quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Quando o Magdeburg honrou a Alemanha Oriental na Recopa Europeia

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Durante a Guerra Fria, o fenômeno esportivo ganhou novas camadas. Com o mundo dividido em dois blocos, capitalista e socialista, o impacto das vitórias no esporte de alto rendimento, que sempre exige o depósito de sangue, suor e lágrimas, transcendia as práticas e os seus praticantes. Os êxitos diziam respeito também ao povo representado pelos triunfantes — ou essa era a mensagem transmitida. Diante desse contexto, a Alemanha Oriental procurou dar boas condições para o desenvolvimento do futebol nacional. Porém, a Europa só avistou os representantes da RDA no lugar mais alto do pódio uma vez, com o Magdeburg.

Magdeburg European Winners Cup 1974 Recopa
Foto: Reprodução Twitter @DDROnline/Arte: O Futebólogo


Um histórico confuso


Quando da divisão da Alemanha, no pós-guerra, os times de futebol da parte oriental do país foram dissolvidos. A primeira versão do clube que viria a se afirmar como 1. FC Magdeburg surgiu em 1945. Órfãos, os atletas dos extintos Magdeburger SC Prussia 1899 e Cricket Viktoria Magdeburg se uniram para fundar o SG Sudenburg. No espaço de cinco anos, esse se fundiria ao SG Lemsdorf, formando o BSG Eintracht Sudenburg, que, por sua vez, se incorporaria ao SAG Krupp-Gruson, dando origem ao BSG Stahl Magdeburg. Este logo passaria a se chamar BSG Motor Mitte Magdeburg.

Ainda nos anos 1950, a divisão de futebol do clube seria incorporada ao SC Aufbau Magdeburg e, enfim, em 1965, surgiria o 1. FC Magdeburg — mantendo a dedicação exclusiva à prática de futebol.

Embora toda essa história seja um tanto quanto confusa, cheia de nomes, fusões e mudanças, o último movimento do clube acabou sendo o definitivo. Sua justificativa fazia sentido. Na Alemanha Oriental, foi feita uma tentativa de desenvolvimento de jovens talentos, a partir de 11 Schwerpunkclubs (clubes foco). A ideia era extrair de um núcleo relativamente pequeno de agremiações a concentração de qualidade necessária à formação de uma seleção nacional forte.

Naquela altura, o Magdeburg já vinha alcançando resultados relativamente bons nos torneios nacionais. Ainda como SC Aufbau Magdeburg, em 1963-64, o time superou o SC Leipzig (futuro Lokomotive Leipzig), na final da Copa da Alemanha Oriental. A conquista também seria mantida no ano seguinte, dessa vez com o Blau-Weiß batendo o SC Motor Jena (que não tardaria a ficar conhecido como Carl Zeiss Jena).

Como consequência de tais triunfos, o Magdeburg acabaria disputando a Recopa Europeia em anos consecutivos. Em 1964-65, no critério do cara ou coroa, após dois empates por 1 a 1, o time caiu diante dos turcos do Galatasaray, ainda na primeira fase. Na campanha seguinte, até superou o fraco Spora Luxembourg e o Sion, mas acabou superado pelo West Ham, que na altura era o campeão vigente. E, apesar de ter avançado à terceira fase do certame continental, o Magdeburg pereceu na disputa da DDR-Oberliga 1965-66, caindo para a segunda divisão. Por incrível que pareça, para sua sorte.

Novo líder na casamata: Heinz Krügel


Quando contratado, o treinador Heinz Krügel — que apesar dos poucos 45 anos já comandara a seleção da Alemanha Oriental — tinha apenas uma missão: devolver o Magdeburg à elite do futebol da RDA. A meta foi alcançada a contento. Detendo os melhores ataque e defesa da DDR-Fußball-Liga, o time somou 44 pontos e conquistou a primeira colocação da parte norte. Além disso, também teve o artilheiro da competição, um certo Jürgen Sparwasser, autor de 22 gols e que, dentro de pouco tempo, ganharia fama internacional.

É comum apontar Krügel, que enfatizava a importância do bom condicionamento físico para a prática de seu jogo ofensivo, como o catalisador do que aconteceria nos anos seguintes. Não sem bons motivos. O time do Magdeburg era extremamente jovem. Sparwasser, por exemplo, tinha apenas 18 anos naquela altura. A ele já se somavam peças como Wolfgang Seguin, 21, e Manfred Zapf, que disputou todas as partidas da segunda divisão, 20. Todos titulares e cruciais para o desenvolvimento do jogo do time. Aos 25 anos, o goleiro Hans-Georg Moldenhauer era um dos mais experientes.


