quarta-feira, 2 de junho de 2021

O resgate do Spartak pelas mãos de Oleg Romantsev

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No final dos anos 1980, a União Soviética ruía. Conforme Perestroika e Glasnost produziam seus efeitos, a realidade ia mudando. O microcosmo do futebol não passaria ileso por esse momento. Tradicionalmente, os maiores clubes do país contaram com injeção de recursos de origem estatal. Até mesmo o Spartak de Moscou, lembrado com o Time do Povo, viveria turbulência naquele momento. Ídolos partiam, problemas internos surgiam e os títulos rareavam. Era preciso mudar.

Oleg Romantsev Spartak
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


O retorno de um homem do Spartak


Entre 1977 e 1988, o Spartak foi liderado por Konstantin Beskov. O treinador moscovita havia obtido sucessos pelo Dinamo de Moscou, chegando até mesmo a comandar a URSS. Durante seu período à frente do esquadrão alvirrubro, conquistou duas ligas soviéticas, em 1979 e 1987. Não eram os números mais expressivos, mas o clube também alcançou cinco vices, em um período de domínio do Dinamo de Kiev.

A deposição do comandante não seria baseada apenas nos resultados. Segundo o professor Robert Edelman, vinculado ao Departamento de História da Universidade da Califórnia e autor do livro Spartak Moscow: A History of the People's Team in the Workers' State, Beskov queria mais poder no clube; creditava parte de seus insucessos à ausência de total autonomia para liderar seus atletas. Isso em uma época em que o time ainda era presidido por Nikolai Starostin, o mandatário desde 1955. No choque de personalidades fortes, mas até então de convivência respeitosa, prevaleceu Starostin, que já tinha um substituto na mira.

Oleg Romantsev possuía as credenciais que Starostin procurava. O antigo lateral esquerdo havia sido jogador do clube — e mais do que isso. Em 187 ocasiões, ostentou a braçadeira de capitão do time, menos apenas do que o goleiro Rinat Dasaev. Além disso, representou a Rússia nas Olimpíadas de 1980 e no Mundial de 82. Não havia dúvidas quanto ao fato de ter sido um jogador distinto, cuja carreira foi abreviada um ano após a Copa do Mundo, aos 29 anos.

Oleg Romantsev URSS
Foto: Alexander Makarov/RIA Novosti/Arte: O Futebólogo

Curiosamente, a chegada do atleta Oleg ao clube se deu em circunstâncias pouco usuais. Em 1976, havia sido descoberto no modesto Avtomobilist Krasnoiarsk. Contudo, horrorizado com o ambiente pesado encontrado, disputou apenas dois jogos, antes de retornar ao seu clube de origem. No ano seguinte teve de ser persuadido a dar uma nova chance ao gigante moscovita, sua casa até 83.

Após pendurar as chuteiras, Romantsev não perdeu tempo. Conta-se que Starostin sabia que, futuramente, gostaria de vê-lo no comando do Spartak. Por isso, garantiu sua contratação como treinador pelo Krasnaya Presnya, uma espécie de clube satélite do Spartak. Lá, Oleg permaneceu até 1987 e, após uma campanha no Spartak Ordzhonikidze (atual Alania Vladikavkaz), foi ventilado para assumir seu ex-clube.

A história dá conta de que o retorno de Oleg se deu de forma democrática. Starostin teria definido uma lista tríplice. O comandante seria escolhido a partir do voto dos jogadores. Homens históricos do Spartak, Evgeny Lovchev acabaria sendo considerado excessivamente imprevisível e Igor Netto difícil de lidar. Romantsev acabaria ganhando a preferência de seus futuros comandados — mas há quem diga que o presidente teria proposto a votação sabendo qual seria o resultado.

O resgate do time


Logo em seu retorno ao Spartak, Romantsev foi obrigado a lidar com algumas situações complicadas. Teve de gerir as saídas de Dasaev, que partiu para o Sevilla, e do zagueiro Vagiz Khidiyatullin, para o Toulouse. Ambos eram internacionais importantes para a URSS. Além disso, Oleg foi compelido a acatar a principal exigência do elenco: precisaria pegar mais leve nos treinos físicos na pré-temporada. Entre os atletas, era consensual a ideia de que o time vinha perdendo desempenho nas partes finais dos campeonatos, em razão de um cansaço excessivo.

