quarta-feira, 9 de junho de 2021

A Recopa que premiou o talento e a crença do Zaragoza

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Há acontecimentos que parecem destinados a ocorrer em determinadas localidades. Poucas delas se revelariam tão apropriadas para ser palco do triunfo das virtudes artísticas, em detrimento da força, quanto Paris. O dia 10 de maio de 1995 se confirmou uma dessas datas em que um competidor confiante em sua técnica superou o favoritismo de um opositor pragmático. Nele, o Zaragoza subjugou o Arsenal, exibindo recursos especiais.

Zaragoza 1994-95 Recopa
Foto: Libertad Digital / Arte: O Futebólogo


Chega Víctor Fernández


Ao longo dos anos, a Comunidade Autônoma de Aragão se acostumou a enxergar apenas um clube de futebol em seu horizonte. O Real Zaragoza se transformou em motivo de orgulho regional. Que não fosse um costumeiro campeão, desde sua afirmação como time de elite na Espanha, na segunda metade dos anos 1950, o clube se revelou um valoroso competidor.

Na década seguinte, flertaria com o título nacional e conquistaria algumas vezes a Copa do Generalíssimo. Ademais, venceria a Copa das Feiras, em 1963-64. Aquele time ganharia até mesmo nome próprio: Los Magníficos, em alusão ao ataque formado por Canário, Santos, Marcelino, Villa e Lapetra.

Los Magníficos Zaragoza
Foto: Heraldo / Arte: O Futebólogo

Apesar de alguma oscilação em determinados períodos, o Zaragoza seria muito respeitado. Campanhas como a do vice-campeonato espanhol em 1974-75 ajudariam o clube a manter esse estatuto, ao longo de mais alguns anos.

Contudo, quando se anunciou a década de 1990, o time voltou a se colocar em maus lençóis. Treinado pelo uruguaio Ildo Maneiro, acumulou uma série de resultados ruins nas primeiras 24 rodadas de La Liga 1990-91. Com 10 derrotas, sete empates e parcas sete vitórias, os Maños fecharam o período na 12ª colocação, com apenas dois pontos a mais do que o Valladolid, o primeiro time da zona de playoffs de acesso/descenso.

A sequência de cinco rodadas sem vitória foi suficiente para ocasionar um pedido de demissão de Maneiro. No dia 04 de março de 1991, uma nova história começou a ser escrita para o Zaragoza. Com um passado obscuro como atleta, não chegando a se profissionalizar, Víctor Fernández, que tinha sido auxiliar técnico de Radomir Antic e treinava a filial dos Blancos, o Deportivo Aragón, foi o escolhido para a sucessão. Tinha 30 anos.

Víctor Fernández Zaragoza
Foto: EFE / Arte: O Futebólogo

“Os torcedores não estão com o time, torcem como se estivessem na segunda divisão, ao invés da primeira. Não me sinto fracassado, mas passei por um período muito duro e, emocionalmente, estou no limite [...] Ele [Víctor Fernández] é uma pessoa muito capacitada. O elenco o apoiará, mas a situação que terá que viver não é boa como deveria ser”, disse Ildo em sua despedida.

A verdade é que nas 14 rodadas em que liderou os Maños, Fernández não conseguiu extrair muito mais de seus comandados. Estreou com derrota frente ao Valencia. Ao todo, foram seis derrotas, quatro empates e quatro vitórias. O time precisou disputar o playoff de permanência. Depois de empatar sem gols com o Murcia, o clube se salvou: venceu em casa por 5 a 2, com destaque para dois jogadores que viriam a ser emblemáticos para o clube: Gustavo Poyet e Miguel Pardeza.

“Não ganhamos nada, apenas sobrevivemos, por uma cidade, por nós mesmos, por uma diretoria que, ainda que às vezes não acerte, tenta o melhor para o clube [...] tivemos uma temporada desastrosa e o que aconteceu deve servir a nós todos como uma chamada de atenção: precisamos ter uma política esportiva adequada e com objetivos prioritários, de acordo com nossos recursos econômicos [...] quero que seja um conjunto com muito entusiasmo, com uma cara diferente, jovem e que tenha vontade de triunfar”, falou Fernández, após a vitória do alívio.

Crescendo: devagar e sempre


Doze meses depois de quase cair para a segundona, o Zaragoza havia renascido. No plano do time, pouca coisa havia mudado. O polêmico goleiro paraguaio José Luis Chilavert havia partido para o Vélez Sarsfield; por outro lado, o time adicionou às suas fileiras o lateral esquerdo Chucho Solana, ex-Real Madrid, e o meio-campista argentino Darío Franco, vindo do Newell’s Old Boys. Dentro das quatro linhas, o time já era outro.