“Vim para o Magdeburg no início dos anos 1960 e ganhamos a FDGB-Pokal imediatamente [em 1963-64]. O que se repetiu, um ano depois. Depois de uma pequena queda com o rebaixamento [em 1965-66], as coisas melhoraram vertiginosamente: promoção direta, com nosso novo treinador Heinz Krügel. Com ele, tivemos alguém que mudou tudo. Por exemplo, ele trouxe jovens jogadores como Jürgen Pommerenke, Axel Tyll e Detlauf Raugust. No início dos anos 1970, tivemos um elenco que trouxe o primeiro título de campeonato a Magdeburg”, contou Seguin, aos alemães do MDR.

O time, que em 1967-68 estava de volta à DDR-Oberliga, continuou crescendo de produção. Já na temporada seguinte, 1968-69, conquistaria mais uma Copa da Alemanha Oriental, batendo o FC Karl-Marx-Stadt (mais tarde Chemnitzer FC), na decisão. Isso significou que o clube encerrou a década, mais uma vez, classificado a uma competição europeia. Porém, melhor sorte não foi ao encontro do Magdeburg naquele momento. O Blau-Weiß chegou a eliminar os húngaros do MTK Budapest na fase inicial, mas caiu na seguinte, diante dos portugueses da Académica de Coimbra.

Vale lembrar que aquele grupo de jogadores trabalhava na gigantesca empresa de engenharia Schwermaschinen-Kombinat Ernst Thälmann e treinava à noite.

Heinz Krugel Magdeburg
Foto: imago/Werner Schulze/Arte: O Futebólogo

Se os caminhos europeus não vinham sendo os mais auspiciosos para o Magdeburg, ao menos em casa tudo ia bem. Na temporada 1971-72, quando o time já havia incorporado o talento de Jürgen Pommerenke, com 17 para 18 anos, fez o suficiente para superar o Dynamo Berlin e ficar com seu primeiro título da Oberliga. Aquele elenco tinha média de idade de 22,5 anos e ficou lembrado por ter quebrado sucessivos recordes de público, levando habitualmente mais de 22 mil espectadores ao estádio Ernst Grube.

Por sua vez, a campanha seguinte, 1972-73, teria sabor agridoce. Se, por um lado, o Magdeburg não conseguiu defender o título nacional, que terminou nas mãos do Dynamo Dresden, nem, tampouco, foi longe na Copa dos Campeões da Europa, eliminado pela Juventus, por outro, conquistou mais uma vez a FDGB-Pokal.

Aliás, o ano de 1972 também ficaria marcado pelos acontecimentos das Olimpíadas de Munique. Em uma rara viagem ao lado ocidental da Alemanha, a seleção da RDA fez ótima aparição: acabou com o Bronze Olímpico, dividido com a União Soviética — em uma disputa que veria a Polônia terminar com o Ouro e a Hungria ficar com a Prata, em uma demonstração de poder do futebol do Leste Europeu. No time da Alemanha Oriental que disputou o torneio estavam Zapf, Pommerenke, Sparwasser (autor de cinco gols), Seguin e Axel Tyll, todos titulares do Magdeburg.

O caminho a Roterdã


Com a vitória ante o Lokomotive Leipzig na finalíssima da Copa da Alemanha Oriental de 1972-73, o Magdeburg se qualificou a mais uma aparição na Recopa Europeia. A estreia dos germânicos aconteceu no estádio De Kuip, em Roterdã. Por uma questão de infraestrutura, foi lá que o NAC Breda recebeu o Blau-Weiß. Desde a estreia, foi sublinhado que aquela participação poderia ser diferente das anteriores.

“Ele [Krügel] sabia como nos tornar fortes. Ele entendia isso perfeitamente. Na primeira rodada, em 1973-74, por exemplo, jogamos contra o NAC Breda, no estádio onde foi realizada a final. Krügel nos disse: ‘Lembrem-se, vamos jogar a final aqui, dentro de nove meses’. Nós o declaramos louco. Eu nunca me esquecerei aquilo”, registrou Seguin, à já citada entrevista ao MDR.