O treinamento propriamente dito, não seria muito distinto daquele proposto por Beskov, treinador que influenciou Romantsev. Porém, o distanciamento entre comandante e comandados se tornaria menor, o que, de certa forma, contrasta com o fato de que Oleg ganharia o rótulo de treinador durão. Seu esquema tático preferido seria o 1-3-4-2, com o uso imprescindível de um líbero.

Os primeiros bons resultados não tardaram a chegar. Naquele que viria a ser o último Campeonato Soviético com a presença de todas as nações do bloco — em 1990, Letônia, Lituânia, Estônia e Geórgia abandonaram a liga, formando seus próprios campeonatos nacionais —, o Spartak alcançaria uma inesperada glória, como seus torcedores mais gostam: com riqueza de emoções.

Mostovoi Spartak
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Apostando em Stanislav Cherchesov como substituto de Dasaev, e dando oportunidades a uma série de garotos, dentre os quais Aleksandr Mostovoi (seu antigo comandado no Krasnaya), Igor Shalimov e Vasili Kulkov, o time surpreendeu já no início da campanha. Foram 12 rodadas de invencibilidade na reta inicial, incluindo uma goleada ante o Dinamo de Kiev, 4 a 1. Depois de perder para o Dnipro, o time voltaria a emplacar uma longa sequência sem derrotas, até a jornada 24. O Spartak só voltaria a perder na última rodada, em uma altura em que já era o campeão.

“O começo da sua carreira de treinador coincidiu com o início da minha carreira como jogador. Ele me levou, então com 16 anos, para o Krasnaya Presnya. Era, nessa altura, um treinador muito inexperiente, mas rapidamente criamos uma ligação muito próxima. Tornou-se o meu pai no futebol e foi graças a ele que me tornei um jogador de nível”, contou Mostovoi ao site oficial da UEFA.

Em especial, é digno de destaque o confronto que valeu o título ao Time do Povo. Era disputada a penúltima rodada do Campeonato Soviético. Em um Estádio Central Lenin abarrotado, o Spartak recebeu o Dinamo de Kiev, então terceiro colocado, atrás do Dnipro. E não demorou para os kievanos se colocarem em vantagem. Logo aos três minutos da etapa inicial, Oleg Protasov marcou. Já na etapa final, Evgeny Kuznetsov empatou aos 57’. A agonia duraria até o minuto final. Nele, Valeri Shmarov, que sequer era o cobrador oficial de faltas do clube, aproveitou-se de infração cometida pelos ucranianos, no que foi o tento do título.


Ao final da temporada, Netto, que não havia se ressentido por não ter sido contratado, daria o tom daquele ano, ao livro de Edelman: “Tornou-se chato ir ao estádio. Exceto pelo Spartak, a maioria dos times joga de uma forma dura, física”.

A aventura europeia


No ano seguinte ao título soviético, o Spartak não conseguiu renovar a conquista nacional, mas voltou a disputar a Copa dos Campeões da Europa. Para a temporada, fez algumas contratações. Cria dos estonianos do Sport Tallinn, o ainda garoto Valeri Karpin vinha de uma passagem rápida pelo CSKA Moscou e de uma temporada de afirmação no Fakel Voronezh, à época na segunda divisão.

Não foram poucos, tampouco pequenos, os desafios enfrentados pelos moscovitas em sua aventura europeia. Na primeira fase, o Time do Povo mediu forças com o tradicional Sparta Praga, do volante e eventualmente capitão da seleção tcheca, Jiri Nemec. Sem maiores dificuldades, os soviéticos venceram as duas mãos do confronto, ambas por 2 a 0. O problema é que o sorteio da fase seguinte sugeriu que a vodka logo entornaria.

O adversário seria o Napoli. Não bastasse o fato de os homens da Campânia terem se sagrado campeões italianos, durante o eldorado do futebol do Bel Paese, eles ainda traziam um certo Diego Maradona, em seu onze inicial. O curioso é que ao invés de servir de garantia para os napolitanos, o Pibe de Oro se revelaria um problema. Heroicamente, o Spartak segurou um empate sem gols no Stadio San Paolo. Isso significou que a decisão aconteceria no Estádio Central Lenin. Ainda assim, o empate da partida de ida parecia apenas um desvio de rota para os italianos. 

