quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Sergej Barbarez: Da Bósnia para a Alemanha sem olhar para trás

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Reconstruída, a cidade de Mostar, a sexta maior da Bósnia, tenta trazer de volta a imagem de antes da guerra. Uma das principais praças de batalha do conflito armado que assolou o país nos anos 1990, notadamente durante o Cerco de Mostar, ocorrido primeiro entre abril e junho de 1992 e, depois, de junho de 1993 a abril de 1994, a localidade foi completamente destruída. Trata-se de um marco arquitetônico nacional, lembrado por construções que remetem aos períodos de domínio otomano e austro-húngaro, que, esforços à parte, nunca retomará seu status quo.

Sergej Barbarez Bosnia
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Ouvir o pai e partir


“Voltei para casa pela primeira vez sete anos depois da guerra [...] Nada era como antes. Tudo estava destruído, muito frio, surreal. Parecia uma cidade fantasma”, relatou um dos filhos mais famosos da cidade, Sergej Barbarez, à revista 11Freunde. “Eu nunca quis voltar. Gostaria de lembrar da cidade como a conheci enquanto menino. Mas quando uma mãe faz um pedido ao filho, ele não pode dizer não”, continuou.

A mãe acabou se fazendo a principal saudade de Barbarez. No início, uma lembrança viva e distante, ao mesmo tempo. Isso porque, aos 20 anos, um prodigioso atacante que mal começara sua carreira no time local, o Velež Mostar, teve de deixar seu lar. Porém, não tinha ideia do caráter definitivo que aquela mudança provocaria em sua trajetória. A princípio, a viagem a Hannover, onde morava um tio, não passava disso, uma viagem — com início, meio e fim. Não obstante, pai e tio haviam selado seu destino. Não havia passagem de volta.

O patriarca já sabia que Mostar estava se dividindo em duas forças. De um lado, preparavam-se o Conselho de Defesa da Croácia e o Exército da República da Bósnia e Herzegovina. Do outro, o Exército Popular Iugoslavo, formado, majoritariamente, por sérvios. Isso significaria que, eventualmente, o filho, um jovem, seria chamado à luta, o que não podia acontecer. Logo, o pai também deixou a Bósnia. Já a mãe, com a força das grandes matriarcas, negou-se a abandonar o lar. Manteve-se a postos, pronta a defender a propriedade que a família construíra.

Barbarez Young
Foto: Twitter @barbarezsergej/Arte: O Futebólogo

Há um detalhe que tornava ainda mais dramática a situação da família do garoto. Em meio a uma guerra que, entre outras justificativas, pautava-se em questões étnico-religiosas, Barbarez era filho de mãe croata e muçulmana e pai sérvio ortodoxo. Apesar disso, como o próprio assume, tais questões nunca tomaram parte de sua vida. O que não quer dizer que, extramuros, tal situação não pudesse ensejar ódios, rejeições e inimizades.

Talentoso, Barbarez superou as dificuldades a partir da bola. “Duas semanas rapidamente viraram meses — e, ao final, anos”. Aposentado, Sergej vive em Hamburgo, a cidade que adotou, com reciprocidade. Mas, vamos por partes.

Acompanhar o tio e crescer


Lotado em Hannover com o tio, o bósnio encontrou um caminho óbvio a seguir. Mesmo que significasse atuar na segunda divisão, aquele era um ponto de reinício. A adaptação ao novo país passava por encontrar um ofício e não havia nada que Barbarez soubesse fazer tão bem quanto jogar futebol. Num determinado dia, o jovem saiu para caminhar com o tio, que o alertou: “Use um calçado esportivo”. No frio cortante do janeiro alemão, andaram até um gramado. Lá, o tio se encontrou com um senhor de aspecto amigável. Era Frank Pagelsdorf, o comandante do Hannover II. O treinador lhe ofereceu um período de testes, gostou do que viu e o adotou como pupilo.

“Foi difícil para mim quando vim para a Alemanha, tudo era novo, eu estava sozinho, não conseguia falar o idioma”, contou ao Frankfurter Allgemeine. Mais tarde, o atacante confessaria ter aprendido a falar alemão assistindo TV, garantindo nunca ter tido um professor.

Eventualmente, Sergej ascendeu à equipe principal e defendeu Die Roten na temporada 1992-93; foi um ano apenas mediano para a equipe e para o bósnio, que atuou em 18 partidas. Logo, foi chamado outra vez por seu mentor: Pagelsdorf assumira o comando do Union Berlin. Aquele seria um passo rumo à terceira divisão, mas a titularidade estava assegurada. E, com o perdão do trocadilho, Barbarez foi bárbaro. Fez 46 gols em 88 jogos, durante três temporadas. Ficou claro que a facilidade para marcar de cabeça (com seu 1,88m) e com a perna canhota não era algo ordinário.

