segunda-feira, 6 de março de 2017

Duplas históricas: Marques e Guilherme

Após contar um pouco da bonita história que Andrea Pirlo e Gennaro Gattuso construíram juntos, vestindo as camisas de Milan e da Seleção Italiana, falo um pouco de uma dupla de ataque que marcou seu nome na história do Clube Atlético Mineiro: Marques e Guilherme.







Quando uma dupla de ataque consegue a proeza de ingressar no seleto grupo dos 10 maiores artilheiros da história de um clube, as dúvidas quanto à qualidade de seu desempenho se enfraquecem instantaneamente. Foi isso que Marques e Guilherme alcançaram com a camisa do Atlético Mineiro.

Dos pés do camisa 9, Marques, saíram incontáveis passes açucarados destinados a Guilherme, o camisa 7. Antes que se pergunte, sim, o garçom da dupla vestia a nove, tão marcada pelos êxitos de grandes centroavantes, e o matador envergava a camisa sete; nada que não tenha uma explicação.

Como ficou registrado em maio de 2001, em reportagem veiculada pela Revista Placar, em sua chegada ao clube alvinegro, Marques vestia a sete e Valdir Bigode, seu primeiro grande parceiro nas Minas Gerais, a nove. Após três derrotas consecutivas, todavia, por sugestão do segundo, os jogadores trocaram a numeração e no quarto encontro o Galo venceu clássico contra o Cruzeiro. A troca pegou e se manteve após a chegada de Guilherme.

O curioso, no entanto, é que o jogo da dupla não possuía nada de muito complexo. Como tinha facilidade para jogar com os dois pés, atuando pelo lado esquerdo, Marques era capaz de dribles e fintas de corpo para os dois lados, o que costumava lhe dar grande vantagem sobre seus marcadores, concedia-lhe espaços e permitia que enviasse com precisão a bola a Guilherme. Este, por sua vez, viveu dias de tão grande iluminação no Galo que marcava gols de todas as formas, desde uma belíssima trivela como a anotada contra o Cobreloa na Copa Libertadores de 2000 até gols de peito e barriga.

No campo, a conexão entre os dois foi instantânea. Quando Guilherme chegou, em 1999, vindo do Vasco, Marques já estava no clube e havia feito dupla importante com Valdir. Não obstante, já na primeira partida em que atuou como titular, o novo matador marcou. É importantíssimo ressaltar o tamanho do impacto da dupla naquele ano.

O Atlético estava longe de ser favorito ao título do Campeonato Brasileiro. Apesar disso, conseguiu montar uma sólida base, com jogadores como o goleiro Velloso, os zagueiros Cláudio Caçapa e Carlos Galván, e os meio-campistas Alexandre Gallo, Valdir Benedito, Belletti e Robert e foi avançando.
Penúltimo clube a se classificar para os playoffs daquele ano (o torneio ainda não era disputado por pontos corridos), teve pela frente a força do rival Cruzeiro, que havia lutado pela liderança da competição durante todo o curso do certame. Em uma sequência de partidas memoráveis, bateu o rival duas vezes (4x2 e 3x2). No primeiro jogo, Marques e Guilherme marcaram duas vezes cada; no segundo, o camisa 9 voltou a ser assistente e viu seu parceiro anotar mais dois tentos.

A seguir, o Atlético sofreu um pouco, mas conseguiu eliminar um surpreendente Vitória. Foram necessárias três partidas para tanto. Primeiro, o Galo bateu o Leão por 3x0, no Mineirão, com dois tentos de Guilherme. No segundo jogo, disputado no Barradão veio derrota por 2x1, com o artilheiro alvinegro marcando o solitário tento mineiro. Por fim, novamente na Bahia, o Atlético foi superior e venceu por 3x0; dois gols de Guilherme e um de Marques.



Contra o poderoso Corinthians, na final, Marques se machucou ainda no primeiro jogo e viu de longe o Galo vencer o primeiro encontro por 3x2 (hat-trick de Guilherme), perder o segundo por 2x0 e empatar sem gols o terceiro, terminando com o vice-campeonato nacional. Tudo isso com apenas seis meses de dupla. Naquele Brasileirão, ajudado por Marques, Guilherme conseguiu a impressionante marca de 28 gols em 27 partidas. Se dentro do campo era fácil perceber o enorme entrosamento da dupla, fora dele esse também existia e transparecia em declarações:

“É uma injustiça o Marques ficar fora de qualquer convocação. Com todo o respeito que eu tenho pelos outros jogadores, eu só me tornei artilheiro do Brasileiro com o apoio do Marques. Ele tem o cheiro do gol e encontra espaços impossíveis. É um maître de primeira”, disse Guilherme em uma preleção veiculada na aludida edição de Placar.