Oleg Romantsev
Foto: Vladimir Rodionov/RIA Novosti/ Arte: O Futebólogo

Porém, suas dificuldades começaram antes do jogo. Maradona vinha na mira da diretoria do Napoli, que já não tolerava seus excessos extracampo, quando decidiu não viajar a Moscou com a delegação do time. Depois de passar mais um dia na esbórnia, na véspera da partida, embarcou para a capital soviética em um avião particular, tendo sido recebido com frieza pela direção do clube e sequer se concentrando. A indisciplina acabaria punida com a reserva no jogo decisivo.

Oitenta e seis mil pessoas presenciaram outro empate por 0 a 0. Naquela altura, para os russos azarões o sonho já não se sugeria mais tão surreal. Apenas os pênaltis separavam aquela equipe veloz, cujo estilo era marcado por passes curtos e movimentação constante, do avanço às quartas de finais europeias.

Karpin inaugurou as batidas com gol. O zagueiro Ciro Ferrara logo empatou. Shalimov e Shmarov também converteram suas cobranças. Massimo Mauro colocou a bola no fundo das redes, mas Marco Baroni desperdiçou sua chance. Kulkov e Maradona marcaram, na quarta rodada de cobranças. Foi Mostovoi quem confirmou o avanço do Spartak. Enquanto a URSS vivia seus últimos dias, o Spartak dava passos largos para entregar à supernação a melhor campanha de um time soviético na Copa dos Campeões da Europa em todos os tempos.


Superando o time mais famoso do planeta


A alegria da vitória não durou muito. Aguardando o Spartak estava o Real Madrid. Treinado por Alfredo Di Stéfano, o time ainda contava com alguns membros da Quinta del Buitre. Não era o melhor dos times merengues, vivendo crise interna, o que não indicava qualquer facilidade. Dessa vez, os moscovitas ainda teriam de decidir seu destino fora de casa.

Na partida de ida, sob os olhares de 81 mil espectadores que enfrentaram o frio de três graus negativos, o empate sem gols sugeria vida tranquila para os madrilenhos no Estádio Santiago Bernabéu. Voluntariamente, Di Stéfano escolheu manter o mexicano Hugo Sánchez e o romeno Gheorghe Hagi no banco de reservas, preservados das baixas temperaturas e do desgastado gramado do Estádio Central Lenin.

Na volta, o roteiro previsto pela maioria dos jornalistas que cobriram o confronto, russos e espanhóis, pareceu começar a ser cumprido já aos nove minutos da etapa inicial. Emilio Butragueño adiantou o Real Madrid na decisão, após uma saída de bola equivocada do Spartak. Contudo, o chute de Shmarov que bateu na trave voltou aos pés de Dmitri Radchenko, que empatou a partida.

Cherchesov evitava mais gols merengues, e, ainda no primeiro tempo, Radchenko virou o jogo. Na etapa final, em contragolpe, recebendo cruzamento vindo da esquerda, Shmarov deu números finais à contenda, para espanto geral: 3 a 1. As arquibancadas aplaudiram os visitantes destemidos e azarões.


“Ainda não assimilei a vitória”, disse Romantsev logo após o confronto, conforme registrou o Mundo Deportivo. Do outro lado, Di Stéfano parabenizou os russos: “Foram superiores ao Madrid. Formam um bom conjunto e hoje foram mais eficientes do que nós. Meu time jogou bem até sofrer o primeiro gol, depois não soube reagir e eles se comportaram muito bem atrás”.

Após o triunfo, Romantsev se tornou o favorito a assumir o comando do Deportivo La Coruña, que retornara à elite do futebol espanhol, após um longo período na segunda divisão. “Buscávamos um novo treinador para o retorno à primeira divisão. O escolhido foi Oleg Romantsev, técnico do Spartak de Moscou, que posteriormente foi treinador da seleção russa. De fato, tínhamos assinado o contrato, mas ele se assustou ao ver o time que o Deportivo tinha quando voltamos”, contou o ex-presidente do Dépor, Augusto César Lendoiro, à revista Líbero.

Constante reconstrução


O sonho europeu do Spartak terminou nas semifinais. Na oportunidade, os soviéticos enfrentaram o rico Olympique de Marseille, presidido pelo controverso Bernard Tapie, e perderam as duas partidas: 3 a 1, em casa; 2 a 1, fora. Apesar disso, aquele feito deu moral para Romantsev, que conquistou ainda mais prestígio no comando do clube, o que seria fundamental para continuar seu trabalho.

