terça-feira, 31 de outubro de 2017

A memorável virada de século do Celta de Vigo

A Galícia, região espanhola que faz fronteira com Portugal, só comemorou um título espanhol em toda a sua história, conquistado pelo Deportivo La Coruña, em 2000. É comum que se diga, contudo, que os rivais se puxam mutuamente. Quando um está por baixo o outro também costuma sofrer queda, sendo a máxima contrária também aplicável. Foi isso o que se viu no Estádio de Balaídos, na virada para o século XXI. Na oportunidade, o Celta de Vigo figurou, constantemente, na parte de cima da tabela do campeonato nacional e disputou competições europeias.



A formação do poderoso Celta: a chegada de talento internacional

É provável que o torcedor do Celta nunca tenha sido tão feliz quanto no período entre os anos de 1997 e 2003. Tudo começou a se formar em 1996, com uma contratação impactante: vindo do Strasbourg, o russo Alexander Mostovoi (foto) chegou a Vigo para elevar o patamar da esquadra. Era um camisa 10 diferenciado; sabia ditar o ritmo das partidas, cobrava faltas como poucos e protagonizava lançamentos de precisão cirúrgica. Não bastassem seus predicados técnicos, era também o dono do vestiário, a referência. Sua chegada ajudou a elevar o estatuto do clube e, consequentemente, facilitou a chegada de outros jogadores de qualidade.

No mesmo 96, os Celestes passaram a contar também o meia israelense Haim Revivo e com um tetracampeão mundial com o Brasil: Mazinho. Nos anos que se seguiram, chegaram também o carrapato francês Claude Makélélé, o habilidoso russo Valeri Karpin, o búlgaro Lyuboslav Penev, campeão espanhol em 1996 com o Atlético de Madrid, e outro jogador que seria bandeira do clube: Gustavo López, talentoso argentino que desembarcou em Balaídos em 1999 e permaneceu até 2007.

Outros brasileiros também representaram as cores dos Célticos, como foram os casos do meia Vágner, de passagens por Santos, Vasco e São Paulo, do lateral esquerdo Sylvinho, do atacante Edú ou do naturalizado espanhol Catanha. Como se nota, foram tempos internacionais do Celta, reflexo também da icônica decisão do famigerado Caso Bosman. Em 1995, por iniciativa do atleta belga Jean-Marc Bosman, um processo chegou ao Tribunal Europeu de Justiça. O atleta questionava: no contexto da União Europeia, se um trabalhador europeu comum pode circular e, consequentemente, trabalhar livremente por todo o Velho Continente, por que um futebolista não poderia? Ganhou o litígio e quebrou um sem número de limitações ao registro de estrangeiros de dentro dos países membros da UE; tudo mudou após tal ocorrência.

O trabalho começou a ser feito sob as mãos do treinador espanhol Fernando Castro Santos. Não obstante, os resultados da temporada 1996/97 não foram os melhores. Apenas cinco pontos separaram o 16º colocado Celta de Vigo da zona de rebaixamento (naquela altura La Liga era disputada por 22 equipes). Dessa forma, buscaram-se mudanças nos bastidores.



Treinador que viria a ser lembrado por seus êxitos no comando do rival dos Celestes, o Depor, Javier Irureta foi o escolhido para comandar o Celta em 1997/98. Aquela seria a primeira grande campanha do clube naquele fim de século. Sob a batuta do basco, os galegos chegaram à sexta colocação da competição, com a terceira melhor defesa do certame. No entanto, desacordos financeiros entre comandante e direção o levaram a deixar a equipe.

Naquela altura, Irureta revelou ao periódico Mundo Deportivo, que seu desejo era permanecer no Celta, mas “devido a circunstâncias que apareceram, não foi possível”. Pouco depois, fechou contrato com o La Coruña. No entanto, a semente estava plantada: o Celta disputaria a UEFA Cup pela primeira vez desde a longínqua campanha de 1971/72, em que caíra na fase inicial.

A primeira aventura pela Europa

De êxitos com o Zaragoza, Víctor Fernández chegou para garantir que o sucesso do clube de Vigo na temporada 1997/98 não seria sonho de um só ano: já em 1998/99, os Célticos fizeram bonito em termos continentais.

Apesar das facilidades encontradas na primeira fase, em que enfrentaram os fracos romenos do FC Arges, vencendo por 8 a 0 no agregado, o que se viu a seguir formou prova cabal de que o que o time vivia era especial. Na segunda fase do certame, o time galego teve de se aplicar para eliminar o Aston Villa. Depois de ser derrotado em casa, pelo marginal placar de 1 a 0, surpreendeu os britânicos em pleno Villa Park. Juan Sánchez, Mostovoi e Penev carimbaram o passaporte do time para a fase seguinte, consumando um êxito de três bolas a uma (Stan Collymore descontou para os Villans).