Com um placar agregado de 2 a 0, o Magdeburg avançou à fase seguinte, em que enfrentou os tchecos do Baník Ostrava. A vida dos alemães não seria fácil. Depois de perder por 2 a 0, na Tchecoslováquia, devolveram o placar e, na prorrogação, Sparwasser decretou o avanço do time, confirmando um penoso 3 a 0. Ali, o time também apresentou sua mais jovem promessa à Europa: Martin Hoffmann. Aos 18 anos, ele marcou um dos gols.

Magdeburg NAC Breda

O avanço confrontou o Magdeburg com os búlgaros do PFC Beroe Stara Zagora. Aquele era um time um tanto quanto desconhecido e que sequer havia vencido a Copa da Bulgária, conquistada pelo CSKA Sofia. O adversário da vez chegara à disputa da Recopa porque o citado CSKA Sofia também se sagrara vencedor do Campeonato Búlgaro, classificando-se também à Copa dos Campeões da Europa. Entretanto, havia um porém: o rival da vez havia eliminado o favorito Athletic Bilbao. Nada disso impediu os alemães de imporem, confortavelmente, um placar agregado de 3 a 1.

No entanto, nas semifinais, seria a vez de o próprio Blau-Weiß enfrentar outro favorito. 

O Sporting CP vinha em grande forma, apostando no argentino Héctor Yazalde. Aquele time dos Leões dominaria por completo a cena do futebol português de 1973-74, vencendo a Taça de Portugal e o Campeonato Português. Todavia, além de não ter sido páreo para a eficiência do jogo do Magdeburg, perdera Dinis e o aclamado Yazalde para a decisão. Após um empate magro em Lisboa, 1 a 1, Pommerenke e Sparwasser fizeram os gols que acabaram classificando os alemães à final, embora Marinho tenha descontado: 2 a 1.

Sporting Magdeburg
Foto: Tagesspiegel/Arte: O Futebólogo

A curiosidade da eliminatória ficaria por conta do retorno dos jogadores sportinguistas a Lisboa. A partida em Magdeburgo aconteceu em 24 de abril de 1974. Enquanto os times se digladiavam, a Revolução dos Cravos recebia os retoques finais. Quando E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, tocou nos Emissores Associados de Lisboa e, depois, a Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, ecoou pela Rádio Renascença, na madrugada do dia 24 para o 25, as senhas estavam dadas, era hora de atacar. 

O Movimento das Forças Armadas foi para as ruas lisboetas, acabando por depor a Ditadura Salazarista. Mais tarde, o dia 25 de abril ficaria marcado como o feriado nacional do Dia da Liberdade, mas, naquela altura, o Sporting não sabia bem o porquê de não conseguir retornar ao país. Toda a comunicação portuguesa por telefone havia sido cortada. Apenas no dia 26, os sportinguistas receberam o sinal verde para atravessarem a fronteira.

Heróis em roupões


Assim que se soube quem seriam os finalistas da Recopa, uma nova narrativa surgiu na imprensa esportiva europeia. A decisão, no De Kuip, seria mais um desses encontros entre Davi e Golias. O azarão Magdeburg teria que depor o multicampeão Milan. Era um confronto entre um time que já havia vencido aquela competição duas vezes — sem falar no fato de que vencera em outras duas ocasiões a Copa dos Campeões — contra outro, formado num raio de 50km da cidade de Magdeburgo. A revista alemã Kicker foi enfática a respeito da suposta disparidade que marcaria aquela final:

“Aqui, os multicampeões da Copa dos Campeões e do Mundo; lá, um time que é uma folha em branco no futebol internacional. Aqui, um onze com nomes brilhantes como Rivera, Schnellinger ou Chiarugi; lá, um adversário que não tem nada do tipo para mostrar".

Magdeburg Milan 1974 De Kuip Rotterdam
Foto: imago/Arte: O Futebólogo

Aquilo foi o suficiente para Krügel ter o que dizer em sua palestra pré-jogo. “O artigo foi o melhor incentivo para os meus garotos”, asseverou, como registrou o site oficial da DFB. Depois de eliminar o forte Borussia Mönchengladbach, o Milan chegava à decisão com tudo. Era o campeão vigente da Recopa, buscando manter sua coroa. A vitória italiana era tão entendida como favas contadas que a decisão sequer atraiu grande interesse.

Apenas 350 alemães foram liberados para viajar à Holanda. Um total de 4.641 pessoas presenciaria a partida in loco. O jogo nem mesmo seria transmitido na Alemanha Oriental. Foi de última hora que o filme Auroras Nascem Tranquilas e o show musical Mit Lutz und Liebe foram substituídos, abrindo espaço para a exibição da partida decisiva.

