogo

A Lusa terminaria o Campeonato Paulista na terceira colocação, depois de vencer o anacrônico torneio início. Foi uma boa campanha, em que simplesmente nenhum time conseguiria roubar o título do Palmeiras. Com aquela que é provavelmente a melhor campanha de um time em qualquer torneio estadual da história, o Verdão somou 83 pontos. Venceu 27 de 30 jogos. Perdeu apenas uma vez, marcando inigualáveis 102 gols e concedendo míseros 19. Era humanamente impossível parar o ataque comandado por Djalminha, Rivaldo, Müller e Luizão. Não adiantava tentar.

Logo, passou a parecer que a Portuguesa degringolaria, à exemplo do ano anterior. Espinosa acertou com o Corinthians ao final do certame estadual, deixando clara sua motivação à Folha: “Foi mais vantajoso financeiramente vir para o Corinthians”. Além disso, Zé Maria foi vendido ao Flamengo, deixando vaga a lateral direita, logo ocupada pelo constantemente criticado Valmir. Também o patrocínio acabou, com a camisa da Lusa logo passando a estampar a marca dos Amarinhos Fernando.

Porém, o torcedor, acostumado a viver à margem das glórias, foi gradualmente ganhando motivos para sorrir. Candinho reassumiu o posto de treinador da equipe. Ele conhecia bem o time e, rapidamente, promoveria mudanças que impactariam o restante da temporada da Fabulosa. Zé Roberto, que havia sido alternativa ruim como volante sob a tutela de Espinosa, teria mais liberdade para atacar pela lateral e, quando deslocado ao meio-campo, também poderia explorar seu talento. Já Rodrigo Fabri se tornaria titular, em definitivo.

Oscilando, mas contando com uma rara sorte


Seguindo a mesma toada da campanha do ano anterior, a Portuguesa não mostrou sintonia fina no começo do Brasileirão de 1996. De cara, perdeu para o São Paulo na estreia. Porém, houve um ponto positivo na primeira rodada. Vindo do banco de reservas, Fabri marcou o gol de honra da Fabulosa, na derrota por 2 a 1. Na sequência, vitórias contra Corinthians, Paraná e Galo empolgaram. Tudo para o time entrar em completa instabilidade a seguir.

O ponto mais baixo da campanha da Lusa aconteceria entre as rodadas 12 e 14, três derrotas para Grêmio, Juventude e Goiás. Além disso, o time viveria um dia de polêmica na 8ª rodada, empate contra o Vitória, 2 a 2. Acusado de prejudicar a equipe paulista, o árbitro Léo Feldman presenciou a ira da torcida da Portuguesa no Canindé e indicou que teria sido intimidado por dirigentes da agremiação. O resultado para os paulistanos foi a perda do direito de atuar no Canindé até o final da primeira fase, punição que começou a viger na partida contra o Palmeiras, cinco rodadas antes do fim da dita fase.

Portuguesa Vitória  2-2 Feldman 1996

"Sem dúvida, nós fomos muito prejudicados. Se a Portuguesa não vencesse os últimos jogos e não estivesse brigando pela vaga, iríamos perder apenas o mando de um jogo", garantiu Rodrigo Fabri à Folha.

O fato é que, entre muita oscilação, a Portuguesa chegou à última rodada em uma situação das piores, considerando a aspiração de avançar aos playoffs — naquele ano, os oito melhores times avançavam a uma fase de mata-matas, em que os melhores classificados enfrentavam os piores, tendo também a vantagem de jogar por dois resultados iguais. A Lusa precisava vencer o Botafogo, como mandante, mas em Curitiba, e torcer por derrotas de Internacional, Sport e São Paulo.

“Marcar a partida para Curitiba é uma piada. Não dá para concorrer com Paraná e São Paulo, nem com o Atlético, que briga pela liderança, e Criciúma. Quem irá ver a Portuguesa? Jogaremos para ninguém", reclamou Ilídio Lico, vice-presidente de futebol da Portuguesa.


A Lusa fez sua parte: bateu o Fogão por 4 a 1. E deu tudo certo, como anunciaria o jornalista Juca Kfouri: “Nem Internacional nem São Paulo. Enfim o pão da Portuguesa não caiu com a manteiga virada para o chão”. Era um momento catártico para a tão sofrida torcida da Lusa. Porém, não havia tempo para comemorar, já que o Cruzeiro, de melhor campanha dentre todos, estava à espera.

Classificação à moda mineira


Franca favorita, a Raposa foi varrida na partida de ida. “Usamos a nosso favor o favoritismo dado ao Cruzeiro, onde os 'holofotes' estavam todos para eles. Jogávamos retrancados e era bola para Rodrigo Fabri e Alex Alves, que viviam uma ótima fase e saíam os gols”, disse Emerson ao blog Arquivos e Histórias FC. Na ida, Rodrigo, com uma cavadinha por cima de Dida, abriu o placar e Alex, duas vezes em contragolpes vertiginosos, condenou o time celeste a buscar reverter uma desvantagem de 3 a 0, no Mineirão.

No Gigante da Pampulha, o Cruzeiro venceu pela margem magra de 1 a 0 e ficou pelo caminho. Curiosamente, a eliminatória contra a Raposa é lembrada por grandes atuações do sempre criticado Valmir. Outro que teve papel crucial foi Capitão, anulando Palhinha, o maior artífice dos mineiros. É de se destacar, também, que a Portuguesa chegou à eliminatória com um problema: perdera Zinho, lesionado. A opção, que funcionou melhor que a encomenda, foi deslocar Zé Roberto para o meio, promovendo a entrada de Carlos Roberto na ala.


