quarta-feira, 21 de junho de 2017

O que se pode esperar da Roma de Di Francesco?

Mais uma vez, a Roma bateu na trave. Na temporada 2016/17, terminou o Campeonato Italiano na segunda posição, vendo a Juventus triunfar. A falta de conquistas, bem como a evolução de alguns desgastes, levou o clube da capital a trocar de treinador: saiu Luciano Spalletti e chegou Eusebio Di Francesco. O ex-comandante do Sassuolo terá uma missão longe de ser confortável. A pressão por títulos e o fato de o time não contar mais Francesco Totti têm peso. Será também o primeiro trabalho do técnico à frente de uma equipe de maior porte. O que se pode esperar?



O trabalho desempenhado por Di Francesco nos Neroverdi foi espetacular e é dele que se extraem as impressões iniciais quanto ao futuro Giallorossi. Com 96 anos de história, o Sassuolo disputou apenas quatro temporadas na elite do futebol italiano, justamente as mais recentes. Nos últimos anos, tem vivido tempos positivos. Em 2007/08, sob o comando de Massimiliano Allegri, conseguiu acesso à segunda divisão, e em 2012/13 à primeira. Neste turno, liderado pelo responsável por conduzir a Roma em 2017/18.

Exceto por um período breve, entre janeiro e março de 2014, Di Francesco foi o treinador do clube da província de Modena entre 2012 e 2017. Foram cinco temporadas à frente do time – ou 209 partidas (83V, 54E e 72D), consolidando um trabalho, uma linha de pensamento. Anteriormente, como jogador, destacava-se pelo empenho e pelo jogo pelos flancos, em especial o esquerdo. Disso se retira a primeira de algumas características importantes do técnico: o especial apreço pelo sistema 4-3-3, com apelo pelo ataque pelas pontas.

Era facilmente perceptível a mentalidade ofensiva de seu Sassuolo. Os jogadores de frente contaram sempre com muita liberdade para expressar suas qualidades. Essa foi justamente uma das razões que conduziram à projeção de alguns atletas, como os atacantes Simone Zaza e Nicola Sansone. Foi também a veia ofensiva do lateral croata Sime Vrsaljko que levou o Atlético de Madrid a o contratar junto aos Neroverdi.

A despeito disso, quem mais se beneficiou dessa proposta de jogo foi o jovem e talentoso Domenico Berardi, winger canhoto que atua pela faixa direita. Velocíssimo, criativo e bom finalizador, aos 22 anos é uma das esperanças para o futuro do futebol italiano. Mesmo com a pouca idade, já disputou 159 jogos e anotou 59 tentos pela equipe. Não há dúvidas de que se trata de seu principal destaque. Curiosamente, Spalletti, conforme foi veiculado no site da UEFA, já elogiou Di Francesco, justamente pelo privilégio do jogo bem jogado:


"Di Francesco é um treinador que tornou o futebol italiano mais atraente com a equipe do Sassuolo", disse seu antecessor.

Apesar da mentalidade voltada para o ataque, o Sassuolo também sofreu para encontrar seu melhor equilíbrio defensivo. Nas quatro temporadas em que o clube disputou a Serie A, em apenas uma conseguiu ter saldo de gols positivo. Sua defesa foi sempre muito vazada, o que poderia ser ainda pior, não fosse a oportuna presença do goleiro Andrea Consigli, outro destaque da squadra.

Ainda assim, a princípio, deverão ser notadas características dos Neroverdi na Roma. Foi isso o que se pode extrair de sua entrevista coletiva ao ser anunciado o novo treinador Giallorossi:

“Quero criar entusiasmo, ataque e a formação 4-3-3 [...] Quase sempre joguei no 4-3-3. Prefiro uma defesa com quatro homens, e só usei três atrás quando foi absolutamente necessário. Para crescer, um treinador precisa saber transmitir sua filosofia para o elenco. Por agora, a defesa com quatro homens é a base para essa Roma”, revelou.

