quarta-feira, 26 de maio de 2021

1978: O ano em que a Tunísia libertou seu continente

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O pós-guerra foi um período com demasiadas implicações ao redor do globo. Para a maior parte dos países africanos, impulsionou processos de independência e guerras civis. No cosmos esportivo, as nações descolonizadas passaram a ter a oportunidade de se apresentar. Porém, além de largarem muito atrás em seu próprio desenvolvimento, foram obrigadas a se submeter a condições desequilibradas. Toda e qualquer vitória tinha de ser celebrada. Em 1978, os feitos da Tunísia significariam muito para o país e seu continente.

Tunisia 1978
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Independência política


A Tunísia foi um dos países africanos que menos tempo esperou para ver garantida sua independência. Os processos de emancipação política haviam sido iniciados em 1934. Pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, em uma altura em que o fascismo se expandia rápida e implacavelmente, Habib Bourguiba criou o Partido da Nova Constituição, conhecido como Neo Destour.

A Guerra eclodiu, reduzindo boa parte da Europa a escombros. Enquanto isso, as lideranças do movimento independentista tunisiano foram alvo de séries de prisões; o progresso entrou em compasso de espera. As Potências do Eixo chegaram até mesmo a libertá-los após uma vitória na França, esperando, assim, cooptá-los para sua causa. Bourguiba se recusou, categoricamente, ainda que outros líderes tenham aceitado a oferta.

Em 1952, após tentativas fracassadas de negociação pacífica, uma revolução armada ganharia força. Bourguiba seria preso mais uma vez, permanecendo em cárcere por dois anos, antes de ser exilado na França. Então, as tratativas independentistas avançaram, apesar da oposição de Salah ben Youssef, que ganhara força no partido durante a ausência de Bourguiba, defendendo o uso de violência, se necessário. No entanto, após o Congresso de Sfax, em 1955, a liderança pacífica seria reafirmada.

Acordo Franco-Tunisiano Folha de São Paulo

No ano seguinte, Tunísia e França alcançaram o acordo que o historiador Eric Hobsbawn chamou de uma “modesta antecipação” aos outros países do continente africano.

Em 21 de março de 1956, no dia seguinte à conclusão do Acordo Franco-Tunisiano, a Folha publicou excerto do documento: “Os dois governos verificam que o desenvolvimento harmonioso e pacífico das relações franco-tunisianas corresponde aos imperativos do mundo moderno [...] No respeito de suas soberanias, a França e a Tunísia concordam em definir ou completar as modalidades de uma interdependência livremente realizada entre os dois países, organizando sua cooperação nos domínios em que seus interesses são comuns”.

Foi no próprio 1956 que o futebol do país começou a caminhar, com a formação de sua federação. No ano seguinte, acabaria ainda o regime monárquico, com Habib Bourguiba se tornando o primeiro presidente do país, cargo ocupado até 1987.

Insignificância esportiva


A primeira partida de futebol oficial da Tunísia aconteceu em 1957, durante os Jogos Pan-Arábicos: vitória ante a Líbia, 4 a 3. O país não participaria das eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958, vivendo nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, sua primeira viagem de destaque. Contudo, com três derrotas para Dinamarca, Argentina e Polônia, as Águias de Cartago logo voltaram para casa.

Os tunisianos disputaram as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1962. Depois de empatarem em pontos com o Marrocos, perderam vaga na rodada decisiva em um cara ou coroa. Ainda assim, mesmo que tivessem avançado e superado Gana, na sequência, seria quase impossível chegar ao Mundial. Afinal, ainda precisariam vencer uma nação europeia, no caso a Espanha.

A África não tinha direito, sequer, a uma vaga direta na Copa do Mundo. E foi justamente por isso que as nações do Berço do Mundo não jogaram as classificatórias para o certame seguinte. Irresignados com tamanha injustiça, os representantes da CAF abriram mão da disputa das eliminatórias. Nesse ínterim, a Tunísia alcançou seus primeiros resultados relevantes. Terminou em terceiro lugar a Copa Africana de Nações de 1962, e ficou com o vice-campeonato, três anos mais tarde, na condição de país-sede.


Entretanto, as Águias de Cartago logo retornaram a um lugar de insignificância. Não se classificaram para o torneio continental de 1968 e não entrariam na disputa dos certames de 70, 72 e 74. Melhor sorte não encontrariam na tentativa de chegar aos Mundiais. Em 1970, acompanharam o fracasso marroquino. Quatro anos mais tarde, veriam outra participação africana nada memorável ser protagonizada pelo Zaire. Uma revolução estava prestes a se iniciar, porém.

Do Étoile du Sahel para a seleção nacional


Abdelmajid Chetali era ídolo do Étoile du Sahel quando, em 1975, foi anunciado como treinador da Tunísia. Como atleta, acumulava três títulos nacionais. Na condição de comandante, somava mais um. Havia, além disso, sido jogador de destaque pela seleção. Capitão durante certo período, comparecera à citada Olimpíada de 1960, disputando, ademais, as Copas Africanas de Nações de 1963 e 65. Contudo, não era apenas esse recorde histórico que o credenciava a liderar as Águias de Cartago.

