terça-feira, 24 de abril de 2018

Artem Milevskiy, o herdeiro ucraniano perdido

Na década de 90, o Dynamo Kyiv ainda era uma força importante no cenário do futebol europeu. Liderado pelo mítico treinador Valeriy Lobanovskyi, contava com um time forte, cuja qualidade era evidenciada em seu ataque, formado por Andriy Shevchenko e Serhiy Rebrov. Entretanto, as estrelas deixaram a capital ucraniana e o comandante faleceu. Pouco depois disso, no entanto, uma nova esperança apareceu: Artem Milevskiy.


Foto: Getty Images


Os primeiros passos de um talento indiscutível

Embora tenha nascido em Belarus, o habilidoso atacante se mudou para o futebol ucraniano ainda muito cedo. Sua chegada ao time mais vitorioso do país aconteceu em 2002, aos 17 anos. Desde o início, foi utilizado, mas só passou a ser considerado uma opção usual na temporada 2005/06, quando já não era possível ignorar suas habilidades, sua aptidão como assistente e instinto goleador. 

Foto: Getty Images
Nove anos mais novo do que Shevchenko, que logo trocaria o Milan pelo Chelsea e começaria a viver o fim de uma carreira fantástica, Milevskiy era visto como a esperança de um futuro vitorioso para o Dynamo e a seleção ucraniana (apesar de ter defendido seu país de nascimento no escalão sub-16, já no 17 passou a representar a nação azul e amarela, que, em 2006, ajudou a ficar em segundo lugar no torneio europeu sub-21).

Com ele em campo, o Dynamo venceu os campeonatos ucranianos de 2006/07 e 2008/09 - além das copas nacionais de 2005/06 e 2006/07. Mas seus grandes anos acabaram sendo as temporadas 2008/09 e 2009/10. Nesta, foi inclusive o artilheiro do campeonato ucraniano, com 17 gols. 

Com 24 para 25 anos, vivia um momento fabuloso. Embora nunca tenha sido tão artilheiro quanto Sheva, sua habilidade com a bola nos pés, evidenciada pela perícia nos dribles, colocou toda a Europa atenta.

Entretanto, era também sabida a predisposição de Milevskiy para a vida boêmia, assim como sua forte relação com o álcool. Em 2010, o Liverpool chegou a entrar na disputa para contar com seus serviços, apresentando uma proposta que rondou os £13 milhões. Naquela altura, seu empresário foi enfático em entrevista ao Goal UK:
“Milevskiy é um jogador que pode jogar no Liverpool, Manchester United ou Chelsea [...] Ele é um grande jogador e temos interesse sério de um gigante da Premier League”.
A transferência que nunca aconteceu

O interesse, não obstante, nunca se confirmou em transferência. O Dynamo endureceu as negociações e o Liverpool decidiu procurar outras alternativas. Logo chegaram Andy Carroll e Luis Suárez ao estádio Anfield Road. Nos bastidores também se comentou que a conduta extracampo de Milevskiy acabou sendo um dos motivos que tiraram os Reds da corrida por sua contratação.

Foto: Richard Heathcote/ Getty Images
Ainda assim, o atacante ucraniano continuou obtendo bom desempenho. Em 2010/11 ainda foi o grande jogador da equipe e se consolidou titular da seleção. Porém, já no ano seguinte, os gols foram se tornando cada vez mais raros, ao mesmo tempo que o corpo começou a cobrar o preço de uma vida desregrada fora dos gramados. É importante lembrar, também, que as lesões começaram a se acumular, também nesse período.

Na Euro 2012, em que Ucrânia e Polônia dividiram as sedes, já não era titular de seu país, ainda que tenha atuado em todas as três partidas - os amarelos caíram na primeira fase, com derrotas para França e Inglaterra. Depois disso, o tão talentoso atacante só esteve convocado para mais quatro partidas e só entrou em campo uma outra vez.

Depois de uma temporada 2012/13 vivida completamente à margem do time principal do Dynamo, Milevskiy finalmente deixou o clube kievano. Mas, ao contrário do que os prognósticos do início de sua carreira indicavam, não foi a nenhum Liverpool ou Manchester United. Partiu para uma aventura na Turquia, firmando um contrato de três temporadas com o Gaziantepspor.

O vagar de um jogador derrotado

O que poderia significar a redenção para o atacante, que só tinha 28 anos, foi somente mais uma demonstração de que as coisas iam mal. Pela Liga Turca, só representou seu clube seis vezes e marcou um gol. As manchetes mais importantes de que fez parte acabaram sendo as de um acidente de carro, que consumou a perda total de sua Ferrari. O bafômetro confirmou o estado ébrio do atacante.

O Gaziantepspor rompeu seu contrato unilateralmente ainda no final de 2013. Em fevereiro de 2014, Artem viveu uma negociação frustrada com o FC Aktobe, do Cazaquistão, e teve de esperar até o final da temporada para conseguir um novo clube para jogar; seu condicionamento físico indo ladeira abaixo, e a imagem dos dias de glória ficando cada vez mais restrita à memória.


A nova aventura do atacante foi na Croácia. O tradicional Hadjuk Split, rival histórico do Dinamo Zagreb, ofereceu-lhe uma oportunidade, com um contrato de dois anos. Apesar disso, mais uma vez, Milevskiy não correspondeu à confiança depositada em seu futebol. Lá, até foi utilizado com frequência, mas quase não balançou as redes e deixou o clube um ano depois.

Milevskiy continua sua peregrinação no futebol. Depois de deixar o Hadjuk, passou brevemente por outro de seus rivais, o RNK Split. Não durou seis meses. Logo, já vestia a camisa verde dos romenos do Concordia Chiajna. Um ano depois, mudou-se para o FC Tosno, da segunda divisão russa, onde também passou uma temporada, sem marcar sequer um tento.

O retorno à casa

Foto: Dynamo Brest


Finalmente, aos 33 anos, retornou a Belarus, onde defende o Dinamo Brest, tendo voltado inclusive a ganhar um título, com a supercopa do país, conquistada em cima do BATE Borisov. O clube mostrou otimismo quando acertou sua contratação:

“O clube acredita em Artem. Acreditamos que um jogador do seu nível nos ajudará a obter os resultados que queremos [...] É bom que o Artem compartilha a filosofia do clube, e, além de tudo, ele não precisa se acostumar com as cores, uma vez que jogará com seu conhecido azul e branco”.

Até agora, o jogador tem se mantido no clube, mas novamente os gols são poucos, apenas cinco, em 25 jogos. É certo que o passado promissor ficou lá atrás. Sua própria imagem indica que os últimos anos não foram fáceis. Os longos cabelos já não existem, e as rugas de expressão se acumulam, assim como as olheiras. O extracampo pesou demais, mas o jogador não desiste. Não é fácil deixar a bola.

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