Tal ideia poderá ser importante para a afirmação de uma nova identidade no clube. Muitas vezes, Spalletti utilizou uma defesa com três zagueiros na última temporada. Em grande medida, isso se deveu ao fato de que possuía um trio de beques de alto nível – Antonio Rüdiger, Federico Fazio e Konstantinos Manolas – e laterais ofensivos – Bruno Peres e Emerson Palmieri. É muito pouco provável que isso volte a acontecer, até porque, para além da visão de Di Francesco, a Roma deve perder ao menos um de seus defensores: Manolas e/ou Rüdiger.

No meio-campo, deve ser privilegiada a presença de um trivote, padrão básico adotado pelo treinador Rudi García, mas que foi suprimido na Roma de Spalletti. Isso significa que, provavelmente, um volante se postará à frente da primeira linha de defesa (Daniele De Rossi), enquanto outros dois, imediatamente postados à frente, com tarefas ofensivas e defensivas, ajudarão a dar consistência ao time – papel a ser desempenhado por Kevin Strootman e Radja Nainggolan sobretudo, mas que poderá também ser atribuído ao jovem Leandro Paredes.

No comando do ataque, Edin Dzeko segue sendo a referência, podendo ser contratada alguma alternativa ao bósnio.

Isso nos leva a um ponto chave: as pontas. É notório o fato de que Mohamed Salah está de saída. Por essa razão, inicialmente, Di Francesco só terá à disposição Stephen El Shaarawy e Diego Perotti para a missão. É pouco. Evidentemente, contratações serão feitas e são necessárias para que o treinador consiga explorar da melhor maneira seu estilo de jogo. Nenhum dos dois citados é tão agressivo quando Berardi (foto), por exemplo. E é justamente o garoto um dos atletas que estariam na mira do clube da capital.

Além dele, também atletas do Neroverdi, o experiente zagueiro Francesco Acerbi, o jovem meio-campista Lorenzo Pellegrini (formado na Roma, que detém cláusula de recompra) e o atacante Grégoire Defrel, artilheiro do Sassuolo na temporada com 16 gols, estariam na mira da Roma. Por hora, certa é a chegada do polivalente defensor mexicano Héctor Moreno, ex-PSV Eindhoven, que pode atuar na zaga, pela lateral esquerda e como volante.

Chegamos, pois, a outra chave da temporada da Roma: a atuação do espanhol Ramón Rodríguez Verdejo, o Monchi, novo diretor esportivo, ex-Sevilla. O dirigente traz consigo a esperança de obtenção de boas e baratas oportunidades no mercado de transferências, o que pode verdadeiramente mudar os rumos da equipe, como foi com os Rojiblancos nos últimos anos, encontrando atletas de baixo custo em mercados periféricos e os negociando por fortunas.

Outro ponto que merece consideração é o desenvolvimento de jovens, figuras como a do brasileiro Gerson (foto), do lateral Abdullahi Nura e de outros garotos da base romanista. Trata-se de um trabalho importante e necessário, na medida em que têm sido formados bons valores — os quais nem sempre recebem a devida atenção. Nos últimos anos, a equipe Primavera conquistou o Campeonato Italiano da categoria (2015/16) e a Coppa Italia (2017). Essa foi uma das fundações do trabalho de Di Francesco no Sassuolo e é uma das principais demandas da direção da Roma.

Como atleta, o novo treinador Giallorossi obteve seu maior destaque justamente representando o grená da capital e, por isso, conhece o time e é identificado. Ele estava lá quando a equipe conquistou, pela última vez, o título nacional (2000/01) e conhece a pressão vivida no estádio Olimpico di Roma. Foi escolha pensada e chega credenciado por um trabalho de qualidade. Suas ideias são claras, razão pela qual é possível esboçar expectativas. No entanto, maiores conclusões só aparecerão quando se encerrar a janela de transferências e se souber quais serão as peças disponíveis para o italiano.

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