Embora tenham sempre mostrado qualidades e marcado gols por onde passaram antes de desembarcarem em Minas Gerais, Marques e Guilherme nunca haviam obtido protagonismo. O primeiro, revelado no Corinthians após obter grande destaque na Copa São Paulo de Juniores de 1993, era visto com um atacante habilidoso, mas pouco produtivo e decisivo; e o segundo como um centroavante inconstante. No Galo, ambos mudaram esses rótulos e, juntos, chegaram inclusive a disputar partidas pela Seleção Brasileira no período entre as Copas do Mundo de 1998 e 2002.

Após a perda do título para o Timão, a dupla ainda conquistou o Campeonato Mineiro de 2000, foi eliminada pelo Corinthians da Libertadores do mesmo ano e fez boa campanha no Brasileirão de 2001, sendo eliminado pelo São Caetano na semifinal, em jogo controverso, marcado pela força de uma chuva que deixou o gramado do Estádio Anacleto Campanella em más condições.

A despeito de tudo isso, a relação de Marques e Guilherme com a torcida atleticana sempre foi diferente. Enquanto o primeiro tinha uma situação de idolatria mais consolidada (ainda que tenha sido acusado por muitos de “amarelar” nas finais do Brasileirão de 1999), o segundo vivia uma “amor bandido” com o torcedor, uma relação intensa que começou a terminar em 2002, com seu empréstimo ao Corinthians.

Desde esse marco, o jogador não voltou a ser o mesmo e, ainda que tenha retornado em 2003, sem Marques não foi tão bem. Sua imagem com a torcida terminou de ser arranhada em 2004, quando assinou com o Cruzeiro, em passagem apagada pela Raposa. Marques, por outro lado, fez do Galo sua casa. Mesmo tendo saído em 2003, foi recebido de braços abertos em 2005 e 2008. No primeiro retorno, fez excelente campeonato individualmente, mas chegou tarde demais e não conseguiu evitar o rebaixamento do clube; no segundo, sofreu com muitas lesões. Após pendurar as chuteiras, radicou-se em Belo Horizonte e foi, inclusive, deputado estadual.

Fora do Atlético, as carreiras de Marques e Guilherme não foram ruins, porém no Galo foram brilhantes, sobretudo quando estiveram juntos. Enquanto o Xodó da Massa, ou, ainda, o Calango, como ficou conhecido o camisa 9 marcou 133 gols com a camisa alvinegra, sendo o nono maior artilheiro do clube em todos os tempos, Guilherme anotou 139 tentos, que o colocam na sétima posição do citado ranking.

Marques – Marques Batista de Abreu – 12 de março de 1973

Carreira: Corinthians (1992/1995), Flamengo (1996), São Paulo (1997), Atlético Mineiro (1997/2002; 2005/2006; 2008/2010), Vasco da Gama (2003), Nagoya Grampus (2003/2005), Yokohama Marinos (2006/2007)

Títulos: Campeonato Paulista (1995), Copa do Brasil (1995), Campeonato Carioca (1996, 2003), Copa Ouro (1996), Copa Centenário (1997), Copa Conmebol (1997), Campeonato Mineiro (1999, 2000 e 2010)

Guilherme – Guilherme de Cássio Alves – 08 de maio de 1974

Carreira: Marília (1992), São Paulo (1993/1994), Rayo Vallecano (1994/1997), Grêmio (1997/1998), Vasco da Gama (1998/1999), Atlético Mineiro (1999/2002; 2003), Corinthians (2002), Al-Ittihad (2003), Cruzeiro (2004), Botafogo (2005)

Títulos: Copa Libertadores da América (1993), Supercopa (1993), Intercontinental (1993), Recopa Sul-Americana (1994), Copa Conmebol (1994), Torneio Rio-São Paulo (1999), Campeonato Mineiro (1999, 2000, 2004)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...