Chetali havia estudado na Alemanha Ocidental. Dentre outras figuras, Hennes Weisweiller, o mítico treinador do Borussia Mönchengladbach nos anos 1960 e 70, seria um de seus mestres. Ao estilo de jogo tradicional em seu país, marcado por uma boa dose de imprevisibilidade, adicionou pragmatismo e novos conceitos táticos, como o uso da linha de impedimento.

O primeiro desafio não seria superado. Nas classificatórias para o torneio continental de 1976, a Tunísia caiu perante o Sudão, após eliminar Líbia e a rival Argélia. Nada que interrompesse o trabalho em progresso. As principais recompensas chegariam logo.

Chetali Tunisia
Foto: fifa.com/Arte: O Futebólogo

O treinador conduziu sua seleção à Copa Africana de 1978, com distinção. Pelo caminho, deixou um rival e tradicional vencedor do certame, o Egito, e a forte equipe de Guiné, que contava com o melhor africano do ano de 1972, Chérif Souleymane. Tais acontecimentos foram levados a cabo em 1977, ano em que, pela primeira vez, um tunisiano se sagraria o jogador do ano no continente. A honraria coube ao meia-atacante Tarak Dhiab.

O mais importante daquele ano, todavia, foi a classificação para a Copa do Mundo de 1978. Ela veio de forma inquestionável. Em dois anos de disputas, as Águias de Cartago eliminaram seus três principais rivais, Marrocos, Argélia e Egito, voltaram a bater Guiné e ainda tiveram que eliminar os fortes nigerianos. Em especial, o jogo da classificação não deixou margem para dúvidas de que aquele time devia ser tratado com seriedade.

Era preciso vencer os egípcios. E o triunfo foi impetuoso: 4 a 1, que foi transmitido para o Brasil pela Rede Globo. Aquele jogo valeu muito. Rompido com o presidente egípcio Anwar Sadat, desde uma visita a Israel, o líder líbio Muammar Kadafi havia prometido um prêmio em dinheiro para os tunisianos em caso de vitória. E não foi só isso.


“Pela classificação, recebemos três mil dólares, uma taça e uma câmera fotográfica. Mas, acima de tudo, o elogio de Bourguiba e a recepção no palácio presidencial em Cartago”, contou o antigo meio-campista Nejib Ghommidh, ao portal Il Nobile Calcio.

O movimentado ano de 1978


Se futebolisticamente as coisas finalmente pareciam caminhar para a Tunísia, a situação política da nação não era das mais simples. Em janeiro de 1978, o NY Times reportou que uma greve geral que deveria ter durado apenas 24 horas descambou para violência, levando várias cidades a decretar estado de emergência, no que o jornal considerou “o primeiro desafio sério ao presidente Habib Bourguiba, em seus 22 anos de governo”. Os atos foram avaliados como demonstração de força dos chefes sindicais locais.

Dois meses mais tarde, as Águias de Cartago estreavam na Copa Africana de Nações. Em Gana, foram colocados no Grupo B, ao lado de Uganda, Marrocos e Congo. Avançaram às semifinais, mas caíram perante os anfitriões, ficando com o quarto lugar. 

As circunstâncias, todavia, seriam polêmicas. Considerando ilegal o gol marcado pela Nigéria na disputa pelo bronze, o time abandonou o gramado aos 42 minutos, quando o placar indicava 1 a 1. A vitória foi atribuída às Super Águias e a Tunísia foi banida da disputa da próxima Copa Africana de Nações.

Tarak Dhiab Tunisia


O melhor estava por vir.

Participando pela primeira vez de um Mundial, os tunisianos viajaram à Argentina com a mais baixa cotação das casas de apostas. Os recentes desempenhos ruins de Marrocos e Zaire sugeriam outro fracasso africano. Mas aquele time, que se apresentava em um móvel, porém disciplinado, esquema tático 4-3-3, estava determinado a mudar a sorte de seu continente. Chetali não alterava apenas o futebol tunisiano, também sua mentalidade.

“Chegamos à Argentina com muito medo. O Zaire tinha ido muito mal na última Copa do Mundo e muitos sentiam que sofreríamos o mesmo destino. Não nos deram chance. Mas nos preparamos muito bem e estávamos confiantes”, disse Dhiab, à BBC.

A missão dos homens de Chetali era mesmo dura: no Grupo 2, teriam que superar o México, de Hugo Sánchez; a Polônia, dos talentosos Grzegorz Lato, Kazimierz Deyna, do goleiro Jan Tomaszewski, e que, no banco, ainda tinha Zbigniew Boniek; e a tradicional Alemanha Ocidental, cujo grande destaque era Karl-Heinz Rummenigge. Não perdendo todas as partidas, poderia igualar os feitos marroquinos de 1970.