Na sequência, o Celta despachou o Liverpool de Gérard Houllier. Em Vigo, um jovem de nome Michael Owen até abriu o placar, mas Mostovoi, Karpin e Gudelj reverteram o score: novo 3 a 1. Em Anfield, por outro lado, coube a Revivo levar o time adiante, marcando o gol solitário do encontro.

Não obstante, o time parou nas quartas de finais. Não foi páreo para o Olympique de Marselha de Robert Pirés, Fabrizio Ravanelli, Christophe Dugarry, William Gallas, Laurent Blanc e Florian Maurice. No agregado, os franceses foram vitoriosos, 2 a 1 construído no icônico Vélodrome. Ainda assim, a surpresa já estava consumada. Aquele Celta não pararia por ali, como confirmou a quinta posição no Campeonato Espanhol de 1998/99 – novamente com a terceira melhor defesa do torneio, mas, dessa vez, também com o terceiro melhor ataque e sendo o segundo time que menos perdeu.

A continuação de um sonho real: o EuroCelta

A boa posição obtida em La Liga levou os galegos novamente à UEFA Cup. Dessa vez, a aventura foi ainda mais emocionante. Como novo formato (a competição absorveu os clubes que disputavam a extinta UEFA Cup Winners’ Cup), uma fase a mais foi incluída. Na primeira, o Celta enfrentou os suíços do Laussane Sport e começou com o pé esquerdo, mas dando sinais de vida. Depois de sofrer três gols em Lausanne, diminuiu o marcador para 3 a 2 e levou a decisão para sua casa. Em seu território, não teve para ninguém: comandado por um hat-trick do sul-africano Benny McCarthy, que chegara do Ajax naquela temporada, o clube goleou os helvéticos. Mostovoi ainda completou o placar, inapelável 4 a 0.

A seguir, ficaram pelo caminho os gregos do Aris, 4 a 2 no agregado. Na terceira fase, o clube enfrentaria o Benfica, treinado por Jupp Heynckes. Porém, o verbo disputar não passou perto daquela partida. Em Balaídos, os Celestes reduziram os lisboetas a pó. No primeiro tempo, Karpin, Makélélé, Mario Turdó e Juanfran fizeram o alemão Robert Enke buscar quatro bolas em sua baliza. No segundo, Turdó e Karpin voltaram a infligir dor aos Encarnados e Mostovoi sacramentou a maior goleada já sofrida pelo Benfica em competições europeias em sua história: 7 a 0. Na volta, sem nada por ser disputado, houve empate por 1 a 1.



Após, os espanhóis enfrentaram a Juventus, então treinada por Carlo Ancelotti. A Vecchia Signora não vinha completa, mas ainda alinhou em seu onze gente da estirpe de Edgar Davids e Pippo Inzaghi. Na primeira partida, Alessandro Del Piero viu do banco de reservas, ingressando apenas na segunda etapa, Darko Kovacevic marcar o único gol da partida. Na segunda, foi titular e sofreu com a força do Celta em Vigo. Com um minuto de jogo, Makélélé já equalizou o encontro, abrindo o placar para os donos da casa. Depois Alessandro Birindelli marcou contra e McCarthy foi às redes mais duas vezes. Paolo Montero e Antonio Conte foram expulsos e Zinédine Zinade só subiu à cancha quando o placar já indicava o 3 a 0.

Não obstante, a sina contra franceses se repetiu e, perante o Lens, novamente por 2 a 1 no agregado, os Célticos foram eliminados. Na Espanha, todavia, tudo corria bem. Tendo terminado o Espanhol 1999/00 em sétimo, o time teve que disputar a abolida UEFA Intertoto, mas voltou à disputa da UEFA Cup.



Título da Intertoto e nova campanha destacada na UEFA Cup

Na competição europeia preliminar, o Celta venceu o FK Pelister, da Macedônia, o Aston Villa e o Zenit e conquistou o torneio. Consequentemente, acedeu à UEFA Cup. Na competição, inicialmente, sofreu para eliminar os croatas do HNK Rijeka, só o conseguindo na prorrogação do encontro de volta, com solitário gol de Goran Dorovic. Na sequência, teve de superar os sérvios do Estrela Vermelha. Derrotado no jogo de ida por 1 a 0, na volta o Celta venceu por 5 a 3. Após, a vítima da vez foi o Shakhtar Donetsk, eliminado pela margem mínima de 1 a 0, conseguida na segunda partida, com gol de Catanha, que vivia grande fase e chegaria à Seleção Espanhola.

Nas oitavas de finais, os galegos enfrentaram o Stuttgart. Na época os alemães eram treinados por Ralf Rangnick e o time de Vigo voltou a ter dificuldades para avançar. Fora de casa, o zero não saiu do placar. Na volta, a vitória, por 2 a 1, só veio aos 85 minutos, por obra de Mostovoi. Novamente, o clube chegara às quartas de finais; mais uma vez, seu progresso seria interrompido ali.