Depois de passar pelo time estrelado, a Fabulosa teve de eliminar o grande rival cruzeirense, o Galo. Impulsionado pela sintonia da dupla de ataque formada por Euller e Renaldo, e contando com peças importantes em outros setores, como Taffarel, Ronaldo Guiaro e Doriva, o alvinegro também era favorito.

De novo, a Lusa fez o dever de casa, vencendo a partida de ida por 1 a 0. Outra vez, com protagonismo de Rodrigo e Alex Alves. O primeiro assistindo para o segundo marcar. O jogo também ficou marcado pelas acusações dos paulistanos de que o árbitro, ciente de que os mineiros tinham vários jogadores pendurados, evitou amarelar seus jogadores. Na volta, um grande jogo garantiu a chegada da Portuguesa à final.

Mineiramente, comendo quieta e sempre como azarona, a última classificada aos playoffs chegou à decisão, depois de um 2 a 2 emocionante. De pênalti, Renaldo abriu o placar em Mineirão absolutamente abarrotado. Caio, também em cobrança penal, e Alex Alves, contando com falha de Taffarel, garantiram a virada da Lusa. Mas Euller empatou e o Galo pressionou até o apito derradeiro. No finalzinho, Clemer operaria um milagre, parando uma bomba de Moacir.


Azar, afinal


Enfim finalista, vivendo o auge de sua história, a Portuguesa teve pela frente o Grêmio, de Felipão e que havia sido campeão da Copa Libertadores da América no ano anterior. Uma vez mais, a Fabulosa mostrou sua força em casa.

Em um esvaziado Morumbi, considerando o dilúvio que se abateu sobre a cidade de São Paulo, os gaúchos viram Marco Antônio ser expulso aos 36 minutos da etapa inicial e Alexandre Gallo, na cobrança da infração marcada, abrir a contagem para a Portuguesa. Na segunda etapa, Rodrigo Fabri completou cruzamento de Caio e deu números finais à disputa, 2 a 0. O torcedor da Lusa, que naquela altura já era acompanhado por são paulinos, corintianos e palmeirenses, não podia pedir nada mais aos céus.


Entretanto, na volta, Paulo Nunes, um dos artilheiros daquele ano, ao lado de Renaldo, fez exatamente o que o Tricolor Gaúcho precisava. Abriu a contagem para o Grêmio, logo aos cinco minutos da etapa inicial, incendiando o estádio Olímpico. 

A Lusa sustentou esse placar até o final. Mais especificamente, até os 39 do segundo tempo, quando Aílton pôs fim à angústia gremista e transformou o sonho da Lusa, que havia tido pelo menos duas chances de empatar o jogo com Rodrigo, em pesadelo. Com 2 a 0 e a vantagem de jogar por resultados iguais, os gaúchos mostraram mais uma vez sua força em mata-matas.

“Faltou maturidade para o nosso time. Penso que se tivéssemos um pouco mais de experiência com certeza sairíamos de Porto Alegre com o título. Enfrentamos uma equipe boa e que tinha mais rodagem que nós. O título ficou em boas mãos”, disse César, também ao blog Arquivos e Histórias FC.


A derrota também significou a perda da possibilidade de jogar a Copa Libertadores do ano seguinte, já que apenas o campeão se classificava pelo Brasileirão. Mas nem tudo foi ruim: Zé Roberto e Rodrigo Fabri foram premiados com a Bola de Prata da revista Placar, naquele ano. E, logo depois, surgiu uma hipótese promissora para a Lusa.

A Círio, empresa que administrava os italianos da Lazio, queria fazer o mesmo com a Fabulosa, nos moldes do que a Parmalat operava no Palmeiras. Além de querer expandir seus negócios para o Brasil, a empresa, liderada por Sergio Cragnotti, buscava facilitar as transferências de Zé e Fabri para os Biancocelesti. Mas a Lusa tinha negócios pelos dois engatilhados com o Real Madrid e tudo foi por água abaixo.

A Portuguesa faria boa campanha em 1997. Mas a sorte não voltaria a lhe sorrir tão intensamente. Em 1998, a equipe ficaria escandalizada no Paulistão. Na semifinal, contra o Corinthians, o árbitro argentino Javier Castrilli seria acusado de roubo pela Lusa. Na oportunidade, o juiz apontou pênalti para o Timão, aos 48 minutos do segundo tempo, como se a bola tivesse batido na mão do zagueiro César, dentro da área. As imagens mostraram que o esférico pegou no peito do beque. Ao final do ano, outra desilusão. A Lusa chegou às semifinais do Brasileirão, mas caiu ante o Cruzeiro, que pôde enfim se vingar.

Desde então, foram escassos os momentos de brilho da Lusa, que chegou ao fundo do poço em 2013, após o famigerado Caso Héverton. Em nenhum momento, entretanto, ao torcedor da Fabulosa foi possível esquecer as emoções vividas em meados dos anos 1990. Ali, o time foi motivo de orgulho. Pelos grandes jogadores que revelou, o modo como cresceu na adversidade, o brio em momentos em que a influência de fatores externos o prejudicou e, claro, pelos resultados e jogos inesquecíveis.

2 comentários:

  1. Muito bom texto! Tarde amarga, aquela da semifinal de 1996. Sem falar que o pênalti da Lusa foi meio mandrake e que o VAR certamente anularia o 2o gol deles...

    Uma observação sobre o comentário do "inigualável" paulista do Palmeiras daquele ano. Talvez. Mas vale uma comparação com o Galo dos mineiros de 1986 e, principalmente, 1980.

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    1. De fato, é possível a questão do penal. Sobre o Paulistão do Palmeiras, eu tendo a pensar que é mesmo inigualável, mas é muito difícil comparar épocas diferentes e torneios diferentes. A campanha do Palmeiras é uma coisa absurda, fico pensando o que o time teria feito no Brasileiro sem o desmanche.

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