Stickers Tunisia 1978
Foto: Panini

Contra o México, história reescrita


Até a tarde de 2 de junho de 1978, nenhuma equipe africana havia vencido uma partida de Copa do Mundo. E parecia que melhor sorte não encontraria a Tunísia, no Gigante de Arroyito, em Rosário. Ao final dos primeiros 45 minutos de sua estreia, o México abriu o placar, a partir de uma penalidade máxima tola, concedida pelas Águias de Cartago após Amor Jebali cortar um cruzamento de Antonio de la Torre com o braço. Porém, Chetali não se conformaria com aquilo.

“No intervalo, o treinador nos disse que estávamos tratando nossos adversários com respeito demais. Ele insistiu que podíamos vencer o jogo se dividissemos as bolas duramente e impuséssemos nossa autoconfiança”, contou Dhiab, que foi acompanhado por Ghommidh: “No intervalo, Chetali nos disse para avançarmos os dois laterais. Ele nos ensinou que um jogo disputado inteiramente na defesa pode ser insustentável”.


Na volta dos vestiários, tudo mudou. O primeiro tento africano saiu dos pés de Ali Kaabi, com um chute no canto do goleiro José Pilar Reyes. Adiante, Ghommidh invadiu a área mexicana e virou o jogo. Por fim, o citado Ghommidh enfiou bola precisa para a entrada em velocidade de Mokhtar Dhouieb: 3 a 1. O tabu havia caído. No dia seguinte, a Folha destacou o impacto do triunfo tunisiano: “Tunísia vem com tudo e surpreende o Mundo”. Por sua vez, a BBC mencionou o fim daquela ingrata senda de resultados ruins para os africanos: “Tunísia quebra o feitiço”.

“Essa foi a primeira partida de Copa do Mundo vencida por um time africano. Estávamos perdendo por um gol no intervalo, mas os cantos de ‘Tunísia, Tunísia’, vindos das arquibancadas realmente nos deram um incentivo e fomos capazes de mudar as coisas ao nosso favor”, falou Dhiab ao The Africa Report.

Folha de São Paulo Tunísia México 1978

O segundo desafio foi contra a Polônia. Outra vez, a seleção árabe deu mostra de força. Não fosse uma boa jogada iniciada por Lato, e que contou com falha de Kaabi, a Tunísia poderia ter tido maior sucesso. 

Naquela tarde, com três zagueiros, os africanos se saíram bem, chegaram a carimbar a trave de Tomaszewski, mas o gol não saiu e o placar sinalizou o magro 1 a 0 polaco, ao final. “A Polônia era, obviamente, melhor do que o México. Eles tinham grandes jogadores como Lato, Boniek e Denya. Mas jogamos realmente bem e deveríamos ter vencido. Perdemos cerca de quatro ou cinco chances”, disse Dhiab.


Finalmente, a Tunísia apostou suas últimas fichas na partida contra a Alemanha Ocidental. Chetali já havia dado seu recado: “A Alemanha é uma grande equipe, porém nós já não nos assustamos com ninguém”, reportou a Folha. O zero não saiu do placar. Com uma vitória, um empate e uma derrota, as Águias de Cartago terminaram o grupo atrás de poloneses e alemães, eliminadas. Mas, a viagem à Argentina foi considerada um sucesso.


A volta para casa


“No final, ainda terminamos à frente dos franceses. Foi excelente. Todos pensamos em qual prêmio nos seria dado ao chegar em casa. Mas o maior prêmio foi a recepção dos tunisianos. Eles estavam literalmente malucos”, contou Ghommidh. Não era para menos. O medo de repetir as participações de Marrocos e Zaire se revelara infundado. Finalmente, ficara provado que a África podia competir no maior palco do futebol mundial.

Apesar disso, a punição na Copa Africana de Nações e desacordos com a Federação Tunisiana levaram Chetali a deixar o comando técnico da equipe, na sequência. Não há dúvidas de que ele foi um dos grandes responsáveis por aquele desempenho: “Junto com uma preparação adequada, Chetali sabia comandar os vestiários, sabia achar as palavras certas para nos motivar a dar o nosso máximo”, garantiu Dhouib, aos tunisianos do LaPresse.

Folha de São Paulo Tunísia Alemanha Ocidental 1978

A Tunísia só voltaria a viver bons momentos no final dos anos 1990 e começo dos 2000, classificando-se para os Mundiais de 1998, 2002 e 2006, e conquistando a Copa Africana de Nações de 2004. Porém, o impacto de seus feitos ressoou nas Copas do Mundo subsequentes. Em 1982, seria a vez de Argélia e Camarões fazerem boas participações. Quatro anos mais tarde, seriam os marroquinos a brilhar. Em 1990, os camaroneses voltariam com força, chegando às quartas de finais da Copa do Mundo da Itália.

É evidente que, como um todo, o futebol africano foi evoluindo conforme os anos transcorreram. Aos poucos, os principais jogadores do continente foram chegando ao futebol europeu. Com efeito, são inegáveis as consequências moralizantes que a campanha da Tunísia, em 1978, produziu no continente. Ali, as Águias de Cartago provaram: os africanos não estavam condenados a ser sacos de pancada nos Mundiais.

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