Em 1991-92, o Zaragoza terminou La Liga na sexta colocação, assegurando a classificação para a Copa da UEFA, que o clube levaria até a terceira fase, sendo eliminado pelo vice-campeão, o Borussia Dortmund. 

No ano seguinte, a campanha no campeonato nacional seria ligeiramente pior, mas acabaria compensada pelo brilho na Copa do Rei, contando com o acréscimo de experiência trazido pelo alemão Andreas Brehme. Contudo, nem o veterano nem Pardeza, que naquela altura já era o jogador mais decisivo do time, estiveram na final. O Real Madrid não teve muitas dificuldades para vencer por 2 a 0.


Para a temporada 1993-94, o time fez apostas. No próprio Real Madrid, encontrou o jovem atacante argentino Juan Esnaider. Aos 20 anos, buscava uma oportunidade de provar seu valor. Da Argentina, os Maños trouxeram o zagueiro Fernando Cáceres, ex-River Plate e que não tardaria a representar sua seleção. Além deles, vindo do Tottenham, o hispano-marroquino Nayim, formado no Barcelona, seria repatriado. 

Os três se revelariam peças fundamentais para o que estava sendo construído. Apesar disso, Brehme optou por retornar à Alemanha.

Andreas Brehme Zaragoza
Foto: Kaiser Magazine / Arte: O Futebólogo

Na altura, o Zaragoza já tinha um estilo de jogo bem definido. Víctor Fernández gostava que os Blancos se exibissem em um ofensivo esquema tático 4-3-3. Sua base ficou conhecida por todos os que acompanhavam o time. Cedrún; Belsué, Aguado, Cáceres, Solana; Aragón, Poyet, Nayim (García Sanjuán); Higuera, Esnaider, Pardeza era o típico onze inicial do aragoneses.

“Era um time ambicioso, construído para atacar, para sair para ganhar. Defendemos essa vocação até as últimas consequências. O compromisso coletivo era extraordinário, fora do normal”, contaria o treinador, anos mais tarde, ao Diario AS.

O time que vinha crescendo junto há alguns anos, com poucas mudanças entre as temporadas, finalmente transformou o bom futebol em título. Depois de superar o nanico Izarra, o Zaragoza bateu o tradicional Athletic de Bilbao e, na sequência, o Osasuna. Adiante, foi a vez de o Badajoz ficar pelo caminho, antes de os Maños imperarem na Andaluzia, eliminando Sevilla e Betis. Assim, o clube de Aragão chegou à sua segunda final de Copa do Rei consecutiva.

Na decisão, os homens de Víctor Fernández enfrentaram o Celta de Vigo. “Uma final de titãs”, registraria o jornal La Voz de Galicia, do dia seguinte à decisão. A partida acabaria não sendo da melhor qualidade, com o Mundo Deportivo destacando “a final dos goleiros”, Santiago Cañizares, dos galegos, e Andoni Cedrún, dos aragoneses. O confronto só foi decidido nos pênaltis. Alejo seria o único a desperdiçar, garantindo a taça para o Zaragoza.


Recopa: promessa é dívida


Durante as celebrações do título da Copa do Rei, em um ato de aparente loucura, Cedrún prometeu ao seu torcedor: o time venceria a Recopa Europeia na temporada seguinte. Mesmo que entrasse na competição com o representante da Espanha, o Zaragoza não era visto como uma das equipes favoritas ao título continental. Essa sensação ficou ainda mais forte quando os Maños estrearam com derrota ante os romenos do Gloria Bistrita, 2 a 1.

O time ainda foi obrigado a decidir a primeira eliminatória fora de seus domínios. Punido pelo arremesso de uma moeda no árbitro, quando da disputa da Copa da Uefa de 1992-93, o Zaragoza atuou no Estádio Mestalla, em Valência. Afastando dúvidas, goleou: 4 a 0. A fase seguinte acabaria sendo mais tranquila. Com um placar agregado de 6 a 1, os Blancos eliminaram os eslovacos do Tatran Presov. A felicidade não durou muito, porque adiante veio a primeira pedreira.

Alinhando jogadores famosos como o goleiro Ed de Goey, o meia Rob Witschge e o atacante Henrik Larsson, o Feyenoord se mostrou um adversário duríssimo, também por ter adotado uma abordagem de tal forma física que, em alguns momentos, beirou a violência. “Sem dúvidas, o rival mais duro foi o Feyenoord”, garantiu Nayim, ao Diario AS. Em Roterdã, Larsson marcou o único tento da partida de ida. Na volta, Pardeza e Esnaider fizeram a dupla de gols suficiente para garantir o avanço espanhol.


