quarta-feira, 5 de julho de 2017

Eduardo Berizzo: a escolha racional e menos radical do Sevilla

No início da temporada 2016/17, o torcedor do Sevilla viveu o ânimo e a expectativa de passar por uma revolução: o argentino Jorge Sampaoli, vencedor com Universidad de Chile e Seleção Chilena, chegava para comandar os Rojiblancos. Um dos mais famosos discípulos de Marcelo Bielsa, levou sua visão particular do futebol à Andaluzia. A despeito de um início positivo, o final foi desgastante e o treinador partiu para a realização de um de seus sonhos: liderar a Seleção Argentina. Assim, restou ao clube contratar um novo treinador. Sem fugir muito às características buscadas em Sampaoli, fechou com outro argentino, que também bebeu da fonte d’El Loco: Eduardo Berizzo, ex-Celta.



Antigo auxiliar técnico do referido ícone entre 2007 e 2010, na Seleção Chilena, chega a Sevilla após ótimo trabalho de três temporadas no Celta. Com jogo baseado em posse de bola e marcação pressionada, transformou os Celestes em um dos times mais agradáveis de se acompanhar na Espanha e conseguiu feitos notáveis (como uma goleada por 4x1 imposta ao Barcelona na 5ª rodada do Campeonato Espanhol da temporada 2015/16).

Até então, a descrição feita parece nos remeter à proposta de jogo de Sampaoli. Não obstante, há diferenças estruturais. Berizzo, por exemplo, nunca foi afeito à formação com três zagueiros, muito usada por seu antecessor. Optou, habitualmente, pela aplicação de uma formação no 4-2-3-1. Tal alternativa pode ser menos brilhante e eficaz do que o 3-4-3 e suas variações na execução de uma proposta de domínio das ações, mas, indiscutivelmente, é mais preparada para as adversidades na retaguarda e também evita o constante improviso de jogadores.

O novo treinador do Sevilla nunca abriu mão de explorar a criatividade e o passe, porém não chegou a determinados extremos que caracterizam os trabalhos de Sampaoli. Os times de Berrizo sempre procuram manter a bola com um objetivo claro: a abertura de espaços para infiltrações. Ou seja, não é proposto um jogo de posse estéril. Os meio-campistas e atacantes buscam movimentos e toques que forçam as defesas adversárias a se abrir. 

Talvez tenha sido por isso que o maior artilheiro dos Célticos tenha sido Iago Aspas, pela facilidade que tem para se movimentar no espaço, às vezes aberto pelo lado direito e em outras ocasiões pelo centro do ataque.

Por isso, muitas vezes a proposta do comandante privilegia o passe de maior risco, com a bola longa por trás da defesa. Isso sempre fez com que, embora o time fosse um dos prevalentes na posse de bola, não liderasse os rankings de acurácia dos passes. O jogo do Celta era vertical e o Sevilla oferece condições para que a proposta de Berizzo alcance sucesso.

"Tenho muito mais ideias comuns que diferentes com Jorge [Sampaoli]. Minha ideia é atacar, assegurarmos que a bola esteja em nossos pés na maior parte do tempo e atacar rápido. Gosto de atacar, mandar nas partidas e para isso procuro a bola", disse o treinador em sua apresentação. 

Com sua contratação, claramente, a direção rojiblanca procurou alguém capaz de lapidar o trabalho feito na temporada 2016/17. Parece ter sido reconhecido que o time não estava preparado para adotar uma abordagem tão radical quanto a de Sampaoli, mas se manteve a ideia bielsista de jogo de pressão alta e controle, sempre voltado para o ataque.

O novo técnico andaluz encontra em seu elenco peças capazes de aplicar sua ideia de jogo. Em Steven N’Zonzi, Michael Krohn-Dehli (seu ex-comandado no Celta) e Ever Banega — que retorna após temporada ruim na Internazionale —, tem alternativas confortáveis com a bola nos pés e capazes de manter um jogo de pressão alta. Em jogadores ofensivos de intensa movimentação e versatilidade como Franco Vázquez, Joaquín Correa e Pablo Sarabia, peças aptas a construir o jogo e fazer infiltrações. 

Há, contudo, uma incógnita: Ganso. Muitas vezes desprezado por Sampaoli, terá outra chance de crescer, mas precisará mostrar o que dele sempre se cobra, desde os tempos de Santos e São Paulo: participação e intensidade. Mantido no elenco, poderá (em uma visão otimista) confirmar o potencial dele esperado ou reafirmar a dificuldade de alcançar seu potencial (em análise possivelmente mais realista)

Diante das saídas de Vicente Iborra, Benoit Tremoulinas, Vitolo, Luciano Vietto, Sebastián Cristóforo, Samir Nasri, Stevan Jovetic e Matías Kranevitter, é certo que o time irá ao mercado e fará contratações. Especula-se, no momento, a chegada do volante argentino Guido Pizarro, do Tigres, e se falou sobre a possibilidade de acerto com Nolito (outro ex-comandado de Eduardo no Celta) e Jesús Navas, canterano do clube, ambos jogadores do Manchester City na última temporada.

Certo é que a diretoria sabe o que quer. Não contratou Sampaoli e, muito menos, Berizzo ao acaso. Convém dizer, entretanto, que o time perdeu uma de suas referências fora dos campos, o diretor Monchi. Responsável por encontrar ótimos negócios ao longo de 17 anos, partiu para uma aventura na Roma. Para seu lugar foi promovido Oscar Arias, que já fazia parte do corpo diretivo rojiblanco.

É esperado, ademais, que se faça o trabalho de transição de jovens das categorias de base para os profissionais. Conforme informou Anderson Queiroz, do blog Sevilla somos nosotros, do ESPN FC, oito deles farão a pré-temporada com os profissionais.

Tudo vem sendo pensado no sentido de se aproveitar ao máximo o trabalho deixado por Jorge Sampaoli. Não é possível falar em legado, mas é indiscutível o fato de que há coisas boas sendo deixadas para trás. A filosofia de jogo procurada segue a mesma, muda-se apenas a abordagem, menos drástica e — como esperam os torcedores — talvez mais eficiente a curto prazo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...