quinta-feira, 22 de março de 2018

Rivalidades, idolatria e lesões: Paulo Futre

Não são muitos os exemplos de atletas que passaram pelos Três Grandes de Portugal. Um dos fatores que melhor explica isso é a força das rivalidades existentes, com intensidades diferentes nos diversos momentos históricos vividos pelas equipes, mas sempre incendiárias. O ponteiro Paulo Futre foi um desses intrépidos.


Foto: D.R.


Segundo as palavras do próprio ex-jogador, o Sporting foi seu “pai e mãe para o futebol”. Já o Porto acabou sendo o lugar “onde cresci e ganhei tudo”, e o Benfica ficou marcado com “o jogo mais completo da minha vida, aquela final com o Boavista, em que ganhamos a Taça [...] Fiz dois golos, uma assistência e um penálti. Foi uma loucura”. Há boas memórias do antigo camisa 10 com todas as principais camisas de seu país.

Um rugido tímido nos Leões

Futre é mais um dos grandes produtos da famosa categoria de base do Sporting CP. No entanto, a passagem do habilidoso ponta por Alvalade, enquanto profissional, foi curta. Desde sua estreia, em 1983, quando tinha apenas 17 anos, sabia-se que estava destinado aos grandes palcos.

Um ano depois, já maior de idade, ficou entre a cruz e a espada. Por um lado, devia sua carreira ao alviverde lisboeta, por outro recebera uma oportunidade financeira mais valiosa que ouro. Segundo contou, posteriormente ao Jornal I, Futre procurou ficar no clube, mas, diante da realidade, tal acabou sendo impossível.

"Ganhava 70 contos [350 euros] por mês no Sporting e o FC Porto ofereceu-me 27 mil contos em três anos [134 mil euros] mais carro e casa. Falei com o Sporting e pedi-lhes 18 mil contos em três anos, 6 mil por ano. Eles disseram-me que estava louco e eu fui para o FC Porto".

A projeção no Porto

É plausível o questionamento a respeito de um possível arrependimento da direção sportinguista. Ainda que fosse muito jovem, Futre teve impacto imediato no antigo estádio das Antas, hoje substituído pelo moderno Dragão.

Figura regularmente utilizada pelo treinador Artur Jorge, já em sua primeira temporada vestindo as famosas listras brancas e azuis Paulo conquistou títulos. Com uma sólida vantagem de oito pontos para seu ex-clube (em um período em que as vitórias valiam apenas dois pontos), levou seu primeiro Campeonato Português. 

Futre, enquanto assistente, acabou sendo um dos responsáveis pela assombrosa marca obtida pelo centroavante portista, Fernando Gomes, que anotou 39 tentos na temporada. Ao final daquele ano, o Benfica também sofreria com a ira dos Dragões, perdendo a Supertaça. No jogo decisivo do replay (necessário uma vez que cada uma das equipes vencera as partidas anteriores por 1 a 0), o garoto foi às redes.


A trajetória rumo ao estrelato foi rápida. Em 1985/86, o Porto voltou a ganhar o título nacional e outra Supertaça, novamente contra o Benfica. Ao final de 86, aos 20 anos, Futre foi eleito o melhor jogador português do ano - o que se repetiu no ano seguinte. Não era para menos.

Quando se desenhou a temporada 1986/87, o retrato do futebol português em solo continental estava obscurecido. Desde os anos 60, com a espetacular geração de talentos do Benfica, uma equipe lusitana não chegava a uma final da Copa dos Campeões. Os Encarnados até beliscaram a conquista da Copa da UEFA, em 1983, mas acabaram perdendo para o Anderlecht.

O maior título de sua carreira

Porém, aquele time do Porto tinha algo de especial, o que ficou comprovado na Copa dos Campeões. Primeiro, massacrou os fracos maltenses do Rabat Ajax. A seguir, vitimaram o tcheco Vítkovice. A disputa ganhou mais força nas quartas de finais, quando os portugueses eliminaram o Brøndby por um marginal 2 a 1, no agregado.

Foto: Getty Images
Nas semifinais, eliminaram os soviéticos do Dynamo Kyiv, vencendo os dois embates por 2 a 1 (o primeiro com gol de Futre).

Na histórica final, a consagração veio perante o poderoso Bayern de Munique.

O esquadrão de Jean-Marie Pfaff, Lothar Matthäus, Michael Rummenigge, Andreas Brehme e Dieter Hoeneß não foi páreo para os comandos de Artur Jorge. A vitória veio em virada e com estilo. Rabah Madjer marcou um emblemático gol de calcanhar e depois serviu o brasileiro Juary. 2 a 1 e consagração. 