E a verdade é que houve pouco tempo para as comemorações. O Chelsea estava à espreita. Embora não tivessem conquistado a FA Cup do ano anterior, os Blues haviam se classificado por terem ficado com o vice, na medida em que o campeão Manchester United também havia vencido a Premier League, vindo a disputar a Liga dos Campeões do ano seguinte. O time que operava com o treinador-jogador Glenn Hoddle, não era estrelado, mas trouxe dificuldades.

A partida de ida foi tranquila para os Maños. Pardeza e Esnaider, duas vezes, confirmaram um tranquilo placar de 3 a 0, em La Romareda. Contudo, o Chelsea complicou a classificação aragonesa em Stamford Bridge. “Também me lembro do sofrimento em Stamford Bridge. Já sabíamos o que era o futebol inglês naquele momento, muito físico e duro, e soubemos sofrer apesar de ter baixas importantes, como as de [Xavier] Aguado e Poyet”, continuou Nayim.


Paul Furlong adiantou os ingleses no placar, ainda na primeira etapa. Aragón empatou, mas Frank Sinclair e Mark Stein também marcaram para o time londrino, que pressionou até o final, sobretudo levantando bolas na área dos Blancos, mas de forma ineficaz. Mesmo perdendo por 3 a 1, o Zaragoza avançou à final. Adiante estava outro inglês. Pior: o último campeão.

Alto Aragón Zaragoza Final

Apesar disso, com uma boa campanha em La Liga, que terminaria na sétima colocação, mas com os mesmos pontos do quinto, e rapidamente eliminado da Copa do Rei, o time tinha foco único e exclusivo.

Em Paris: o físico, o talento e o milagre


Quando chegou o dia 10 de maio de 1995, o Parc des Princes, em Paris, recebeu um time do Arsenal que vivia um momento turbulento. O treinador George Graham havia sido demitido, por receber comissões na compra de jogadores, e o time acabaria a Premier League em um pobre 12º lugar. Também dentro dos campos, o futebol não chamava a atenção. As arquibancadas deixavam isso evidente a cada vez em que entoavam: “Boring boring Arsenal” ("chato chato, Arsenal", em tradução livre).

Víctor Fernández e seus jogadores tinham uma boa ideia do que poderiam esperar da decisão. “Seaman, Dixon, Adams, Schwarz, Parlour, Wright, etc., não nos pareciam nem muito refinados nem muito virtuosos, mas era evidente que para vencê-los teríamos que não apenas nos impor em razão de nossa maior capacidade associativa, mas também conseguir não chegar esgotados demais ao final da partida. O tempo era um fator que interviria a favor deles”, indicou Pardeza, em entrevista à revista Líbero.

Cerca de 20 mil torcedores do Zaragoza viajaram a Paris. Outros trinta mil acompanharam a partida em telões instalados na Plaza de Toros e no Pavilhão Príncipe Felipe, na capital aragonesa. De fato, o Zaragoza teve o domínio técnico da partida, fazendo valer o estilo que o havia levado à decisão. Assim, Esnaider abriu o placar, aos 68 minutos. Foi um belo chute de perna canhota, de fora da área. Apesar disso, nove minutos depois, John Hartson empatou a partida, que foi para a prorrogação.

A sensação que se tinha era a de que a partida só seria decidida nas penalidades máximas. Porém, em um desses momentos que não se explica, os Maños mostraram que, de fato, mereciam levantar o caneco europeu. Um tiro de meta mal rebatido por Tony Adams, chegou aos pés de Nayim. Como ex-jogador do Tottenham, o hispano-marroquino conhecia bem o goleiro David Seaman; sabia que o inglês gostava de ficar adiantado.


“É algo instintivo. Levantei a cabeça e vi que tanto Esnaider quanto Pardeza poderiam estar impedidos. Com esse mesmo gesto, vi o goleiro adiantado e a bola ficou em perfeitas condições para pegá-lo”, contou Nayim. 

Em um dos lances mais fantásticos da história do futebol europeu, o meia matou a bola no peito pelo lado direito da intermediária e chutou de muito, muito longe. A bola morreu no fundo das redes defendidas por Seaman. Eram jogados 119 minutos e 40 segundos e não havia mais nada que o Arsenal pudesse fazer.

Cedrún estava certo, o Zaragoza venceria a Recopa. Mais de 200 mil pessoas foram receber os vitoriosos na Plaza del Pilar. Não era para menos: o time de Víctor Fernández conseguira seu segundo título em temporadas consecutivas. E o mais importante, sem trair sua forma de jogar. O gol fantástico de Nayim somente evidenciou o quanto os aragoneses mereceram levantar a taça. Como indicou o Mundo Deportivo do dia seguinte, o Zaragoza foi de Paris ao céu, premiado por nunca ter desistido do jogo e de si mesmo.

Recopazo Mundo Deportivo Zaragoza

2 comentários:

  1. Muito legal o texto. O Zaragoza é um time importante, merece voltar à primeira divisão espanhola.

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