Barbarez Dortmund
Foto: Bongartz/Arte: O Futebólogo

O salto de nível veio outra vez pelas mãos de Pagelsdorf. O comandante havia sido contratado pelo Hansa Rostock, depois de dividir apenas um ano com Sergej no Union. À época, o Hansa disputava a Bundesliga. Apesar de viver uma primeira campanha (1996-97) duríssima, marcando somente três vezes e vendo o clube ficar uma posição acima da zona de descenso, logo se acertou no ano seguinte. Barbarez foi o artífice de um time que fez bonito em 1997-98. Foram 11 os gols na campanha que levou o time à sexta posição, consagrada com uma vaga à finada Copa Intertoto.

De lá, seguiu para o Borussia Dortmund. E, depois de dois anos irregulares, mas de muito aprendizado — o que já reiterou em várias entrevistas —, rumou ao Hamburgo, para viver a temporada de sua vida e conhecer seu grande amor no futebol. Lá se reencontrou com quem? Isso mesmo, Pagelsdorf.

Reencontrar um mestre e renascer


O atacante bósnio representou Der Dino por seis temporadas. Esses foram anos que lhe renderam idolatria, e seria difícil vislumbrar algo diferente disso, depois de uma primeira temporada tão incrível. Na Bundesliga 2000-01, marcou 22 gols e se confirmou o artilheiro do certame. Como o time ficou muito abaixo do esperado, na 13ª posição, coube exclusivamente a Barbarez oferecer um sorriso à torcida.

Em termos de resultados coletivos, os anos que se seguiram não foram muito melhores. Nesse sentido, ganham destaque o quarto lugar no campeonato alemão de 2002-03 (com vaga à Copa da Uefa), os títulos das extintas Copa da Liga Alemã (2003) e Copa Intertoto (2005), além de um terceiro lugar na Bundesliga no ano de despedida (2005-06), que devolveu o clube à Liga dos Campeões.

Barbarez Hamburger SV
Foto: picture alliance/Arte: O Futebólogo

Ocasionalmente, Sergej foi também o capitão do Hamburgo, antes de dedicar seus dois últimos anos de carreira ao Bayer Leverkusen, com uma boa passagem. Quando parou, computando 330 jogos de Bundesliga, era o estrangeiro com mais partidas disputadas. No entanto, já foi superado por Claudio Pizarro, Robert Lewandowski, Naldo, Halil Altintop, Levan Kobiashvili, Makoto Hasebe, Daniel Caligiuri, pelo compatriota Vedad Ibisevic, Zé Roberto, Lukasz Piszczek e Rafinha.

Ao fim e ao cabo, sua casa se tornou de fato Hamburgo, o clube e a cidade. O bósnio quase foi parar no Bayern de Munique duas vezes, antes de fechar com o Dortmund e após o ano artilheiro. Mas o desacerto parece uma daquelas questões que simplesmente não eram para ser e que o atacante encara sem arrependimentos. Arsenal e Deportivo La Coruña teriam sido outros clubes a procurá-lo em seus melhores anos.

Representar a Bósnia e defender princípios


E a seleção bósnia? Após o fim da guerra, a federação local foi registrada como membro da FIFA em 1996. Mas o curioso é que Sergej só começou sua trajetória como internacional bósnio em 1998. Por quê?

“Eu havia recebido alguns convites para os jogos em 1996, mas recusei todos, porque minha mãe foi ameaçada de morte naquele tempo. Ela nasceu na Croácia e naquele momento vivia na parte croata de uma Mostar dividida. Sempre disse: só vou jogar pela minha nação, quando minha mãe estiver a salvo. Um dia, a política interveio e garantiu a proteção da minha família”, contou Barbarez ao Der Tagesspiegel.

Como dito, eventualmente, ele estreou pela Bósnia, tendo recusado, terminantemente, a ventilada hipótese de defender a Alemanha. Ao todo, fez 47 jogos e anotou 17 tentos, aposentando-se de seu selecionado em 2006, aos 35 anos. “Sucessos com a seleção nacional fazem as pessoas rir nessa situação de dificuldades econômicas. É por isso que jogo futebol. Você faz dinheiro, tem fama. Mas fazer as pessoas felizes com um simples gol? Isso é a coisa mais pura e importante no futebol”, argumentou em entrevista ao Spiegel.

Barbarez Leverkusen
Foto: Michael Sohn/Associated Press/ Arte: O Futebólogo

Não obstante, o atacante chegou a se aposentar anteriormente, em 2005, em decorrência de problemas políticos. Segundo Barbarez, o modo de pensar que fez eclodir guerras por toda a região balcânica seguia vivo na mente das pessoas responsáveis pelo selecionado. Isso o cansou. Contudo, ele ainda voltou meses depois. Quando, enfim, decidiu-se pelo ponto final, o motivo foram as dificuldades físicas decorrentes das obrigações com clube e seleção, ante o avançar de sua idade.

Homem de opiniões fortes, Barbarez chegou a passar um tempo sem dar entrevistas ao Bild, que, segundo ele, inventava rumores sobre sua vida privada e também já relatou que hoje o futebol é apenas uma máquina de fazer dinheiro e que o lado humano importa pouco. É um sobrevivente. Um homem que viu seu pai definir seu futuro e aceitou. Um cara cuja referência materna protegeu o lar com a própria vida. Um cidadão que adotou a Alemanha, mas fez sempre o possível para dar alegrias à Bósnia.

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