Para Futre (segundo colocado no Ballon d’Or do ano), aquela foi a glória da despedida. Em um tempo em que os jogadores portugueses não deixavam o país, após jogar 115 jogos e marcar 33 gols, o ponta assinou com o Atlético de Madrid, firmando um pacto histórico e eterno com o torcedor Colchonero.

Novo destino: a idolatria em Madrid

No estádio Vicente Calderón, o internacional português (havia disputado a Copa do Mundo de 1986) tornou ainda mais evidente sua estrela. Entre 1987 e 1993, foi o grande astro do clube madrileno, que à época tentava rivalizar com o Real Madrid, que tinha alguns remanescentes da Quinta del Buitre, e com o Dream Team do Barcelona, de Johan Cruyff.

Foto: Le Buzz
Para isso, o rojiblanco tinha em seus quadros jogadores como o alemão Bernd Schuster e o hispano-brasileiro Donato.

Entretanto, era Futre o grande astro daquele time. O camisa 10 era o capitão da equipe nas duas oportunidades em que conquistou a Copa del Rey: em 1990/91, vencendo o Mallorca, e em 1991/92 batendo seu grande rival, o Real Madrid - com gol de Futre.

Houve, todavia, um problema em 1993. O Atlético vivia um momento financeiramente difícil e os salários estavam mais de sete meses atrasados. Era necessária a saída d’El Portugués. Após a desistência tácita do Sporting, que não apareceu para concluir o negócio que vinha sendo tratado, Futre foi para o Benfica por intermédio da emissora RTP, que pagou pelo negócio e garantiu dois anos de direitos de transmissão das Águias.

Outro ponto que aumentou a idolatria do craque no Vicente Calderón foi a recusa a se mudar para o rival Real Madrid, em negociação que chegou a acontecer, com o jogador desistindo no final das contas.

Uma oportunidade e uma necessidade no Benfica

Foto: Getty Images
Em entrevista concedida ao jornal Expresso, Futre foi categórico: “nunca perdi com a camisola do Benfica”. Sua estadia na Luz foi rápida, mas ficou marcada. O título português lhe escapou, com o Porto somando mais dois pontos ao final e levantando o caneco. Porém, na Taça de Portugal, Futre fez o jogo de sua vida.

Em uma final espetacular contra o Boavista, então treinado por Manuel José, o clube lisboeta venceu por 5 a 2. Paulo foi perfeito, naquele que considera o jogo de sua vida. Ladeado por Paulo Sousa, Rui Costa, João Pinto e Rui Águas, registrou dois gols e uma assistência.

Ainda assim, o ambiente interno no clube não era bom e as dificuldades financeiras voltaram a ter um papel determinante em sua carreira. Meia temporada depois de sua chegada à Luz, assinou com o Olympique de Marselha.

A continuidade errática

Já nessa altura de sua carreira, Futre convivia com muitas lesões no joelho. Na França, com o OM sob investigação que acabou concluindo pela existência de pagamentos a adversários para facilitarem uma partida contra o Valenciennes, teve passagem curtíssima. Logo foi para o Reggina, tornando-se companheiro de Taffarel.

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Em sua estreia pela equipe italiana sofreu lesão gravíssima e perdeu o restante da temporada. No segundo ano, foi rebaixado à segunda divisão e partiu para o Milan.

Porém, Futre vestiu o imponente manto rossoneri apenas uma vez, na última rodada do Campeonato Italiano. Foi campeão nacional praticamente sem jogar, novamente assolado por lesões.

Logo, partiu para uma nova aventura, dessa vez no futebol inglês, representando o West Ham. Pelos Hammers voltou a atuar pouco. Teve contusões e ficou lembrado por uma história pitoresca, contada por Harry Redknapp, seu ex-treinador.

O português deveria ter estreado na primeira rodada da Premier League, um clássico contra o Arsenal. Mas não aceitou o fazer vestindo a camisa 16: “Eusébio 10, Maradona 10, Pelé 10, Futre 10, não a porcaria do 16", teria dito. Não estreou e ordenou que seu empresário negociasse a camisa. Acabou por fazer seu debute na rodada seguinte, com a 10, e tendo passagem nada marcante pelo clube londrino.

Em 1997/98, tentou uma última oportunidade, voltando ao Atlético. Depois de um curto período de aposentadoria, em que se tornara embaixador do clube, foi chamado às pressas para completar um treino com o time reserva e se destacou. Jogou mais alguns jogos, mas não deu sequência à passagem. Ao final da temporada, foi para o Yokohama Flügels, onde encerrou a carreira.

Futre foi mais um dos virtuosos produtos da base do Sporting. Tornou-se craque no Porto. Ídolo no Atlético de Madrid. Ainda deu motivos para o torcedor do Benfica sorrir. Seu final de carreira foi difícil, mas incapaz de apagar os feitos e singularidades de seu tempo dentro dos gramados.

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