Contra o Barcelona de Rivaldo e Patrick Kluivert a crueldade foi tanta que o clube só foi eliminado pela observância do critério do gol fora de casa, em partida revestida de decisões polêmicas da arbitragem. Se a sina vivida parecia indicar que o time só sofria contra rivais franceses, a temporada 2000/01 revelou que talvez o destino do time fosse estacionar sempre nas quartas de finais. Em Barcelona, os catalães venceram por 2 a 1, com gols de Kluivert. Na volta, coube a Rivaldo marcar duas vezes, de forma que os tentos anotados por Catanha, Gustavo López e Mostovoi de nada serviram. No entanto, o sexto lugar no Campeonato Espanhol, mais uma vez classificou o Celta à UEFA Cup.



Importante registrar que nesse ano, o time também ficou muito próximo do inédito título da Copa del Rey. Depois de deixar os modestos Mensajero, Compostela e Leganés pelo caminho, o Celta bateu o forte Mallorca da época (que ganharia a referida Copa em 2002/03) e se vingaria do Barcelona nas semifinais. Em Balaídos, venceu por 3 a 1, com tentos de Eduardo Berizzo – que treinaria a equipe mais tarde -, Mostovoi e Jesuli. No Camp Nou, o empate por 1 a 1 bastou para levar os galegos à final. No entanto, na hora H, o time perde para o Zaragoza e desperdiçou a chance de ser campeão. Mostovoi até abriu o placar no minuto quatro, mas Xavier Aguado, o brasileiro Jamelli e Yordi decretaram a vitória dos Maños.

Indícios de declínio

Em 2001/02, os Celestes não passaram da segunda fase da UEFA Cup, tendo sido eliminados pelos tchecos do Slovan Liberec. Embora tenham terminado o ano em quinto lugar em La Liga, voltando à UEFA Cup, viram o período de Víctor Fernández à frente do time se acabar e com isso parte do sucesso do time. Liderado agora por Miguel Ángel Lotina, o Celta fez papel fraco, novamente, na competição continental. Após eliminar, com dificuldades Odense e passar com autoridade pelo norueguês Viking FK, parou no Celtic.

Naquela instância, Mostovoi, a mais importante figura na transformação do Celta, já tinha alcançado os 34 anos e não atuava com a mesma frequência. Karpin retornara à Real Sociedad e Makélélé se juntara aos Galácticos do Real Madrid. Boa parte do que formou aquela memorável equipe dos anos anteriores já não estava presente. Ainda assim, um ano abaixo do esperado de Valencia e Barcelona, quinto e sexto colocados no Espanhol, levou o Celta, quarto, à UEFA Champions League de 2003/04.

No voo mais alto, veio a queda mais forte

Aquele time ainda era consistente, mas já não encantava. A despeito da boa colocação, tivera apenas o 11º melhor ataque de La Liga (mas a segunda melhor defesa). A despeito disso, fez papel honrado naquela que, até hoje, é a única aparição dos Célticos na mais difícil competição de clubes do planeta.

Depois de superar o Slavia Praga, em fase preliminar, o time chegou ao Grupo H da UCL, dividido com Milan, Ajax e Club Brugge. Com três empates, uma derrota e duas vitórias (o que inclui êxito contra os holandeses, que alinhavam gente como Zlatan Ibrahimovic, Wesley Sneijder, Rafael van der Vaart e Nigel de Jong, e surpreendente triunfo contra o Milan, em San Siro), o time avançou aos mata-matas. No entanto, parou naquele que é possivelmente o melhor Arsenal da história, o campeão inglês invicto daquele ano. Em Balaídos, ofereceu muita resistência, perdendo por 3 a 2. No histórico Highbury, foi batido por 2 a 0.

Porém, em solo nacional tudo corria mal. O fantasma do rebaixamento pairava sobre o clube, que trocou Lotina no meio da temporada por Radomir Antic, outro que cairia antes do fim do ano. O interino Ramón Carnero terminou a campanha e o inevitável aconteceu: com a pior defesa do certame e a 19ª colocação, o Celta foi rebaixado à segunda divisão. O sonho acabara; a temporada que se iniciara com a disputa da UEFA Champions League terminou de forma traumática.

Com isso, ocorreu debandada: Edú foi para o Betis, Manuel Almunia seguiu para o Arsenal, Peter Luccin para o Atlético de Madrid, Juanfran se juntou ao Besiktas, Sylvinho ao Barcelona e o pior: Mostovoi encerrou seu ciclo pelo clube. Embora já não fosse o mesmo, ainda era um ídolo, a bandeira do melhor Celta de sempre.

“Me dá pena não poder dizer que ganhamos isto ou aquilo quando a gente me pergunta, mas estou muito orgulhoso do que conseguimos nesses anos tão bons para todos”, disse o russo em entrevista concedida ao periódico La Voz de Galícia, em julho de 2016.

A despeito de tudo isso, do final trágico da epopeia dos Célticos, a magia daqueles anos, o talento dos jogadores que passaram por Balaídos, os resultados fantásticos e as partidas memoráveis estão registradas na eternidade. Todo torcedor do Celta de Vigo sabe apontar qual foi o melhor período da história de sua equipe.

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