Quando a bola rolou, o experiente time milanista não demorou a entender que os alemães estavam dispostos a correr intensamente até arrancarem a vitória tão sonhada, e que nunca tinha chegado a um time da Alemanha Oriental. O Milan, treinado por um jovem Giovanni Trapattoni, recém-aposentado, tinha mais categoria com a bola nos pés, mas vinha perdendo boa parte das disputas. Então, aos 43 minutos da etapa inicial, Enrico Lanzi, defensor rossonero, marcou contra, em tentativa falha de interceptar um cruzamento do Magdeburg. Na etapa final, Seguin sacramentou o título germânico, 2 a 0.


Ao final do jogo, os outrora confiantes torcedores do Milan queimavam camisas e bandeiras, tamanha foi a queda de seu pedestal. “Na final, dominamos um time de classe mundial do Milan [...] Krügel nos deu confiança para enfrentar os italianos como um forasteiro descarado. E havia o fato de Krügel ser um treinador muito experiente, enquanto Giovanni Trapattoni ainda estava no início de sua carreira”, arrematou Seguin.

Enquanto a torcida milanista protagonizava cenas de ira, os jogadores do Magdeburg faziam a tradicional volta olímpica como reis, usando roupões recebidos como cortesia do Feyenoord, o dono do estádio. Observadores isentos daquela final, os catalães do Mundo Deportivo contaram aos seus leitores o que, para eles, acabou sendo o fiel da balança na decisão, com o título A enorme superioridade física dos alemães, base do triunfo:

“O Magdeburg foi um verdadeiro representante do futebol-força, do ‘futebol maratoniano’, que serviu para alcançar uma vitória na qual poucos acreditaram, colocando de volta na mesa este futebol total que muitos acreditavam já carcomido por traças em um baú de memórias, após a queda de Ajax, e que esta noite mostrou que, não só está vivo e bem, mas ainda é capaz de proporcionar vitórias retumbantes para aqueles que têm as capacidades físicas necessárias para praticá-lo”.

Milan Magdeburg Winners Cup European 1974
Foto: imago/Werner Schulze/Arte: O Futebólogo

Em um ano marcado por uma Copa do Mundo na Alemanha Ocidental, vencida pela própria (embora tenha sido derrotada pela RDA na primeira fase, com gol de Sparwasser), em que o Bayern de Munique ainda venceu a Copa dos Campeões, o triunfo do Magdeburg deu algum argumento para os alemães orientais no debate esportivo contra sua maior antagonista.

O que veio depois não foi nada bom


O inédito e único triunfo europeu não foi o canto do cisne para o Magdeburg. Depois de não disputar a Supercopa Europeia contra o Bayern (oficialmente, porque os clubes não encontraram data disponível para celebrar o encontro), o Blau-Weiß venceu mais uma vez — a última — a Oberliga, em 1974-75. Contudo, aquele time começou a ruir em 1976.

Heinz Krügel, naquele momento já reconhecido como o maior treinador da história do Magdeburg, foi banido dos bancos de reservas, proibido de exercer as funções de técnico. O argumento oficial foi o de que ele não tinha trabalhado suficientemente bem para a pátria, tendo sido atribuído a ele um suposto insucesso no desenvolvimento de jovens, que, em última instância, contribuiu para que a Alemanha Oriental não se classificasse para os Jogos Olímpicos de 1976. Porém, mais tarde, soube-se que ele vinha sendo visto como uma pessoa suspeita aos olhos da Stasi, a polícia secreta da RDA.

Sem seu mentor, o clube foi diminuindo de tamanho e pretensões. Até o final da década, chegaria perto de novas conquistas, sem sucesso. Na virada para os anos 1980, seguiria entre os principais times da Alemanha Oriental, mas cada vez mais distante da primeira colocação. O prêmio de consolação seria um título da FDGB-Pokal, em 1982-83.


Em 1990-91, na última edição da Oberliga antes da unificação dos sistemas esportivos alemães, o clube foi apenas o 10º colocado, ficando muito longe das duas primeiras posições, que deram acesso à Bundesliga. Em 1991-92, o FCM estava na terceira divisão germânica. O sucesso não voltaria a bater à porta, porém o time nunca deixou de poder se gabar de pelo menos uma coisa: enquanto existiu a Alemanha Oriental, só um clube conquistou um título europeu, o Magdeburg.

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