O sucesso, alinhado à convulsão política da União Soviética, trouxe consequências indesejadas para o Spartak. Com o fim da URSS, os jogadores de maior destaque da equipe logo partiram para o ocidente. Shalimov para o Foggia; Mostovoi e Kulkov para o Benfica; Shmarov assinou com o Karlsruher; Cherchesov fechou com o Dynamo Dresden; Radchenko e Popov com o Racing Santander; e Karpin com a Real Sociedad. Tudo isso em cerca de três temporadas.

Romantsev tinha que remodelar o time constantemente. Autossustentável desde o final dos anos 1980, o Spartak chegou a ter 70% de suas receitas vinculado a venda de atletas, conforme conta o jornalista Jonathan Wilson, em Behind The Curtain.

Apesar disso, se o movimento de saída ficou facilitado, Romantsev e o Spartak também se adaptaram à nova realidade, em uma espécie de efeito cascata. Enquanto clubes da parte ocidental da Europa contratavam os melhores jogadores da Rússia, os russos buscavam os melhores atletas das antigas nações soviéticas. E Romantsev se mostraria o homem perfeito para identificar novos jogadores e promover seu desenvolvimento, mantendo a roda do clube sempre girando.

Também as categorias de base do clube dariam retorno, formando jogadores como Yegor Titov, uma bandeira do clube. Assim, os moscovitas venceram os Campeonatos Russos de 1992, 1993 e 1994. O time ainda experimentaria algum sucesso europeu. Na Recopa Europeia de 1992-93, o Spartak chegou a eliminar Liverpool e Feyenoord, antes de cair na semifinal contra o Royal Antuérpia.


No período, Romantsev chegou, até mesmo, a acumular as funções de treinador e presidente do clube, escolhido por um colegiado.

Saída, retorno triunfal e fim melancólico


Se as coisas iam de vento em popa para o Spartak, a seleção russa degringolava. 18ª colocada em sua primeira Copa do Mundo após o final da URSS, a equipe era desunida e sem comando. Para o certame dos Estados Unidos da América, sete jogadores chegaram a abrir mão da disputa, motivados por discordâncias a respeito de premiações.

Diante disso, a Federação Russa foi atrás de Romantsev, que aceitou a missão. No biênio, entre 1994 e 1996, afastou-se do Time do Povo. Contudo, após o fracasso na Euro 96, em que os russos ficaram com a lanterna do Grupo C, disputado com Alemanha, República Tcheca e Itália, Oleg acabou voltando para sua casa.

Ali, começaria outro período de glórias, marcadas pelo uso da mesma receita de antes: treinos duros, disciplina e aposta no desenvolvimento de jovens talentos. Além de acompanhar o surgimento de Titov, Romantsev conseguiria trazer de volta Kulkov, Cherchesov e Shmarov, mais veteranos, e ainda apostaria em nomes como o de Dmitri Alenichev.

Yegor Titov Spartak
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

“Ele era sempre muito exigente, mas um homem justo. Como treinador, eu o colocaria no nível de Lobanovskyi [...] Cada empate era trágico para nós, porque, como punição, ele nos trancava no campo de treinamentos”, contou Titov, no citado Behind The Curtain.

Seguindo essa fórmula, Romantsev levou o Spartak a todos os títulos russos do período entre 1997 e 2001, alcançando, ainda, uma semifinal de Copa da Uefa, na temporada 1997-98, perdida para a Internazionale, que seria campeã. Assim, voltaria a ser chamado pela Federação Russa. Entre 1998 e 2002, Oleg acumulou as funções em seu clube e seleção.

Ao final, a nova experiência com o selecionado russo revelou outro fracasso. Primeiro, os russos não se classificaram para a Euro 2000. Depois, caíram na primeira fase do Mundial de 2002. O período ainda colocou em foco um fato difícil de lidar: Romantsev não parecia ser mais o mesmo. O cansaço pelo acúmulo de funções foi usado como argumento, mas, no fim das contas, tornou-se evidente o abuso de álcool. Em pouco tempo, segundo pessoas próximas, sua disposição e julgamento não eram mais os mesmos.

Em 2003, Oleg daria seu último adeus ao Spartak, na condição de treinador. Não tinha sequer 50 anos. Anos mais tarde, quando o time foi treinado por Karpin, até retornou como consultor, mas foi só. Passagens breves e pálidas por Dinamo de Moscou e Saturn não estiveram à altura dos feitos de Romantsev. À exemplo da carreira de jogador, a de treinador se encerrou cedo. Para muitos, foi o maior treinador da história da Rússia. Uma coisa é certa: pelo Time do Povo, ninguém venceu mais do que ele.

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